Jornalismo de TV: bate papos bizantinos e o analista incomum, por Luis Nassif

Um jornalista critica o abono salarial. É um 14o salário que é dado a empregados registrados com salários de até 2 salários mínimos. É um abuso, claro, porque há muitos jovens de classe média começando a trabalhar e que são beneficiados.

Discute-se a Lei do Teto e Paulo Guedes sob o enfoque do “nosso dinheiro”.

Um jornalista critica o abono salarial. É um 14o salário que é dado a empregados registrados com salários de até 2 salários mínimos. É um abuso, claro, porque há muitos jovens de classe média começando a trabalhar e que são beneficiados.

Provavelmente, acabando com o abono, eliminam-se os abusos de meio porcento de jovens de classe média e de 99,5% de empregados de baixo salário. É justo!

Ah, mas tem a Farmácia Popular. Aí o jornalista veterano diz que entrou em uma farmácia popular, pediu um remédio e o farmacêutico disse que era de graça, porque fazia parte da lista básica oferecida pelo SUS. Mas como ele é ético, não aceitou não pagar. E a discussão enveredou para a ética como saída para evitar os abusos. Nem se pensou na hipótese de que, como o remédio é de graça, se o jornalista pagou, o dinheiro ficou com a farmácia.

E todos passaram a falar sobre a importância da ética e, claro, da entidade mercado. De como, se Paulo Guedes for abandonado, a Lei do Teto for abandonada, a entidade mercado sairá do país e o futuro prometido não se realizará. E como Guedes defende o “nosso dinheiro”, ele tem que definir os programas sociais, para não afetar o “nosso dinheiro”.

Quando estava conformado de ser sufocado por aquela larva quente de senso comum, que ocupa quase todos os espaços da análise televisiva, entra a análise consistente.

Se se for analisar especificamente do lado financeiro, o remédio para diabetes, distribuído nas farmácias populares, significa uma economia enorme, por evitar tratamentos custosos de pessoas que sucumbem às doenças. O analista sabe que o objetivo maior de toda política social é o de proteger os cidadãos, especialmente os mais vulneráveis. Mas calibra o argumento para derrubar a lógica exclusivamente financeira dos colegas.

Políticas sociais não podem ser montadas por Ministérios econômicos, pela absoluta falta de visão sistêmica sobre o tema, diz ele. Assistência social é um sistema, que envolve vários setores que têm que trabalhar de forma integrada. Mas o atual governo desmontou toda a estrutura de assistência social e se contentou com meros aplicativos entregando dinheiro na ponta.

Definitivamente, Otávio Guedes é uma avis rara no universo de senso comum da televisão.

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