Jornalismo, produto essencial para o futuro da democracia, por Carlos Alberto Di Franco

Jornal GGN – Em artigo publicado nesta segunda-feira (19) no Estadão, o jornalista Carlos Alberto Di Franco defende a importância do jornalismo independente e qualificado para o funcionamento das sociedades democráticas. Para ele, com a enorme quantidade de informação disponível atualmente, nos tornamos “reféns da superficialidade”, com uma demanda reprimida de reportagem e por conteúdos editados com rigor.

“A credibilidade não se edifica com descargas de adrenalina”, argumenta, dizendo que a crise vivida atualmente pelo jornalismo tem relação íntima com a queda de qualidade de conteúdo e com o abandono da sua vocação pública e sua “equivocada transformação em produto mais próprio para consumo privado”.

Leia a coluna completa abaixo:

Do Estadão

Jornalismo, produto essencial

Sem jornalismo público, independente e qualificado, o futuro da democracia é incerto e preocupante

por Carlos Alberto Di Franco

Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lá estavam as nossas lembranças, os nossos registros afetivos, a nossa saudade. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava. Era bem legal.

Agora fotografamos tudo e arquivamos compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos de nossos dispositivos móveis. Temos overdose de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos. Fica para depois. E continuamos fotografando e arquivando. Pensamos, equivocadamente, que o registro do momento reforça sua lembrança, mas não é assim. Milhares de fotos são incapazes de superar a vivência de um instante. É importante guardar imagens. Mas é muito mais importante viver cada momento com intensidade. As relações afetivas estão sucumbindo à coletiva solidão digital.

Algo análogo, muito parecido mesmo, se dá com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. Uma enxurrada de estímulos dispersa a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica. A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa sensação de liberdade. Não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os editores do nosso diário personalizado. Será? Não creio, sinceramente. Penso que há uma crescente nostalgia de conteúdos editados com rigor, critério e qualidade técnica e ética. Há uma demanda reprimida de reportagem. É preciso reinventar o jornalismo e recuperar, num contexto muito mais transparente e interativo, as competências e a magia do jornalismo de sempre. É preciso olhar para trás para dar saltos consistentes.

“Hoje”, dizia Nelson Rodrigues, “ninguém imagina o que eram as velhas gerações românticas da imprensa. Mudaram o jornal e o leitor. No ano passado, houve uma chuva inédita, uma chuva bíblica, flagelando a cidade. Desde Estácio de Sá, não víamos nada parecido. E todo mundo morreu e desabou, e se afogou, menos o repórter. Não houve uma única baixa na reportagem. Fez-se toda a cobertura do dilúvio e ninguém ficou resfriado, ninguém espirrou, ninguém apanhou uma reles coriza. Por aí se vê que há, entre a nossa imprensa moderna e o fato, uma distância fatal. O repórter age e reage como um marginal do acontecimento. Antigamente, não. Antigamente, o profissional sofria o fato na carne e na alma.”

Jornalismo sem alma e sem rigor. É o diagnóstico de uma perigosa doença que contamina redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto. As empresas precisam repensar os seus modelos e investir poderosamente no coração. É preciso dar novo brilho à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, isento. O prestígio de uma publicação não é fruto do acaso. É uma conquista diária. A credibilidade não se edifica com descargas de adrenalina.

É preciso contar boas histórias. Com transparência e sem filtros ideológicos. O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história. Na verdade, a batalha da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos, próprios de opções ideológicas invencíveis, transformam um princípio irretocável num jogo de aparência.

A apuração de mentira representa uma das mais graves agressões à ética e à qualidade informativa. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade, mas num artifício que transmite um simulacro de isenção, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade culmina com uma estratégia exemplar: repercussão seletiva. O pluralismo de fachada, hermético e dogmático, convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a notícia. Cria-se a versão.

Sucumbe-se, frequentemente, ao politicamente correto. Certas matérias, algemadas por chavões inconsistentes que há muito deveriam ter sido banidos das redações, mostram o flagrante descompasso entre essas interpretações e a força eloquente dos números e dos fatos. Resultado: a credibilidade, verdadeiro capital de um veículo, se esvai pelo ralo dos preconceitos.

A precipitação e a falta de rigor são outros vírus que ameaçam a qualidade. A incompetência foge dos bancos de dados. Na falta de pergunta inteligente, a ditadura das aspas ocupa o lugar da informação. O jornalismo de registro, burocrático e insosso, é o resultado acabado de uma perversa patologia: o despreparo de repórteres e a obsessão de editores com o fechamento. Quando editores não formam os seus repórteres, quando a qualidade é expulsa pela ditadura do deadline, quando as pautas não nascem da vida real, mas de pauteiros anestesiados pelo clima rarefeito das redações, é preciso ter a coragem de repensar todos os processos.

A crise do jornalismo está intimamente relacionada com a perda de qualidade do conteúdo, com o perigoso abandono de sua vocação pública e com sua equivocada transformação em produto mais próprio para consumo privado. É preciso recuperar o entusiasmo do “velho ofício”. É urgente investir fortemente na formação e qualificação dos profissionais. O jornalismo não é máquina, tecnologia, embora se trate de suporte importantíssimo. O valor dele se chama informação de alta qualidade, talento, critério, ética, inovação.

Sem jornalismo público, independente e qualificado, o futuro da democracia é incerto e preocupante. O jornalismo precisa recuperar a vibração da vida, o cara a cara, o coração e a alma.

A todos, feliz Natal!

*Jornalista

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7 comentários

  1. Boa coluna…

    Boa coluna, muito pertinente nestes nossos tempos……teriam que le-la todos os dias e todos os colunistas/jornalistas, antes de escrever qualquer coisa la no estadão…..devo acresentar, porem, que não se trata so de uma questão de jornalismo publico, mas tambem de jornalismo “privado”, todos as criticas feitas, são aplicaveis aos jornalismo dito “privado”, que um jornal tenha uma certa orientação “politica”, não o insenta de dizer “verdade” digamos assim…..interpretar fatos pela visão “politica/ideologica” do jornal a tem um certo ponto, me parece normal desde que voce tenha o “contraponto” de veiculos de informação com outras visões “politicas/ideologicas”…..o que não da é fazer jornalismo-ficção…ficção por ficção, prefiro um bom livro….. e me parece, salvo exceções que todos comhecemos, o que se faz hoje no  jornalismo mainstream  brasileiro é jornalismo-ficção…..

  2. Muito bom, mas

    Muito bom, mas o veículo onde ele escreve e outros semelhantes são quem mais abandonaram o que ele prega.

    “O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história.”

    O jornalismo brasileiro cada dia vem construindo uma história que mais do que nunca escurece nossa cena política. Querem que uma determinada visão da realidade se imponha ainda que rejeitada nas urnas. Cria mocinhos e vilões o tempo todo; silencia para os primeiros (escolhidos por eles) e grita para os segundos (bem selecionados).

    Se os jornais tradicionais quiserem sobreviver, vão ter que rever radicalmente o que estão fazendo.

  3. O fim do jornalismo

    O fim do jornalismo

    Morto o rei, viva o novo rei. Morto o jornalismo, viva a Internet. Por pior seja a Internet nunca vai ser pior que o do Estado de São Paulo. SEMPRE foi ruim, apena com o sugimento da Internet podemos fazer a comparação.

  4. Não podia ter um manual de

    Não podia ter um manual de jornalismo atual  mais bem resumido. Jornalistas, apenas sigam o que  está escrito aqui e terão emprego tranquilo. Por mais seis meses. Depois disso, sobrarão apenas os repórteres de celebridades, de futebol e, e, não me oocrre mais nada.

  5. Pra que reportar se pode deformar?(Se) Aconteceu virou…detalhe

     Este comentário se destina ao assunto e não ao artigo propriamente – parece discurso pacifista da indústria de armamento, ó, hipocrisia – me refiro ao jornal porque o jornalista não conheço para julgar sua boa fé.

    Tudo que o capital toca vira produto e atende à sua lógica mefistofélica de barganhagem pervasiva, ilimitada e de fim meramente concentracionista e hedonista, portanto, por que estaria o jornalismo a salvo se, como quase tudo na vida mercantilizada contemporânea, virou artigo industrializado e de massa? Ao contrário, assim como a educação e a cultura (e não a indústria do entretenimento) e tudo que tem potencial para questionar e subverter não apenas essa lógica mas sua eficácia social – ao colocar em curto circuito o efeito hipnótico e sedutor do marketismo e do conforto de pertencer a uma manada unívoca, que leva ao consumismo incessante e autorreprodutivo também de idéias e comportamentos – o jornalismo roots é um corpo estranho a ser destruído porque deve se recusar, na medida do possível, a ser absorvido pela força gravitacional do capitalismo “buraco negro” e para os soldados do “tudo e [email protected] por dinheiro” esta concorrência é fatal.

    A maior prova disso é que, também como consequência direta e tão grave quanto as sucessivas crises econômicas e humanitárias provocadas pelo capitali$mo transnacional globalizante, o jornalismo oficial apresenta as mesmas deficiências (felizmente há sinais de resistência) em vários lugares do mundo. Por exemplo, a invenção, ou seria redescoberta?, social mais perniciosa deste início de século, a pós-verdade – a própria palavra é de um cinismo colateral pouco discutido porque não é pós nada, a verdade é uma busca permanente porque insuperável, estamos na verdade na mesma história humana imemorial da mentira e da astúcia como fiel da balança; um eufemismo detestável por não dar nome aos bois: a era da mentira e do boato, se quiserem um charme retórico, da antiverdade, da contraverdade, da subverdade, da verdade on-demand, verdade customizada (o bom e velho “ao gosto do freguês”) ou verdade condicional. Não são as muitas faces da verdade ainda em prospecção, há apenas as suas máscaras grotescas e irreconhecíveis, como em filmes de terror ou nas pessoas deformadas pela indústria estética.

    “Quase acreditei, quase acreditei
    E, por honra, se existir verdade
    Existem os tolos e existe o ladrão
    E há quem se alimente do que é roubo” (trecho da música “Metal contra as nuvens”, de Renato Russo e Legião Urbana)

    A eleição de Trump e o fortalecimento da extrema direita belicista e antissocial no mundo todo são parcialmente produto do uso da fábrica de medo, mentira e manipulação que é a indústria noticiosa que precede a torre de Babel e a que o jornalismo digno do nome tinha como uma de suas missões superar, antes de ser deglutido e regurgitado por ela.

    Abaixo, duas entrevistas de que participou a grande jornalista americana Amy Goodman, apresentadora e diretora do programa diário independente americano Democracy Now, que demonstra que a luta é a mesma no mundo todo, contra as grandes corporações financeiras, que têm no jornalismo seu braço à direita ideológico-militarizado contra os interesses de uma sociedade multidiversa, multirracial, pacifista, solidária e que têm na solução dos grandes dilemas sociais, humanos e ambientais sua principal preocupação, e não a mera acumulação de coisas (títulos honoríficos, objetos, fama, reputação, dinheiro) enquanto diariamente milhões morrem de fome e sede e doenças e a natureza agoniza por nossa absoluta IRRESPONSABILIDADE.

    “É a verdade o que assombra
    O descaso que condena
    A estupidez o que destrói
    Eu vejo tudo que se foi
    E o que não existe mais
    (…)
    Esta é a terra-de-ninguém
    Sei que devo resistir
    Eu quero a espada em minhas mãos

    Eu sou metal: raio, relâmpago e trovão
    Eu sou metal: eu sou o ouro em seu brasão
    Eu sou metal: quem sabe o sopro do dragão

    Não me entrego sem lutar
    Tenho ainda coração
    Não aprendi a me render
    Que caia o inimigo então

    Tudo passa
    Tudo passará

    E nossa história
    Não estará
    Pelo avesso assim
    Sem final feliz
    Teremos coisas bonitas pra contar
    E até lá
    Vamos viver
    Temos muito ainda por fazer
    Não olhe pra trás
    O mundo começa agora

    Apenas começamos” (trecho da música “Metal contra as nuvens”, de Renato Russo e Legião Urbana)

     

    Infelizmente, as entrevistas não estão legendadas e seria interessante que alguém o fizesse e disponibilizasse para reforçar a mensagem de que não só é uma necessidade como pessoas ao redor do mundo vêm lutando por um jornalismo sério e competente que desarme os ânimos de guerra suja ao restabelecer o primado da verdade e do fato acima da versão única que os simula, da diversidade de temas e perspectivas, da discussão com honestidade de propósitos, da coragem de retratar a realidade com a menor distorção possível num mundo atomizado.

    Parabéns ao GGN por representar, juntamente com muitos outros jornalistas de verdade, o Brasil dos inconfidentes nesse esforço mundial anti-G.lobista.

     

    Failure of the Fourth Estate

    The agenda with Steve Paikin

     

    https://youtu.be/QnqfYKdC1_8

     

    Laura Flanders: Amy Goodman: The Movements Changing America

    https://youtu.be/Zh_23hsAsLI

     

    SP, 19/12/2016 – 17:45

     

     

     

     

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