Dignidade sexual e exposição midiática em questão

Por Antonio Nelson*

O respeito à dignidade sexual, a pedofilia na internet, exposição midiática, caso Escola Base, Família Nardoni e o assassinato da jovem Heloá, entre outros assuntos foram abordados pelo professor universitário da área de Ciências Criminais e advogado criminal, Yuri Carneiro Coelho. Confira entrevista exclusiva!

Antonio Nelson – Mudanças culturais, comportamentais e jurídicas, nos últimos 30 anos, contribuíram para estimular atos de crimes contra a dignidade sexual?

Yuri Carneiro – Sem dúvida nenhuma contribuí. Os crimes de natureza violenta, contra pessoas, têm a depender do status social que você identifique, maior ou menor criminalidade. Uma relação profunda com a Economia e com o desenvolvimento econômico. Também tem uma relação com a Cultura muito forte. Alguns crimes sexuais são decorridos de patologias, que tem uma causa clínica, não social, mas outras espécies de crimes são decorrentes de fatores sociais e também de uma ordem comportamental de cultura que está muito mudada atualmente. A liberalidade é muito maior, o que faz com que as pessoas se exponham mais, e muitas vezes essa exposição faz com que pessoas invadam essa liberdade praticando crimes sexuais.
Antonio Nelson – Quais os crimes mais comuns praticados por programas popularescos e de entretenimento?

Yuri Carneiro – Diria para vocês que são crimes contra honra, ofensas, estimulações, injúrias contra pessoas, exposição da imagem de forma indevida, principalmente aqueles que tratam de delitos. Sabemos muito bem que tipo de programa são esses, que às vezes só retratam os problemas da nossa sociedade, filmando pessoas, intimidando, mostrando pessoas supostamente acusadas de delitos, colocando elas como párias da sociedade, como se muitas vezes não tivessem direito de defesa. Em muitos casos são pessoas que são acusadas injustamente ou não cometeram atos que se embute a elas. Temos que ter muito cuidado com esses tipos de programas que sem uma investigação séria jornalística acabam determinando a responsabilidade para aqueles que não têm, apenas por uma questão de audiência. É muito bom você mostrar sangue e ter audiência, mas não para quem é vítima.
Antonio Nelson – Qual fato mais lhe impactou?

Yuri Carneiro – O que a mídia fez com dois casos, o da filha dos Nardonis e o da Heloá. Foi algo fora do comum, algo que tem que ser retratado, chegou a ser exagerado. No passado, tivemos um caso muito sério que foi o da Escola Base, em São Paulo, no qual as autoridades públicas do estado julgaram como responsável o casal e depois se descobriu que eles não tinham nenhuma relação com atos de pedofilia, do qual tinham sido acusados. Tem que se tomar muito cuidado quando se acusar alguém, principalmente quando expor esse pessoal na imprensa.

Antonio Nelson – Quais são os direitos do cidadão para que os veículos popularescos e de entretenimento respeitem a dignidade humana?

Yuri Carneiro – O direito a inviolabilidade da privacidade, da intimidade. É preciso que se respeite isso, e que não saia invadindo, mostrando tudo o que se acontece como se não tivesse limites. Acredito, por exemplo, que a derrubada da Lei de Imprensa foi importante, pois ela criava muita limitação, mas é necessário regular a atuação da impressa para que ela tenha um equilíbrio, e se mantenha a liberdade de imprensa, a qual é fundamental para o país, mas que não se tenha uma liberdade condicional. É preciso equilíbrio na divulgação da informação.

Antonio Nelson – A quem o cidadão deve recorrer quando for tratado injustamente?

Yuri Carneiro – Ao Poder Judiciário. Em determinadas situações, só em casos concretos é que deve procurar uma delegacia de polícia, mas o poder judiciário é o meio mais adequado.

Antonio Nelson – Quais os constrangimentos mais frequentes entre casais?

Yuri Carneiro – Do ponto de vista prático, hoje em dia é muito menos tocante os crimes sexuais e sim a violência física, que a Lei Maria da Penha vem abarcando e vem dando certa guarita a mulher, que é a maior vítima da violência familiar.

Antonio Nelson – E o papel do Estado?

Yuri Carneiro – O Estado tem que ser educativo em prevenção, principalmente na área de Educação. Como o Estado não fornece uma Educação adequada às pessoas são criadas em um ambiente educacional e cultural impróprio, por falta de informação e Educação faz com que as pessoas não sejam orientadas de como devem ser suas vidas, conduzidas da melhor maneira possível, respeitando o direito dos outros.

Antonio Nelson – Está havendo políticas públicas, principalmente no estado da Bahia, para amenizar esses problemas, no campo da sexualidade?

Yuri Carneiro – Quanto aos problemas de criminalidade, não vejo como políticas públicas. Inclusive passamos por uma grande crise na Segurança Pública. Óbvio que esperamos que o Governo adote medidas para prevenir a diminuição da criminalidade do país. Depende de uma grande estrutura econômica que gere menos desigualdade social. Do ponto de vista de intervenção direta, a curto prazo, não temos visto muitas políticas públicas para amenizar esse problema.

Antonio Nelson – Músicas com letras eróticas e pornográficas podem estimular a atitudes delituosas?

Yuri Carneiro – Quanto à violência acredito que não estimule. O que estimula é a liberdade social. Quanto a crimes, não temos visto isso no Brasil não.

Antonio Nelson – Quanto à pedofilia na Internet?

Yuri Carneiro – Tem ocorrido muito. Inclusive temos um programa que é o CQC (Custe o que Custar – da Rede Bandeirantes de Comunicação), o qual tem um quadro que tenta retrair pedófilo, o que mostra que a internet tem sido um veículo de expansão da pedofilia. Não que a rede deva ser limitada, mas deve sim aparelhar melhor o Estado para se discutir o que há, através da rede, desses pedófilos, e retirar.

É preciso ter um pouco mais de atenção, principalmente nas escolas, quanto à educação sexual, de cuidado e trato nas escolas com os nossos menores, para ajudá-los a se defenderem. É importante ter um bom aparelhamento dos nossos juizados, acompanhamento da família nos juizados, para que ele possa exercer com maior eficiência o poder normativo que tem, porque essa talvez seja a melhor forma, de pelo menos paliativamente, diminuir a pedofilia no país, além de você criar uma rede de investigação mais eficiente.

*Antonio Nelson é jornalista, ciberativista da liberdade na rede e do software livre.Capture o ciberjornalista pulverizado no cibermundo: 

GGN O JORNAL DE TODOS OS BRASIS, site do Luis Nassif.

 

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3 comentários

  1. Um caso que está bombando

    Um caso que está bombando agrora foi o assassinato da menina em Campo Grande numa briga de escola.

    Um vídeo com o assassinato  está sendo mostrado no GLOBO.

    Isso foi ontem. Hoje a GLOBO conseguíu com a polícia um OUTRO vídeo.

    A polícia pode ficar liberando vídeo de menor sendo assassinado pra imprensa?

    Pode isso Arnaldo?

    • Opa, voltando ao

      Opa, voltando ao artigo…

       

      O ADV elogiou o CQC? É isso mesmo?

      Eu acho que para que nossa sociedade caminhe devemos escutar MENOS advogados. Eles tem sérias limitações.

  2. Show do Pedro Augusto

    Pessoal, tem aqui no Rio um programa da rádio Tupi que é o tal show do Pedro Augusto ( que é um deputado e  hipócrita católico). O programa é um escárnio com o povo que sofre e tem fé. Segundo dizem, esse lixo é campeão de audiência… Pois é… Algo que é profundamente prejudicial e horrendo acaba sendo o preferido das massas midiatizadas e imbecilizadas pelo controle social.

    O tal “show” começa com um giro de tragédias brasil afora onde os crimes mais bizarros são selecionados para o deleite de desmiolados que se nutrem com temas chocantes. Nessa parte, os crimes mais escabrosos noticiados naquele dia são narrados superficialmente (o que importa é ter barbaridade todo dia!). O tema é tragédia. O programa não se interessa por nada que não seja trágico e sangrento. Os crimes de apelo sexual são os pratos principais. A linguagem é sempre vulgar, acusatória, pesada. Como os senhores podem imaginar, a esmagadora maioria desses crimes ocorrem no seio das classes menos abastadas, digamos assim… A reiteração diária (e por décadas) tem como efeito e propósitos a criminalização da pobreza, é claro, e os lucros.

    Na segunda parte, talvez a mais nojenta de todas, o próprio Pedro Augusto narra com deboche, voz alterada, reiterações propositais, usando jargão pesado e aviltante, um dos crimes mais escabrosos do dia. Em paralelo, “atores” fazem uma espécie de novelinha onde os momentos de sofrimento, sordidez, sexo violento, etc são encenados num escárnio de fazer corar até o Marquês de Sade. É nojento, vejam ai o link com a porcaria em destaque:

    http://www2.tupi.am/showpedroaugusto

     

    Na terceira parte do “show” (de horrores), de certa forma a mais asquerosa, o locutor parece mudar completamente (e descaradamente) de tom. Adota um voz trêmula, num timbre quase sacerdotal, e passa a fazer as “obrigações” de sua “devoção” à Nossa Sra. Segue dai mais uns 40 ou 50 minutos de carolice abjeta, orações entoadas com apelo musical, forjada candura, exploração descarada da fé das pessoas simples. Chega a dar ânsia de vômito lembrar que aquele que falava há alguns instantes de forma debochada torna-se repentinamente um devoto fervoroso da santa… 

    Eu já denunciei esse programa dezenas de vezes, inclusive enviei cópias de audio para uma antiga comissão da câmara federal que avaliava o conteúdo televisivo. O chefe da comissão me enviou um e-mail agradecendo muito, dizendo ter arquivado a reclamação, mas declarando que o que estava em foco era o conteúdo telvisionado e que num primeiro momento a programação de rádio não seria analisada.

    Eu faço um apelo ao Nassif para que ponha futuramente a discussão do conteúdo da radiodifusão no brasil em debate no blog e nos seus veículos.

    Amigos, é no rádio que as grandes massas são expostas ao que há de pior na nossa cultura. Se voces acham o Datena vulgar e picareta, voces vão enrubescer ao escutar os programas de rádio dedicados aos casos policiais e tragédias em geral…

    Dei meu recado…

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