Ligações perigosas no trato da velha mídia, da publicidade e o novo jornalista

Enviado por Assis Ribeiro

do Medium.com

Da relação entre a velha mídia, publicidade e o novo jornalista

Um paralelo entre a crise da mídia e do jornalista tradicional e o auge do jornalista progressista. Este último está pronto para a sociedade. A sociedade está pronta para ele?

Por Henrique Alves Dias

Colaboraram: Fernando Lulia e Tatiana Mazzei.

Sobre o mito da imparcialidade:

Além de ser um texto de opinião, este autor entende a imparcialidade como mito, tendo em vista que toda produção humana está sujeita a parcialidade, sempre carregando traços dos ideais de seu produtor.
Este é um texto produzido seguindo ideais de esquerda.

Mídia tradicional em crise

Não é novidade que as grandes corporações de mídia tradicional observam quedas expressivas nos indicadores de audiência e, consequentemente, financeiros. No exterior muitas empresas se desfazem, aqui o caminho é parecido.

Com as mudanças de hábitos das pessoas, as empresas de comunicação se veem obrigadas a transformar seu modelo de negócios, caso queiram sobreviver na nova era. Neste texto vamos procurar entender o que está acontecendo no ambiente econômico e institucional da comunicação no Brasil e como isso afeta a vida da sociedade, o papel do jornalismo e a cidadania.

TV

 

Nova marca para os programas da TV Globo na internet.
(Imagem:Facebook/Divulgação)

TV Globo, maior emissora brasileira e segunda maior do mundo, perdeu consideráveis pontos de audiência nos últimos anos.Inicialmente, com o surgimento de programas como o Pânico na TV, naRedeTV!, e O Melhor do Brasil, na Record, os pontos que eram da Globo foram para estas e outras emissoras.
No último ano os pontos continuaram caindo, mas deixaram de ir para as demais emissoras. As pessoas simplesmente desligaram a TV e foram fazer outras coisas — provavelmente usar a internet.
Segundo o Ibope, em 2012 foram desligados cerca de 5% dos aparelhos de TV no Brasil.
Para mensurar o problema, o Jornal Nacional, principal telejornal da TV Globoperdeu um terço de sua audiência desde 2000, segundo dados doIbope.

 

(Imagem: Programa Ooops!/Divulgação)

Se por um lado a audiência caiu, as Organizações Globo obtiveram receitarecorde em 2012, graças ao dinheiro dos anúncios publicitários que são veiculados na empresa da família Marinho.
Segundo informações da Revista Exame, o lucro da companhia atingiu R$ 2,9 bilhões, em 2012, crescimento de 36% em relação a 2011. Sua receita líquida avançou 32,4%, chegando a R$ 12,6 bilhões.
Como exemplo do roll de operações da empresa, além da principal emissora de TV do país, o grupo também detém jornais e revistas, além de participação em empresas como a Net e Sky, e nos canais pagos da Globosat, como SporTVMultishow e Telecine.
Para se ter uma ideia, o mercado publicitário brasileiro cresceu 6% em 2012, totalizando um faturamento de R$ 44,8 bilhões, segundo o projeto Inter-MeiosMeio & Mensagem. Desse total, R$ 30 bilhões correspondem às vendas de espaço publicitário em mídia. As TVs abertas e pagas concentram R$ 20,8 bilhões, ou seja, 46% de todo o mercado publicitário.

A explicação para a publicidade se manter firme na TV, mesmo com queda de audiência, é o pagamento da bonificação por volume (BV), por parte da emissora.
Quem ajuda a entender como funciona o BV é Tatiana Mazzei, MBA em Gestão em Marketing pela Universidade Anhembi Morumbi e mestranda em Linguagens e Estéticas da Comunicação pela USP.

É uma prática comum de mercado, não só em TV, como em todos os demais meios. Digamos que trata-se de uma política da boa vizinhança, o famoso “eu te ajudo, você me ajuda”. Por exemplo: se um veículo não paga BV às agências, essas não mais o indicam, a não ser que o cliente realmente exija tal coisa. Caso contrário, dão prioridade aos “parceiros”.
Porém, é uma prática de mercado complexa e é como se também, para que se fizesse trabalhos, a agência não cobrasse seus percentuais de 20% e 15% de produção e mídia. E aí, nem de BV’s estamos falando.

Ainda segundo Tatiana Mazzei, a Globo ameniza a queda de audiência através de esforços multiplataforma:

Por exemplo, os planos de patrocínio do Campeonato Brasileiro estão com preços cada vez mais astronômicos, no entanto a audiência na TV caiu nos últimos anos. Para tentar minimizar isso, a emissora oferece o que chamamos de crossmedia, apresentando inserções dos patrocinadores também na Globo.com como “bônus”.

Agora cabe nos indagar uma pergunta: até quando as agências irão aceitar baixa audiência em troca de bonificação?
Por um lado, o desprestígio da mídia tradicional aumenta, em paralelo àascensão de uma mídia independente e rápida pela internet como opção de fonte de informação, por outro, a aceitação do BV por parte das agências de publicidade pode não durar muito tempo, se levar em conta que, segundo dados do Ibopea emissora perdeu 30% de sua audiência, de 21,7 a 14,7, em 8 anos, de 2004 a 2012.

 

TV Globo perde 30% de sua audiência em 8 anos

Além dos problemas de audiência, há processos de investigação de sonegação de impostos envolvendo a emissora, que pode chegar a R$ 600 milhões e atingir a empresa duramente nos próximos anos.
Segundo anúncio feito pela Procuradoria da República do Distrito Federal, aGlobo é acusada de sonegar impostos referentes à exibição da Copa do Mundo de 2002. Também pesa sobre o conglomerado de mídia suspeitas de lavagem de dinheiro, crimes contra órgãos da administração direta e indireta da União e estelionato, em pedido de apuração feito por 17 entidades da sociedade civil, entre elas, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).

E se a Globo fez malabarismos e conseguiu aumentar o lucro, mesmo com audiência em baixa, o mesmo não acontece com concorrentes.

Em 2011, a Record ganhou o título de emissora que mais demite, tendo demitido 246 funcionários. A maior parte trabalhava no Recnov, o enorme complexo de dramaturgia que logo se mostrou um investimento mal dimensionado da emissora de Edir Macedo.
Tudo indica que aqui a crise não é apenas fruto da popularização da internet e da TV paga, mas de má administração.
Em 2012 foram 85 radialistas e jornalistas demitidos, enquanto a emissora via seu lucro aumentar cerca de 15%, segundo dados do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro.
Este ano, a emissora já demitiu mais de 500 funcionários, sendo mais de 100 um dia depois do 1° de maio, feriado do dia do trabalhador.

RedeTV!, por sua vez, está praticamente falida, em crise há muito tempo. A equipe do Pânico na TV, então programa de maior audiência da emissora, deixou a casa em fevereiro de 2012 porque não recebia seus pagamentos em dia. Sem o carro chefe, os problemas da emissora só se agravaram. Vários dos funcionários da RedeTV! estão com pagamentos atrasados.
Mesmo antes da saída do Pânico, o quadro de funcionários da emissora já tinha se reduzido cerca de 20%.Cansados de trabalhar sem receber, os próprios funcionários pediram as contas.
Esse ano, começaram as demissões em massa. Em julho foram cortados 33 jornalistas. O programa Se Liga Brasil foi extinto dois meses antes. Em agosto, a emissora agoniza com as reações dos funcionários que ainda a integram. O jornalista Beto Filho conseguiu reverter na Justiça a verba de patrocínio da Bombril ao programa Mega Senha, totalizando R$ 500.000, ao pagamento de seus salários atrasados. Ao mesmo tempo, o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão de São Paulo enviou à presidenta Dilma Rousseff uma carta pedindo a cassação da concessão de transmissão da RedeTV!.

MTV, no Brasil franquiada pelo Grupo Abril, fecha as portas como TV aberta e vai para a TV paga em outubro, com outro formato, sendo tocada por sua dona original, a estadunidense Viacom, até que se encontre algum interessado na recompra dos direitos de uso da marca. A Abril tenta vender o espectro utilizado pelo canal, que ocupa a posição 32 UHF em São Paulo, para as igrejas Universal e Mundial, dos bispos Edir Macedo e Valdemiro Santiago, sem muito sucesso.
Em junho foram demitidos 70 da produção e 3 apresentadores. Os programas já não são mais gravados, sendo exibidos apenas em reprise.

Num aspecto geral, o saldo de audiência final de 2012 em relação a 2011, segundo dados do Ibope, foi:
Globo perde 10% (16.3 x 14.7), Record 13% (7.2 x 6.2), SBT 2% (5.7 x 5.6) eRedeTV! 37% (1.4 x 0.9). A única que se manteve foi a Bandeirantes, com 2.5.
Cada ponto de audiência representa 185 mil domicílios.

Revistas

No setor de revistaria, o caso é tão grave quanto na TV. No Grupo Abril — dono da revista de maior circulação nacional, a Veja —, os boatos da mídia que cobre a mídia dizem que serão cerca de 1.000 demissões e a extinção de 11 revistas só este ano.

Nos últimos dois meses foram 4 revistas encerradas (BravoLolaAlfa eGloss). Fala-se na demissão de mais de 150 pessoas que trabalhavam nos editoriais dessas revistas, algumas com mais de 20 anos de de trabalho na empresa.
Outras publicações que tiveram profissionais demitidos foram InfoRecreio,ContigoClaudiaPlacarQuatro RodasViagem & Turismo e Men’s Health. Nessas últimas três, nem os diretores de redação — cargo mais alto em uma revista — foram poupados. Na Veja, foram 15 pessoas mandadas embora, sendo apenas um jornalista — um correspondente em NY —, as demais são pesquisadores e profissionais relacionados a arte. A Playboy só não foi fechada porque a multa contratual acordada com a dona da marca, que é estadunidense, é pior do que o prejuízo que a Abril está tendo com a revista. Quando o contrato atual acabar, a revista deve ser descontinuada. Algumas poucas pessoas foram reaproveitadas em outros veículos do grupo.

Além dos impressos, o portal Contigo foi fechado, a equipe foi transferida para o portal M de Mulher, que teve toda a sua equipe original demitida. O site Bebê.com também teve demissões.

Com o fim de algumas revistas, fica difícil para as outras continuarem em circulação, pois o lucro geral cai, impossibilitando a Abril de manter seu parque gráfico em atividade.
Por fim, um certo número de pessoas dos departamentos administrativostambém está sendo mandado embora.
Na noite do dia 9 de agosto o Tribunal Regional do Trabalho proibiu a Abrilde demitir mais 71 pessoas que estão na linha de corte da empresa. O motivo da proibição é a falta de acordo entre a editora e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP). Em audiência de conciliação no TRT, no dia 13 de agosto, decidiu-se que a Abril deve pagar mais dois salários e meio para cada um dos demitidos e prorrogar o convênio médico por seis meses.

Foram tantas demissões no icônico prédio da Marginal Tietê, que parte dos que restaram lá devem ser realocados para o outro prédio, da Marginal Pinheiros. Em um futuro breve, esse segundo prédio também deve ser substituído por um menor, já que a equipe — e o lucro — tende a diminuir e o aluguel do mesmo custa entre R$ 1 e 2 milhões por mês.

Acuada, a Abril diz que menos é mais e volta seus esforços para a Abril Educação, que cresce e investe em aquisição de escolas de idiomas e na criação de um selo de educação nos moldes do Objetivo — temam pela possibilidade de seus filhos frequentarem uma escola com livros feitos por Reinaldo Azevedo.

Para entender a crise da AbrilFernando Lulia, economista pela PUC/SP e graduando em Filosofia pela USP, nos mostra e comenta os números financeiros alcançados pela Abril no ano passado.

Em 2012, a Abril S/A anunciou queda do lucro líquido de 65,5%, para R$ 64,17 milhões, ante R$ 185,88 milhões de 2011. Pesaram no resultado tanto a receita, que caiu de R$ 3,15 bilhões para R$ 2,98 bilhões, como o custo da operação, que aumentou de R$ 1,45 bilhão para R$ 1,58 bilhão, refletindo a crise de governança que passa o grupo, a queda na circulação geral de revistas, o menor número de anúncios e o desprestígio, que começa a se refletir nos balanços das empresas de mídia tradicionais.

Os números das principais revistas andam muito negativos para a editora da família Civita. Não é só para eles, a Globo já sofre os mesmos prejuízos da TV com suas revistas.

Os percentuais de queda mais agudos nas vendas das editoras Abril e Globo, de acordo com dados publicados pelo Instituto Verificador de Circulação(IVC), de 2010 a 2012 foram:
Editora AbrilPlayboy (-38,52%), Capricho (-30,2%), Info Exame (-22,73%) eNova Escola (-16,83%). A Veja, carro chefe da editora, registrou queda menor (-1,35%), graças aos contratos milionários de venda para escolas públicas que tem com os governos estaduais, sobretudo de São Paulo, muitas vezes feitos sem licitação e questionados pela justiça.

Editora GloboÉpoca, que também é beneficiada pelos contratos com governos estaduais citados acima, de 408 mil para 389 mil (-4,5%), Marie Claire, de 206,2 mil para 182,7 (-11,4%), Galileu, de 149 mil para 127 mil (-15%), Quem, de 110,3 mil para 83,2 mil (-24,5%).

Jornais

No jornalismo, o cenário se repete. A Folhadiário de maior circulação e alcance nacional, viu a crise antes dos demais e passou a promover uma série de cortes nos últimos anos.
Já em 2011, a Folha passou por processo radical de reestruturação de operações e forte redução do quadro de funcionários, em resposta à crise da circulação, anúncios e aumento dos custos. Foram demitidos na ocasião quase 100 jornalistas, cerca de 20% do quadro de funcionários na época. Redatores, repórteres, editores, e jornalistas com mais de 20 anos de empresa foram demitidos sem justificativa. Foi extinto o caderno Folhateen, o caderno Dinheiro foi enxugado e passou-se a se chamar Mercado e trouxe como novidade o caderno Poder, com o objetivo de tratar da política nacional e da política econômica.

Voltando o foco para a internet, passou a utilizar o sistema de “paywall poroso”, em que o leitor pode ver um número limitado de 10 matérias, depois deve fazer cadastro para ter mais 11 matérias gratuitas, até que passa a poder ler apenas se for assinante. No último mês de junho, a Folhacompletou um ano de paywall, e divulgou um gráfico que mostra um aumento de 15% na base visitas ao site, sendo 4% o aumento de visitantes únicos e 189% a alta do número de assinantes digitais desde a adesão dopaywall.
Embora os indicadores sejam positivos, o número de assinantes digitais é baixíssimo e a Folha ainda registra prejuízo. Além disso, a assinatura mensal da versão online é mais barata que a versão impressa, os leitores não-assinantes do impresso somem e as demissões continuam inevitáveis.

No último mês de junho foi demitida toda a equipe do caderno Ilustríssima, o mesmo virou uma página no caderno Ilustrada. Já o caderno Equilíbrio foi extinto. No total, o número de demissões chegou a 10% do quadro de funcionários da empresa. Ou seja, na tentativa de contornar a crise a Folha enxugou mais de 30% do quadro de funcionários nos últimos três anos.Nem o coordenador da sucursal do Rio foi poupado.
O jornal Agora, da Folha, também registrou demissões.
Entre os demitidos esse ano, estão nomes do porte de Andreza Matais, ganhadora do Prêmio Esso de jornalismo em 2011 pela série que demonstrou o enriquecimento do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. “Aos que acreditam que o jornalismo de qualidade faz bem à democracia resta torcer para que a travessia dê certo”, resumiu Suzana Singer, ombudsman da Folha em artigo no impresso.

Segundo o Índice Verificador de Circulação (IVC), a tiragem da Folha de São Paulo era de 350 mil unidades em 2002 e passou a 295 mil em 2010, umaqueda de 15,7%.

Se a Folha adotou um novo modelo de negócios, Estadão e O Globo, respectivamente segundo e terceiro maiores diários de circulação nacional, não seguiram o mesmo.

No Estadão, semanas antes do natal passado, foram demitidas mais de 30 pessoas que trabalhavam no portal online do jornal.
Ainda no ano passado, circulava em 31 de dezembro a última edição doJornal da Tarde, que pertencia ao Grupo Estado.
Nesse ano, falava-se no corte de 50 jornalistas da versão impressa doEstadãoaté agora foram 20, sem contar os da sucursal do Rio.
Ao mesmo tempo, comunicado interno do diretor de conteúdo do jornal anunciava a reformulação do jornal — à semelhança da Folha — que, entre outras coisas, enxugou alguns cadernos e passou a não fazer distinção entre a edição para SP e a edição nacional, que circulava nos demais estados.
Na mesma semana, criou-se um grupo fechado no Facebook, denominado “exTadão”, em que se reúnem ex-funcionários, não apenas jornalistas, do jornal. Hoje o grupo possui 1672 membros.

O Globo, do Rio de Janeiro, parece ser o jornal mais atrasado entre os três maiores. Desde o começo da crise mundial do jornal impresso os responsáveis pelo diário das Organizações Globo diziam que o jornal não precisaria mudar seu formato para sobreviver. Agora, no fim de julho e começo de agosto, O Globo passou por reformulação gráfica, mas sem grandes mudanças práticas. O editor executivo do jornal dos Marinho diz que a empresa não deve apostar na versão online.

O jornal Valor Econômico, de propriedade 50% da Folha 50% das Organizações Globo, também promoveu demissões em massa nesse ano, fruto da expectativa frustrada até o momento da reestruturação promovida o ano passado. Em maio, o jornal demitiu cerca de 50 funcionários da redação, num corte que se estendeu a Rio de Janeiro e Brasília. A empresa não emitiu nenhum comunicado oficial. O corte foi decidido em conjunto entre asOrganizações Globo e o Grupo Folha, em função da necessidade de reduzir despesas para não prejudicar os investimentos da ordem de US$ 100 milhões feitos na nova plataforma digital Valor-PRO, lançada em novembro do ano passado, e que ainda não começou a gerar a receita esperada.

Entre as baixas desse ano, está Vera Saavedra Durão, jornalista, hoje com 65 anos, que abraçou a reportagem com a mesma paixão que lutou contra a ditadura, como militante da Vanguarda Revolucionária Palmares (Var-Palmares), onde foi companheira de Dilma Rousseff. Ficou dois anos na prisão, atuou como repórter de economia nos então principais jornais do país – O GloboJornal do BrasilGazeta Mercantil e Folha – e estava há 13 anos no jornal, na equipe que fundou o Valor Econômico em 2000.

A jornalista foi demitida quando estava de férias e em meio à informação que veio à tona de que ela fora alvo de espionagem da empresa Vale S/A, segundo denúncia de um ex-gerente de segurança, caso ainda investigado pelo Ministério Público do Rio. Ela sequer teve a oportunidade de conversar com o jornal sobre a denúncia, foi demitida antes e não obteve resposta do email que mandou à chefia sobre o assunto. “Depois de 13 anos trabalhando para engrandecer o jornal achei que teria direito a um período sabático e não a uma demissão”, lamenta ela, segundo informações da Agência Pública.

Outros grandes jornais que fecharam a versão impressa são:
Estado do ParanáJornal do Brasil e Gazeta Mercantil, esse último empregava cerca de 500 jornalistas. Pesquisa recente da consultoria estadunidenseFuture Exploration Network indica que deve acontecer em 2027 a morte do último jornal impresso no Brasil, nos EUA isso deve acontecer antes, já em 2017, o que explica a recente venda do jornal mais influente do paísThe Washington Post, para o empreendedor digital Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon.


As dificuldades em um novo cenário

Deixando de lado o surgimento de novos meios, agora interativos, se for analisar o papel que a mídia tradicional, principalmente a impressa, teve até hoje, logo se percebe onde está o erro que está levando esse modelo para o ralo.

É algo bastante simples: a missão da mídia.

Qual é a missão de um jornal ou uma revista? Se for perguntar a um leitor, este vai dizer que a função é deixa-lo informado ou entretido. Se perguntar para um empresário de mídia, a resposta vai ser outra: servir de painel de visualização para a publicidade.

Desde a criação dos classificados — em linguagem publicitária, o saudoso tijolinho —, o jornal se tornou uma ferramenta para as empresas de propaganda. O “informar” deu lugar ao “capitalizar” e, com isso, a ânsia por uma base cada vez maior de leitores virou regra para a sobrevivência do meio, em detrimento da qualidade da informação, por um lado, e das regras e preceitos básicos do jornalismo, por outro.

Por que os jornais estão morrendo? Por dois motivos interligados:

  1. O leitor está abandonando a versão impressa para aproveitar as facilidades da versão online.
  2. Sem leitor não há anunciante, sem anunciante desaparece o orçamento do jornal, que antes empregava vários profissionais.

Como recuperar os danos? Encarando o universo online!

Alguns estão se adaptando a este novo cenário com novos modelos, como os casos citados da Folha e do Valor, além dos internacionais NY Times, dosEUA, e Financial Times, do Reino Unido. Porém, dificilmente estes jornais terão na tela o mesmo sucesso que tiveram no papel. Um jornal que pode ser exemplo da eficácia questionável desse novo modelo é o estadunidenseSan Francisco Chronicle, que desistiu do paywall no último dia 15 de agosto, sem explicar os motivos.

Os que apostam em banners em sites abertos já sabem que estes não são tão rentáveis quanto a publicidade era no impresso, além de que eles encontram a concorrência de sistemas de afiliados já consolidados, como oGoogle AdWords.
Os que seguem um modelo pago tem um grande ponto contra: aqui há muito conteúdo gratuito com qualidade.

Finalmente, o novo jornalismo

Embora crises não sejam sinônimo de felicidade, a sociedade como um todo tem muito que o comemorar. Graças aos novos meios, saímos do status de reféns da frequente manipulação copiosa da informação pelos grandes grupos de mídia nacionais e passamos a ser produtores de nosso próprio conteúdo.
Dois exemplos claros e atuais são a agência Pública, que é uma organização de jornalistas independentes que produzem e fomentam a produção de conteúdo jornalístico investigativo de qualidade e fidedigno, e a equipeNINJA — sigla para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação —, que traz a realidade dos protestos que vêm ocorrendo desde junho deste ano sem as já conhecidas distorções da grande mídia.

Enquanto os grandes jornais passam a, só agora, olhar a web como o futuro, já fazem anos que muitos jornalistas, cada um especializado em alguma área, se tornaram blogueiros, tendo consolidado sua audiência. São osblogueiros progressistas, conhecidos atualmente e que, em rede, fazem o contraponto diário da grande mídia. São eles, os precursores, para citas alguns: Luís Nassif, Luís Carlos Azenha, Rodrigo Viana, Altamiro Borges e Eduardo Guimarães.

Com a crise da grande mídia, de alternativo, esse passa a ser o perfil do novo jornalista: alguém que criou seu próprio veículo, é especializado em algum assunto, conquistou seu próprio público e, mesmo que perca em número de público para os grandes portais, não tem que manter uma equipe grande nem tem tantos gastos com infraestrutura.

Mas ainda assim tem gastos, precisa manter seus serviços de alguma forma. Para tanto, alguns utilizam banners, o que não é o modelo ideal, já que a informação volta a ser refém da publicidade. Outros recorrem a doações dos leitores, o que pode ser um modelo justo, mas dificilmente vai custear o sustento desse profissional.

Uma terceira alternativa ainda não é realidade, mas parece ser a ideal: o custeio por incentivos governamentais, algo semelhante ao Vale-Cultura e aLei Rouanet.
Assim como a cultura, acesso à informação de qualidade é um direito do cidadão, logo o governo tem um papel importante aqui também.

Vale-Cultura é um vale que o trabalhador que ganhar até cinco salários mínimos deve receber. O valor é de R$ 50 mensais, debitados em cartão magnético, e poderá ser gasto na compra de produtos e serviços culturais como teatro, cinema, livros, CDs, DVDs. O vale deve começar a ser debitado a partir de setembro deste ano e deve ser custeado pelas empresas, que receberão em troca dedução fiscal do governo. Já a Lei Rouanet é uma lei que incentiva o financiamento de produções culturais, sancionada em 1991.

Nesse caso, para a sociedade como um todo o “Vale-Informação” serviria para fomentar a produção de informação de qualidade de forma democrática, com pluralidade, e para o novo jornalista, o vale significaria a manutenção de seus serviços.
O cidadão escolheria com qual veículo gastar o seu vale, mas o foco do programa deve ser os veículos menores, realmente independentes.
No caso de uma lei aos moldes da Rouanet, esta serviria para cobrir os custos de manutenção dos serviços e incentivar a produção jornalística de qualidade a longo prazo, mas novamente o foco deve ser os veículos menores, independentes.

Já existem modelos semelhantes de incentivo ao jornalismo por parte do governo em outros países. Se engana quem pensa que esse incentivo faz com que a liberdade de imprensa fique refém da arbitrariedade do governo. O ranking abaixo, publicado pela freepress com dados dos Repórteres Sem Fronteiras, mostra que o que acontece é exatamente o contrário: os países que mais incentivam o jornalismo são os com maior liberdade de imprensa, já que a função jornalística não se restringe às mãos dos oligopólios.

 

(Imagem: Freepress)

As ferramentas para a democratização da mídia já são uma realidade, só falta o custeio disso. Em paralelo a uma proposta efetiva, via lei de iniciativa popular ou projeto de lei pelo Congresso que democratize os meios de comunicação, regule o setor econômica, financeira e judicialmente e impeça o poder desmesurado e a concentração de mercado que há sobre a informação no Brasil, processo de concentração e oligopólio sobre a informação que remonta aos tempos da Ditadura. No longo prazo, só a educação garante a efetiva consciência do cidadão.

Visto como está, o jornalismo alternativo e independente ganha prestígio e mantém a qualidade, como é sua característica, mas tem sérios desafios de sustentabilidade e custeio. No caminho contrário, a grande mídia impressa e televisiva – já que na internet o ambiente é mais democrático – continua a monopolizar a informação e prestar um desserviço ao país, cobrindo casos com arbitrariedade, interpretando como se estivesse reportando e pautando o noticiário diário segundo os seus interesses econômicos e políticos.

Sintoma maior desse descompasso entre a informação passada pela mídia tradicional e a democracia no Brasil foram as pesquisas sistemáticas de popularidade do governo Lula, que chegou a alcançar 70% de aprovação, com uma mídia que, mais do que desaprovava o governo, em medidas de política econômica e institucionais, desprezava o presidente pessoalmente, em editoriais, cobertura de mídia e televisiva que chegavam ao ridículo. É por mais vozes, mais opiniões, mais contrapontos que o Brasil urge. Neste ponto, as perspectivas de transformação para um novo jornalismo no Brasil que emerge são reais, tendo como foco as novas mídias e o papel do novo jornalista.

É preciso se perguntar, por fim, pelo governo Dilma, que se elegeu com uma proposta de Reforma dos Meios a ser encaminhada nos primeiros anos de mandato, e pela sensibilidade do ministro das Comunicações que, é forçoso reconhecer, trabalha de acordo com as limitações que o poder econômico e político da grande mídia exerce.

 

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Leia também:  A economia brasileira, segundo a GloboNews, Andre Motta Araujo

7 comentários

  1. A coisa tá feia, e não vejo

    A coisa tá feia, e não vejo uma luz no fim do túnel, apertem o cinto que o piloto sumiu! 

  2. Um verdadeiro balanço da

    Um verdadeiro balanço da mídia na última década, ótimo trabalho de pesquisa e análise.

    Parabéns!

  3. Do ano passado

    Um bom levantamento, com análises interessantes, mas quem enviou deveria ter alertado no início que o texto é do ano passado, o que a gente só descobre quando está no meio da leitura.

  4. Três dentes de coelho nessa situação:
                             1.                                     No âmbito da imprensa imaginada (TV) o texto fala em queda da quantidade de telespectadores. Ora, sabe-se que todos os canais de tevê “vendem” seus espectadores aos anunciantes e o texto aqui diz que a receita das tevês não sofreu uma queda correspondente à “fuga” dos espectadores.  Logo, a cada dia que passa, o espectador estará sendo “vendido” aos anunciantes a um preço bem mais alto do que antigamente. Se então esse processo de fuga de telespectadores continuar, vai chegar um dia em que o espectador ficará caro para o anunciante, e ele vai procurar outros meios de divulgação. Ou seja, a médio prazo esse aumento do preço de venda do espectador é uma tática suicida das tevês.                                       2.                                                  O tal bônus de volume, que é uma espécie de “comissão” dada à agência que intermedeia o anúncio, apesar do nome insosso, a rigor, a rigor poderia ser considerado como corrupção da tevê para com a agência, não é? E se um juiz considerar isto corrupção, praticamente toda a cúpula das empresas estatais poderia ir para a cadeia. Para isso acontecer, basta uma empresa estatal estar sendo dirigida por alguém que tenha um desafeto moreendo de inveja. E mais, como a agência vai explicar o tal BV a seu cliente, quando isto acontecer? Claro, quem afinal paga o BV, não é a tevê e nem a agência, mas sim o anunciante. Um belo dia, um anunciante vai se perguntar em porquê pagar mais pelo espectador (item 1. acima) e ainda pagar o BV, se, neste segundo caso, nada recebe em troca? Um caminho seria fazer com que a agência se remunere pelo BV e não pelos serviços prestados ao anunciante. Só que nesse caso, as tevês que não pagam o BV não vão receber anúncios, Em seguida, fecharão as portas, sobrando apenas a única tevê pagadora do BV. Nesse dia, essa tevê remanescente corta o BV, e as agências quebram.  Essa confusão que o BV acarreta, salvo engano, foi coadjuvante no processo do mensalão.                                            3.                                               Uma fase de “fuga” de espectadores também já ocorreu com as rádios, que, de certa maneira, foram as precursoras das tevês. Os espectadores das rádios, isto é, os ouvintes “fugiram” para as tevês, quando estas se disseminaram. Houve, claro, muitas rádios que fecharam, mas ainda temos rádios bem sadias funcionando atualmente. O que estas fizeram, foi se adaptar ao público que ficou, geralmente pessoas dirigindo veículos no trânsito ou empregados serviçais que realizam trabalhos com pouca iteração com colegas de serviço, como porteiros, faxineiros, etc. Outra “fuga” de espectadores aconteceu com os circos. Muitos circos fecharam, mas surgiram modelos novos de “circos”, como o cirque du Soleil, e o André Rieu. Este último é mais um misto de circo e de show itinerante de música orquestrada. E ambos faturam muito bem.  O cirque do Soleil, em vez de apresentar vários espetáculos que não tem conexão entre si (trapezista, mágico, palhaço, bailarina, comedor de fogo, domador – como nos circos antigos) ele apresenta uma história com início, meio e fim.  Os jornais e as revistas impressos são como os circos antigos, apresentam um pouco de cada tema, divididos em “departamentos”, ou cadernos. Talvez a solução para a queda da audiência das tevês passe justamente por dissecar o fenômeno ocorrido com as rádios e os circos, não é? Afinal, leitor de notícia ou espectador vai continuar a existir, notícia também; só o elo entre os dois lados é que tem de ser muito bem repensado. Isso os cartolas da imprensa não querem ou não conseguem.  A propósito de “departamentos” – há quanto tempo a imprensa não procura em rever estas estruturas ?   

  5. Jornalismo

     A idéia do subsídio governamental ao jornalismo alternativo me parece válida e justa:afinal, é só ligar a televisão, em qualquer canal, e ver a publicidade da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica etc. Será que alguém já buscou verificar quanto uma entidade governamental paga por  anúncio, e quanto paga o Magazine Luiza, por exemplo? Vamos dizer que há um subsídio embutido, para não falar em desvio de dinheiro público descarado no setor de publicidade – coisa que os procuradores da República e os ministros do STF fizeram questão de não ver na AP 470.  Talvez porque fosse faltar cadeia para tanto engravatado. Mas, além do apoio aos alternativos, caberia ao Executivo montar uma agência noticiosa pública – não estatal – para garantir um fluxo de informações fidedignas à população, hoje refém das agências americanas e europeias. Acho até que os paises vizinhos entrariam como sócios, porque enfrentam o mesmo problema.

  6. Na verdade os problemas da

    Na verdade os problemas da comunicação midiática no Brasil só será resolvidacom a Regulação dos meios de comunicação.

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