Manual do perfeito midiota – Parte 1

Um dia você acorda transformado num enorme inseto, e não vai ter que se preocupar com mais nada

O mundo de repente se tornou muito complexo? Não se preocupe: a maneira menos dolorosa de lidar com a complexidade da existência e com aquela angústia que ela provoca é assumir a condição de midiota. Portanto, é preciso verificar se você se classifica no rol dessas pessoas afortunadas para as quais o mundo é branco ou preto.

Seria maldade perguntar se você leu o livro originalmente intitulado “Being There”, publicado em 1970 pelo escritor Jerzy Kosinski. No ano seguinte, saiu uma edição brasileira que recebeu como título “O Videota”, o que facilita as coisas. Mas, para evitar o sacrifício de ter que ler um livro inteiro, informo que a versão cinematográfica pode ser baixada ou assistida online (dublada, para facilitar), no youtube ou vimeo.com. Busque pelo título: “Muito além do jardim”.

Em resumo, trata da história de um indivíduo maduro, órfão desde o nascimento, que passou a vida cuidando do jardim do homem que o acolheu. Nunca foi à escola, não aprendeu a ler ou escrever. Tudo que sabia era o que havia visto na televisão do seu quarto.

Um dia, o dono da casa morre e ele tem que sair para o mundo. O que se segue chama-se ironia: numa sociedade muito mais complexa do que o jardim que era seu universo, as opiniões simples e reducionistas que ele havia formado ao longo dessa existência alienada soam como explosões de sabedoria. Assim, ele vai subindo na escala social à base de metáforas absolutamente primárias sobre jardinagem e programas televisivos.

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Alguma relação com as opiniões que você colhe na imprensa sobre política brasileira, economia e, principalmente, sobre corrupção?

Se a resposta for positiva, você tem grande chance de se identificar como um midiota. Aliás, no romance de Kosinski e no filme, o “videota” chama-se Chance, nome que em inglês, francês ou português pode ser traduzido como “oportunidade”.

Aqui está, portanto, sua chance de reduzir a angústia de viver numa sociedade onde a ascensão social de milhões de pessoas que viviam na pobreza produziu um alto grau de complexidade. Vamos combinar: a vida era muito mais simples quando a empregada usava o elevador de serviço, andava de ônibus, não precisava de férias e conhecia o seu lugar. E a gente nem precisava registrar o emprego dela. Quebrava um vaso, podia trocar o vaso e a empregada, sem maiores danos.

Também sabemos, você e eu, que esse negócio de preto, mulato, aquele povo do norte, fazendo compra no mesmo supermercado, comprando a mesma coisa que a gente, causa um certo desconforto. Esse mal-estar aumenta muito quando os encontramos na fila do aeroporto, ou a bordo daquele navio de cruzeiro, certo?

Tudo isso é causa de angústia e isso é compreensível: você não teve a chance de se preparar para essa mistura, porque passou a vida entre a mídia conservadora e o jardim do lar burguês.

A boa notícia é que você pode reduzir esse sofrimento simplesmente assumindo sua condição de midiota.

O diagnóstico é simples e pode ser feito por você mesmo. Por exemplo, você leu nos jornais que o desemprego de março superou o de fevereiro, e saiu por aí dizendo que o Brasil está à beira do abismo. Nem se pergunta quantos dias úteis tem fevereiro, se esse é um mês em que as pessoas esperam arrumar emprego etc.

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Se você assumiu que o Brasil foi para a cucuia, parabéns: você é um midiota quase perfeito.

Mas se você tem um resquício de senso crítico e questiona se esse tipo de indicador é duvidoso, ainda pode comparar o desemprego do primeiro semestre deste ano com o do ano anterior. Pode chegar à mesma conclusão, ou seja, de que o Brasil foi pelo ralo.

No entanto, se passar pela sua cabeça que 2014 foi ano de Copa do Mundo e, portanto, muitos indicadores econômicos ficaram fora da curva, sinto muito: você está deixando o confortável mundo dos midiotas.

Veja bem: não se trata de ler ou não os jornais e as revistas semanais de informação que dominam o mercado, ou de assistir os telejornais todas as noites. Ser um midiota é uma questão de postura – você precisa receber esse noticiário pelo preço de face, ou seja, tem que absorver a mensagem sem aplicar sobre ela qualquer questionamento.

Não pode considerar, por exemplo, que um ano inteiro de noticiário negativo, apocalítico, acaba produzindo o que anuncia, porque afeta o ânimo de investidores, de empresários e dos trabalhadores.

Outra chance de fazer o diagnóstico: você vibrou com a manobra do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para levar a votação a proposta do impeachment da presidente da República? Não se importou com a hipótese de que o solerte parlamentar pudesse estar desviando sua atenção das acusações que pesam sobre ele?

Depois disso, você passou a achar que o vice-presidente Michel Temer é um homem de muitas luzes, porque quase oficializou o rompimento do PMDB com a aliança governista, testando a perspectiva do impeachment?

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Se a resposta for positiva em ambos os casos, você está no caminho da libertação: mais um pouco e será dispensado de emitir opiniões inteligentes sobre qualquer coisa.

Mas, se passar pela sua cabeça que até o advogado que assina o pedido de impeachment sabe que dificilmente o Supremo Tribunal Federal iria concordar com a quebra da ordem constitucional se não houve – como não há – denúncia de crime administrativo contra a presidente da República, sinto muito: ainda falta um bocado para você se considerar um perfeito midiota.

Como se vê, o Brasil se tornou muito complexo.   

Mas não perca a esperança: continue lendo diariamente os principais jornais do País, não se esqueça de olhar as manchetes nas bancas, e não deixe de assistir aos telejornais e aqueles comentaristas cheio de sabedoria sobre tudo.

Um dia você acorda transformado num enorme inseto, e não vai ter que se preocupar com mais nada.

Para ver: Muito além do jardim, dublado

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

 

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4 comentários

  1. Bom, na minha opinião esse

    Bom, na minha opinião esse post resume tudo. Só precisamos garantir que haja realmente o direito de respota e corrijamos as informações erradas veiculadas por estes meios assim que sejam publicadas para que não prejudiquem os ignorantes da verdade manipulada.

  2. o midiota já é de certa forma

    o midiota já é de certa forma um inseto pra lá de

    abjeto desde que aceita qualquer informação da grande

    mídia sem questioná-la…

    o midiota pode ser um kafkiano gregor samsa, que acorda

    e , de repente, percebe quie ser tornopu um inseto, mais especificamnete,

    segundo nabokov entomologista, um besouro….

    nabokov dá nova visão para o drama de kafka….

    samsa tinha asas, mas jamais soube disso, jamais soube que poderia salvar-se….

    o midiota vira inseto e fica depressivo e embasbacado com o que

    ve e sente, sem poder reagir, impotente.

    é escorraçado  para todos os cantos.

    com medo, submete-se aos piores castigos psicológicos,..;

    e talvez, de tanto sofrer, resolva vingar-se.

    talvez por ressentimento individual,

    depois coletivo..

    depois de odiar-se começa a odiar o ouitro…

    o vidiotá é o personagem de peter sellers , o jardineiro que ve o mundo via tv.

    como jardineiro sai pelo mundo falando frases de

    seu metier que acabam transformando-se em metáforas 

    na realidade cotidiana do poder político.

    vira entrevistasdo num programa tipo jn, fala na necessidade de cuidar do jaridm,…]

    e todos pegam isso como metáfora,

    vira famoso…..

    o midiota comanda a idiotice geral…

    .. 

     

  3. Vi este filme, e gostei muito!

    Devo tê-lo visto faz muito tempo, já que foi lançado no Brasil em 1979, ao que dizem. Já que naqueles tempos de ditadura havia censura, uma ou outra cena pode ter sido cortada, como a da masturbação de Shirley McLane, de que não me recordo. 

    Mas o que me faz comentar aqui é que depois de ter lido  o texto do Luciano, fiquei foi com pena de parar de considerar Chance  como um afortunado, sortudo, alguém que é beneficiado pela sorte até quando é atropelado. 

    Minha “solução”, para não comparar Chance com os boca-aberta que dão aval a tudo que as midionas dizem  no Brasil atual, foi imaginar que o tal midiota seria mais apropriadamente assemelhável a um daqueles  moradores do mito da caverna de Platão.

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Alegoria_da_Caverna

     

    http://www.resumoescolar.com.br/filosofia/resumo-do-mito-da-caverna/

  4. Ah, que falta faz o LMC e

    Ah, que falta faz o LMC e suas análises críticas e agudas sobre os meios de comunicação! O Observatório da Imprensa simplesmente morreu, após a saída dele e de outros colaboradores. E aquela postura arrogante e autoritária do Alberto Dines, restringindo os comentários dos leitores, foi a pá de cal naquele que foi o principal portal e programa (já que teve versões televisiva e radiofônica) de análise e crítica dos veículos de comunicação no Brasil. O OI está entregue ás moscas, que são um tipo de inseto.

    Um jornalista e crítico como LMC não pode ficar restrito a publicações de pouco alcance, como a revista que publicou esse artigo dele. É necessário que LMC continue a fazer a análise crítica diária, que por mais de cinco anos foi marca registrada no OI. Mais uma vez sugiro ao Luís Nassif e diretores do portal GGN que convidem Luciano Martins Costa para fazer parte da equipe, mesmo que a participação não seja diária.

    Ao filme eu não assisti; mas não é preciso, para se chegar às mesmas conclusões que LMC. Um leitor, ouvinte ou telespectador com senso crítico e que seja bom analista e observador percebe exatamente o que Luciano relatou. Vida longa a LMC. E que ele sirva de exemplo para aqueles que, a despeito do desprestígio e baixa remuneração da profissão, ainda pensam fazer carreira como jornalistas.

     

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