Da série “não diga que não avisamos”

Da série: “Depois não diga que não avisamosi”

Olá Nassif.

Em 15 de maio do ano passado, postamos aqui um texto que alertava para a pior companhia de Serra: algo como a midiodependência do candidato paulista. Era a aproximação, na verdade, com bandeiras ultra-conservadoras, que depois iriam dificultar sua campanha. Ora, hoje Serra quer dizer ao eleitor que não é um anti-Lula.

Não cola.

Vamos relembrar?

No blog.

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Grande imprensa: riscos para a campanha de Serra

Além do problema de o PSDB ter largado suas posições sociais-democratas e deixado uma avenida enorme para Lula e sua provável candidata, Dilma Rousseff, ocupá-la, a imprensa, no seu deslocamento para uma direita conservadora e às vezes radical, acabou colando sua imagem num político que, nem de perto, fazia este estilo. Os leitores de centro-esquerda e de centro-direita a imprensa já perdeu. Resta saber se José Serra continuará se descuidando deles.

É evidente que em relação a esta minha opinião, haverá objeções sobre se Serra em algum momento não foi uma versão paulista de Arthur Virgílio ou Álvaro Dias. Eu insistentemente direi que não. Serra nunca foi algo como um “PSDB de CPI”, sem agenda programática. Aparentemente é um político com ideias próprias, e que discorda de alguns dos rumos de seu partido (“Esses caras são loucos”, dizia ele sobre o boicote à CPMF).

Não se espera hoje de Serra uma posição de centro-esquerda, ou dele um político popular que “fale a língua do povo”. Mas ele chegou a ocupar, junto com Covas, as posições mais avançadas do partido nos anos 90. Por algum momento, tanto um quanto o outro eram vistos como a consciência crítica desta guinada neoliberal e anti-social do partido.

Com Lula no poder, a imprensa radicalizou sua retórica. Investiu loucamente numa caça às bruxas contra o presidente, e tudo que ele representa de imagem pública (sim, estou discutindo imagem pública, disputas retóricas, e não as questões de Estado e de governo em si mesmas).

Na guerra de opinião, Lula foi derrubando cada argumento: o terrorismo econômico, a impropriedade das redes de proteção social, a suposta inabilidade para questões internacionais. Ao longo deste tempo, a imprensa insistiu em lutar boxe, enquanto Lula sempre jogou capoeira.

O radicalismo que um dia pertenceu ao PT, e que levava a imprensa a chamar o partido de xiita, mudou de lado: aos poucos, não se sabia mais onde terminava o antigo PFL e onde começava o PSDB – perdeu a sobriedade, o equilíbrio, devido à percepção de que a oposição é aquela que escandaliza, exatamente o antigo equívoco do partido de Lula.

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A menos de 18 meses das eleições presidenciais, a mídia anti-Lula (e anti-tudo que ele representa junto às muitas camadas da população brasileira) pode contaminar seriamente a campanha de Serra. Se eu fosse o candidato paulista, tentava desfazer correndo esta vinculação. A cada patinhada da imprensa e da ala xiita do seu partido (como agora na campanha contra a Petrobras), o virtual candidato do PSDB poderia ocupar a mídia fazendo seu contraponto.

A cada condenação dos movimentos sociais, das políticas sociais, das medidas econômicas, ordinárias e excepcionais contra a crise, das decisões na política internacional, Serra poderia se colocar criticamente em relação ao governo, mas também em relação à visão estreita e mecânica da grande imprensa (que joga num binarismo muito precário e sem coerência).

O tempo corre. Serra pode perder muito se não descolar sua imagem do anti-lulismo que a imprensa insiste em praticar. A imprensa acredita piamente que as pesquisas de opinião são imutáveis. Aliás, acredita cada vez mais que ela sozinha é a opinião pública.

Serra, fora uma declaração a outra, está inerte, não reage, não se põe como contraponto da opinião da grande mídia. Parece em estado letárgico, entre acreditar numa carona da imprensa rumo ao triunfo, e desconfiar que esta má companhia decretará seu fracasso.

Eis os nove tópicos que fazem da mídia uma pedra no sapato de Serra:

1. A campanha sistemática contra o Bolsa Família, o Prouni e o PAC.
O governador de São Paulo deve deixar claro à população que não concorda totalmente com a permanente campanha da imprensa contra estas três iniciativas governamentais. Isto não quer dizer que siga exatamente a receita do Governo. Há questões a serem consideradas, observações críticas, necessidades de ajuste, o que enriqueceria o debate. Mas se trata de um suicidio político esperar que a imprensa derrube estas bandeiras do Governo Lula. Recentemente, ao mesmo tempo em que o Globo vem publicando diversas matérias condenatórias ao Bolsa, o PSDB anunciou que vai apoiar o Bolsa Família em campanhas pelo Nordeste. Pode ser um começo. Mas é pouco.

2. A insistência em desqualificar o eleitor do Nordeste e o discurso de classe. A defesa de posições absolutamente elitistas como as do Globo, no caso das remoções de favelas.
É lógico que o posicionamento preconceituoso contra regiões, classes sociais e pessoas praticado pela imprensa não é bom para Serra. Para piorar, a imagem de que o PSDB é um partido de ricos está muito assentada. Portanto, é necessário que o governador evite esta associação. Declarações públicas contra estes preconceitos podem salvar sua vida política.

3. A “imbecilização” dos ditos presidenciais.
A máxima de que tudo que Lula diz é um despropósito soa como desrespeito a quem apóia o presidente. Serra evidentemente deve e pode discordar do Governo, mas o eleitor percebe quando há pura e simplesmente antipatia e perseguição.

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4. As posições neoliberais tardias e a indisfarçável torcida pela crise.
Recentemente, o Estadão publicou matérias e opiniões condenando a pesquisa do IPEA que mostrava que o Estado brasileiro não era tão inchado quanto sempre se propagou. É o ranço neoliberal, tardio e anacrônico, que ainda corre nas veias de nossos maiores veículos. Concursos públicos e valorização do funcionalismo público soam como veneno para o corpo da imprensa. Serra deve apresentar propostas claras para sua agenda de Estado. Se deixar a imprensa colar nele o receituário neoliberal, é morte política na certa.
Um outro problema que a grande mídia arranjou para Serra: ao torcer pela crise, a imprensa praticamente entregou à candidata de Lula uma bandeira política: “enquanto o governo torcera para que a crise fosse uma ‘marolinha’, a oposição lutou para que tivéssemos uma ‘tsunami'”; bandeira que se fortalecerá se o país sair bem da crise.

5. O unilateralismo internacional e o reconhecimento mundial de Lula.
Recentemente, Obama fez críticas à política de Uribe, que fecha os olhos para assassinatos de indígenas e sindicalistas, por parte de paramilitares, que não fazem qualquer questão de esconder sua simpatia pelo presidente colombiano. Absurdos como estes são absolutamente silenciados em nossa grande imprensa, que só enxerga demônios em Chavez, como se política internacional pudesse ser reduzido a um folhetim de segunda categoria com mocinhos e bandidos. Espera-se de um presidente que não seja novelesco assim. Para piorar, o reconhecimento internacional de Lula – como o prêmio da Unesco – mostra no mínimo a razoabilidade de seu desempenho. Hoje, entre a opinião de Obama e de um editorial da Folha, é lógico que o eleitor vai acreditar na opinião de Obama.

6. A associação com discursos preconceituosos e de conotação racista nos blogs de esgoto.
Há uma parte da imprensa que fica com o que há de pior e que não convém ser publicado nas páginas centrais: terrorismo de opinião, acusações levianas, mensagens de conotação racista e preconceituosa. Serra deve dispensar o apoio deste grupo de parajornalistas o mais rápido possível. Se puder, pedir encarecidamente que eles parem de publicar seu nome.

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7. O discurso moralista raivoso, que se revela hipócrita quando confrontado com casos como o de Daniel Dantas.
O eleitor sabe perfeitamente que os moralistas se entregam mais cedo ou mais tarde. Boa parte da bancada de Daniel Dantas no Congresso é composta pelos mesmos que, volta e meia, defendem a moralidade e os bons costumes. Recentemente, a confusão das passagens mostrou que problemas atingem a todos os partidos, indiferenciadamente. Isso o eleitor sabe perfeitamente. Daí que uma espécie de “maldição da CPI” se abateu contra os personagens da época do “mensalão”, e quase nenhum deles foi reeleito. Serra não pode esquecer disso. Deve se afastar do tom moralista na sua campanha.

8. Gilmar Mendes como “líder da oposição”, o desprezo pelo “sujeito da esquina” e o apoio popular a Joaquim Barbosa, atacado pela mídia.
A imprensa fez o mau favor de proclamar Gilmar Mendes como “líder da oposição”. Logo depois do bate-boca no Supremo, a rede se encheu de manifestações de apoio ao ministro Joaquim Barbosa, mostrando a baixíssima receptividade pública de Gilmar, visto como elitista, arrogante e intrometido em questões que não lhe convém. Serra vai ter que mostrar que não compactua com nada que Gilmar defende.

9. A condenação das esquerdas e dos movimentos sociais.
Serra sabe que não dá para jogar uma banda ideológica inteira no lixo. Sabe que não basta somente se eleger. Recentemente, a Folha ofendeu gravemente a memória das esquerdas ao decretar que a ditadura fora uma “ditabranda”. A Folha apóia Serra, logo…
Dois meses depois de eleito, se sua popularidade for como a de Sarkozy hoje, será um governo penoso, triste, terminado antes do fim. E o fantasma de Lula rondará o Planalto em cada corredor, em cada sala, em cada pesquisa de opinião pública. A verdadeira, lógico 

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