Como topicalizar um candidato, por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

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Como topicalizar um candidato

por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

Quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A modinha das manchetes topicalizadas me irrita duplamente: como linguista e como jornalista.

Como jornalista, dá nos nervos ver que o relato da notícia só começa depois da vírgula. Antes tem alguma enrolação, algum contexto, alguma classificação. Ou, como se dizia no século passado, “nariz de cera”. Pois é, o nariz de cera chegou à manchete.

Do lado linguístico, minha irritação dá cambalhotas ao ver que tudo o que se escreve antes da vírgula tem como efeito colateral conduzir o raciocínio do leitor para a percepção da notícia.

Todas as manchetes de capa desta quarta-feira que trouxeram a notícia de Haddad candidato continham topicalizações.

 

  1. Candidato, Haddad tentará em 26 dias herdar votos de Lula (Folha, capa)

  2. Após 17 recursos à justiça, PT lança Haddad (Globo, capa)

  3. Oficializado como candidato, Haddad vira alvo de Ciro (Estadão, interna)

 

Agora releia todas as notícias sem os negritos. Viu? É a manchete pura, em seu estado bruto. Traz o lead resumido em uma frase. Então, temos que:

– No caso da Folha, a topicalização é plenamente dispensável, está implícita no texto após a vírgula.

– Na manchete do Globo, a topicalização faz você perceber a notícia como uma derrota do PT perante a justiça.

– Na manchete do Estadão (que não deu capa para a notícia), o tópico é um aposto deslocado. Um raro momento em que a topicalização deu certo, porque a notícia tá todinha antes da vírgula.

 

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