Folha derrapa entre conceitos e feitos, por Luis Felipe Miguel

Folha derrapa entre conceitos e feitos

por Luis Felipe Miguel

A Folha dá outra manchete para os surveys de seu instituto de pesquisa e observa um crescimento da “esquerda” na população brasileira. O resultado é baseado em índice criado a partir das respostas a 16 perguntas. É de esquerda, por exemplo, quem responde que a pobreza “está ligada à falta de oportunidades iguais”. A resposta da direita é que a pobreza “está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar”. A resposta de que a pobreza é consequência de desequilíbrios estruturais do capitalismo não é uma alternativa.

Questões sobre economia, sobre direitos e sobre valores são misturadas livremente. Foi considerado de direita quem concordou com a afirmação “quanto menos eu depender do governo, melhor será minha vida”, interpretada como uma oposição aos programas sociais. Mas quem discordaria dela, sabendo que os benefícios recebidos do Estado podem a qualquer momento ser ameaçados por algum governo golpista? Melhor não depender mesmo.

Em suma, a pesquisa é um planetário dos erros metodológicos e da ingenuidade epistemológica que caracteriza grande parte dos surveys e da construção de índices, algo sobre o qual falei outro dia. Creio que seu valor como perscrutação das posições “ideológicas” (posição no eixo esquerda-direita não é “ideologia”, mas essa é outra discussão) dos brasileiros tende a zero.

Poucas páginas adiante, o colunista Celso Rocha de Barros dá seu pitaco sobre o que é a esquerda e qual devia ser seu programa, a propósito do livro de Ruy Fausto. Elogia no livro o objetivo de “livrar” a esquerda de “heranças totalitárias e populistas”.

São dois adjetivos que me provocam arrepios. Como conceito, “totalitarismo” é uma invenção da Guerra Fria, elaborado para estabelecer uma identidade política entre a União Soviética e a Alemanha nazista (ambas “totalitárias”), em oposição ao fato de que os países do Eixo e o autodenominado “mundo livre” eram duas variedades da dominação burguesa. Teve versões mais sofisticadas, como a de Hannah Arendt, mas, fora do contexto da Guerra Fria, mostrou-se um conceito inservível. Transitou para a linguagem corrente designando simplesmente um autoritarismo muito forte, tingido – e aí está o pulo do gato – pela ambição de transformar radicalmente a sociedade. É esse o ponto, parece, que incomoda mais a Barros. Já o populismo tornou-se um passe-partout conceitual para enquadrar negativamente tudo o que cheira a compromisso com a resposta imediata às demandas mais prementes dos pobres.

Essa interpretação do significado de “totalitarismo” e “populismo” é consistente com a principal crítica que Barros faz a Fausto (cujo livro, convém deixar claro, eu não li). Ele “teme” que as incursões “pelo tema do ‘anticapitalismo’, embora nuançadas, possam favorecer a esquerda economicamente irresponsável”.

Este é o ponto: talvez uma linha divisória entre esquerda e direita seja a aceitação ou não do critério de “responsabilidade econômica” definido pelo capital. Nesse caso, Barros devia se eximir de ficar na posição de porta-voz de uma posição que não é a sua.

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8 comentários

  1. Pesquisa insípida e inodora….discussão inútil

    Li sobre o assunto e vi o infográfico da Folha. Desconfio sempre de pesquisas; são discutíveis, seus objetivos podem ser sérios ou desonestos e daí a metodologia pode ser neutra, indutiva, persuasiva, etc. Então minha posição é a mesma do autor do post Sempre há 2ªs e 3ªs intenções. O questionamento tambem pode ser porque o autor não gosta da Folha que para ele representa o PIG, monopolio familiar, etc. Direita e esquerda refletem um conceito ambíguo e um indivíduo pode estar em qualquer uma das mãos dependendo das circunstâncias ou mesmo conveniências. Há também o maniqueísmo do bem e do mal. Bobagem.

  2. Para começar

    “Para compreender melhor a ideologia dos termos, é importante ter acesso à leitura dos principais filósofos das duas correntes políticas. A esquerda tem como seus principais nomes Karl Marx, Friedrich Engels, Leon Trotsky, Vladimir Lênin e Mikhail Bakhtin, enquanto a direita tem como seus principais entusiastas filósofos como Adam Smith, Edmund Burke, Russell Kirk, Samuel Johnson, Ludwig von Mises e Raymond Aron.”

  3. A folha está é tentando

    A folha está é tentando encontrar uma maneira de meter medo em seus incautos leitores usando aquele mesmo tipo de paranóia anticomuninsta dos tempos da guerra fria.

  4. Não pense que a Folha é tão ingênua assim.

    Não tem pergunta retórica? Então… tem pesquisa retórica, também.

    Folha: manipulando incautos desde… desde sempre.

    (E se fosse só a Folha, tava ótimo…)

    • Características

      A pesquisa não mostra a ideologia do leitor, apenas mostra o pensamento do cidadão quanto a sua visão política dos fatos.E isto  espelha apenas aquilo que é considerado como característica ideológica.

  5. Esquecem que uma pessoa pode

    Esquecem que uma pessoa pode não necessitar do estado, mas julgue necessário o estado proteger quem precisa. Não é tão simples assim…

  6. Pura manipulação. Qualquer
    Pura manipulação. Qualquer pesquisa feita neste momento sempre vai mostrar uma grande demanda social , ė muito desemprego devido a uma recessão provocada pela crise política. E se a pesquisa fosse na época do pleno emprego com o Lula presidente ? Da até para imaginar o resultado.

  7. bem observado

    Eu também tenho horror aos adjetivos “totalitario” e “populista” e como a imprensa os manipula.

    Para ” eles ” a Coreia do Norte é totalitaria mas a Arabia Saudita e seus vizinhos não o são.

    Se um governo dá condições de os pobres progredirem (vide Equador ou Bolivia) é populista mas se dá grandes beneficios aos ricos ( GB, USA, Brasil etc) não…

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