Perfeito midiota enfrenta dificuldade para entender noticiários, por Luciano Martins Costa

 
Jornal GGN – No artigo à seguir, Luciano Martins Costa avalia os últimos acontecimentos da política divulgados através da lente da grande imprensa e, ainda, como ela trabalha para acomodar as novas notícias ao discurso do impeachment que vem defendendo. “É preciso entender a relação entre linguagem, ideologia, poder e dominação (…). Dizem alguns especialistas em comunicação que, quando a chamada realidade objetiva supostamente retratada pelo jornalismo está muito complicada, o melhor é buscar metáforas em obras de ficção”.
 
 
 
Por Luciano Martins Costa
 
A empatia, ou seja, quando o que está dito tende a satisfazer o leitor ou acomodar suas inquietações, sem provocar insights ou curiosidade, é porque o discurso do poder funcionou
 
Está difícil acompanhar o noticiário?
 
De repente, você ficou confuso, como a senadora Marta Suplicy, que abandonou a canoa furada do PT e embarcou na caravela do PMDB – apenas para descobrir que a nau está sem rumo e infestada de ratos.
 
No meio da confusão, o presidente do Senado, Renan Calheiros, ameaça dar voz de prisão à polícia, ou seja, quer pedir aos colegas do Congresso que votem o impeachment do procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
 
Ora, como ousa o procurador ameaçar o impoluto senhor Calheiros? Como se atreve a desmoralizar as acusações seletivas até então dirigidas apenas aos apoiadores do governo constitucional de Dilma Rousseff e acreditar que todos os suspeitos devem ser denunciados?
 
O mesmo se pode dizer da estudada indignação do presidente enterino Michel Temer, também colocado na mira de Rodrigo Janot.
 
O ponto central desse roteiro é a delação do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, que acusa quase vinte políticos de diversos partidos de haverem recebido dinheiro ilegal em campanhas eleitorais.
 
As duas dezenas não se completam porque Machado esqueceu de citar algumas figuras cuja influência sobre os principais jornais do País faz estremecer os bravos editores e analistas.
 
Os conspiradores que interromperam o mandato da presidente Rousseff insistiram, durante meses, que doação eleitoral só pode ser propina. Agora que o procurador-geral passou a acreditar nisso, que sentido passa a ter toda aquela indignação seletiva?
 
Até mesmo o enterino, assaltado por um surto de sinceridade, declarou que “se tivesse cometido delito, não teria condição de presidir o País”. Como diriam os britânicos: “Indeed”. Ou, em bom português: “De fato”.
 
Na análise sintática ou na matemática, pode-se dizer que ele pretendeu produzir uma condição adversativa do tipo “se… então”, mas elaborou duas possibilidades convergentes: sim, é acusado de cometer delito eleitoral; e sim, não tem condição de dirigir o País.
 
Para entender o noticiário político e interpretar corretamente o discurso dos donos do poder, é preciso ler o conteúdo da mídia com desconfiança.
 
A empatia, ou seja, quando o que está dito tende a satisfazer o leitor ou acomodar suas inquietações, sem provocar insights ou curiosidade, é porque o discurso do poder funcionou. Assim nasce um midiota.
 
É preciso entender a relação entre linguagem, ideologia, poder e dominação, como alerta a pesquisadora paranaense Rosselane Giordani, citando excelentes pensadores.
 
Dizem alguns especialistas em comunicação que, quando a chamada realidade objetiva supostamente retratada pelo jornalismo está muito complicada, o melhor é buscar metáforas em obras de ficção.
 
No noticiário desta semana, que confunde os midiotas, a senadora Marta e os comentaristas da mídia tradicional, provavelmente a melhor ilustração  para entender o contexto seja uma seleção de bons filmes de faroeste.
 
Em “Matar ou Morrer”, o xerife Janot, ooops, o xerife Will Kane tem que se virar sozinho para enfrentar os bandidos que estão chegando no trem do meio-dia. Os cidadãos que cantavam de galos no dia anterior somem em suas casas e o deixam praticamente sozinho na rua poeirenta – como aqueles bravos indômitos que há um mês ocupavam as ruas com suas camisas auriverdes.
 
Em “Paixão dos Fortes”, a dupla Wyatt Earp-Doc Hollyday precisa encarar uma família de facínoras no rancho OK, enquanto os pacatos cidadãos se escondem de medo.
 
Também podemos lembrar outros clássicos, como “Onde começa o inferno”, ou aquele de título bem sugestivo: “Por um punhado de dólares”.
 
Em quase todos eles, o poderoso de plantão acha que pode tudo, como o presidente do Senado e o ocupante provisório do Palácio do Planalto.
 
Só que não.
 
Para ler: O discurso do poder, ou “As relações de poder exercidas através do discurso”, de Rosselane Giordani
 
 

5 comentários

  1. Ou prendem os corruptos

    Ou prendem os corruptos profissionais, que somente agora estão aparecendo, ou soltem os amadores que estão em cana.

  2. Os delatores estão fazendo

    Os delatores estão fazendo filas tal como fazemos todos quando vamos ao banco ou ao mercado. Cada um quer se adiantar e mandar brasa contra os políticos. Uns dizem que tem tal número, outro que tem mais tantos, e, assim, sucessivamente, é vergonhoso demais essa instituição de delação.

    Esse Machado não passa de um bandido dos mais astutos que temos visto até o presente. Os delatores que  antecederam, como Corrêa, Cerveró, pore exemplo, se mostram meio constrangidos diante dos procuradores. Machado parecia estar em sua casa conversando com seu parente. 

    E Machado já está em prisão no seu domicílio, que é uma baita mansão, tão imensa que parece um condomíbnio de casas, lá no Ceará. Será controlado por uma tornozeleira mecânica,e só poderá receber na mansão pessoas indicadas pela justiça. 

    Na verdade, se vai ficar na sua mansão, onde tem conforto suficiente para dispensar outros externos, mantido pela justiça, contará também com boa segurança, claro. Ontem ele pediu permissão para receber um padre; por certo vai confessar sua safadeza.

    Por fim, porque a transparência tão falada não conta quanto esse canalha conseguiu ficar pelo contrato firmadod e delator com a justiça?

    Embora contente de ver a imprensa sendo obrigada a pautar denúncias contra seus pimpolhos, fico muito triste com essa falta de seriedade da justiça, acatando denpuncias de bandidos que enriqueceram corrompendo políticos, para denunciá-los como sendo mais bandido ainda, ao final ficando na boa, devolvendo um pouquinho do que surrupiou. 

    Tá tudo muito fácil para essa corja de salafrários. Aliás, Jânio de Freitas já alerta para as autoridades sobre a dupla cidadania de Cunha. Se preso, será mais um a sair rindo da nossa cara, depois que colocar seus “amigos” abaixo do inferno.

    • JANOT E TOGAS DO STF APLICAM SOLUÇÃO PABLO ESCOBAR NO BRASIL

      JANOT E TOGAS DO STF APLICAM SOLUÇÃO PABLO ESCOBAR NO BRASIL

      MANSÃO DE BANDIDO DO PMDB VIRA SEU PRESÍDIO PARTICULAR
      VIVA O BRASIL – PAÍS DO TEMERRATO – O GOVERNO DOS BANDIDOS

  3. Você isso cadê vez que lê

    Você isso cadê vez que lê alguma reportagem e decide comentar ou ler os comentários, então você perceberá que a interpretação de textos passou longe da capacidade de muitos dos comentaristas, nunca conseguem analisar nada dentro do contexto, respondem sempre com uma mensagem pronta, que serve a qualquer situação.

    Agora mesmo lendo uma matéria no Brasil 247, sobre as quedas dos últimos 30 dias dos ministros do Temer, um comentarista fez um paralelo com o governo Dilma, dizendo que as situações eram semelhantes, são comparáveis, não semelhantes, como bem disse um outro comentarista, no caso Temer ele já nomeou citados, e outro detalhe, não menos importante, não eram perseguidos pela mídia de forma injusta e desleal, monitorar as atividades de gestores públicos é um grande serviço da mídia para um país, manipular e perseguir é coisa de máfia, como age nossa mídia.

  4. Oportuno

    Lembrar Escobar é oportuno.Neste melê geral em que a oposição lançou o Brasil esquecem (ou temem?) de fazer uma pequeníssima associação às nuvens do crime bilionário que liberou ‘verbinhas’ para o jogo confiante nas escolhas da grande nação por este setor no México, Afganistão e outros paraísos para executar a esculhambação que garante seus interesses em petróleo e outros bens minerais valiosos em guerrinhas. Pode demorar, mas um dia sobre os destroços o sol vai revelar..

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