Metáforas orientacionais, categorizações e o PT sempre mal na fita, por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

Metáforas orientacionais, categorizações e o PT sempre mal na fita

por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

Em 1987, para explicar sobre os processos de categorização e como eles trabalham a / com a língua, George Lakoff escreveu um de seus melhores livros: Women, fire and dangerous things. (Mulheres, fogo e coisas perigosas). Ele abriu o primeiro capítulo explicando: na minha concepção de mundo, mulheres, fogo e coisas perigosas compartilham características importantes.

Pois um dos artigos de opinião do Estadão de hoje é praticamente uma resenha de Lakoff, 1987. Só trocar mulheres por petistas.

Vamos acompanhar. A começar pelo título.

 

Petista beijou o anel de ex-presidente e virou um político velho → temos no título praticamente um resumo de um conto de fadas, no qual um homem bom cometeu um erro e sofreu com as consequências desse erro

 

(…) Como pagamento por ter sido sagrado candidato a presidente na vaga de Lula, o moço da ciclovia abandonou o apelido de que tanto se orgulhava reservadamente, o de ser o “mais tucano dos petistas” (porque tirava dele a pecha de radical), e passou a comungar em público de todos os dogmas do PT.

 

Só esse parágrafo daí de cima já renderia umas cinco páginas de comentários. Observem o verbo na voz passiva ter sido sagrado candidato. Foi ungido, por alguém superior.

Moço da ciclovia – se isso não é ser pejorativo, não sei o que pode ser

Apelido de que tanto se orgulhava reservadamente, o “mais tucano dos petistas” → As inferências te dizem que isso é positivo, e que tanto o jornal quanto o Haddad entendem como positivo o apelido já citado.

(porque tirava dele a pecha de radical) → explicação de por que o apelido é legal. Logo, infere-se que ser petista não é legal.

Passou a comungar em público todos os dogmas do PT → saímos do verbo sagrar no início do parágrafo e terminamos com comungar os dogmas. Temos, portanto, um parágrafo inteiro que associa os membros de um partido político a uma seita religiosa. Curioso é perceber que há dois partidos políticos mencionados no parágrafo – apenas um associado a uma seita religiosa (outros jornais são menos discretos, e associam o PT ao demônio, né, O Globo?)

 

(…)

 

Mas eis que agora nos deparamos com um Haddad diferente daquele que, nos meios acadêmicos e nas pizzarias dos Jardins (bairro nobre de São Paulo), → Haddad é dos nossos, frequenta bons lugares

 

mantinha o tal distanciamento crítico em relação às práticas pouco ortodoxas do PT → o tal distanciamento crítico. Práticas pouco ortodoxas do PT. A associação de ideias categoriza o PT como uma seita do mal, cujas práticas são reprováveis e não devem servir de exemplo.

 

(…)

Era um político jovem, moderno diziam seus fãs. → Metáforas orientacionais acionadas: jovem, moderno é POSITIVO; velho, retrógrado é NEGATIVO. Temos ainda os verbos no pretérito imperfeito, dando ideia de passado duradouro, não pontual.

 

[acompanhem o turning point] Agora, desde que virou candidato a presidente, após ter beijado o anel de Lula, Haddad tem se rebaixado ao que há de pior no petismo: → Lula é o anticristo. Mas é o líder de uma seita religiosa. Então, a seita religiosa PT é diabólica. E, não é só o globo que associa PT ao diabo, não. Mas vamos acompanhar “o que há de pior no petismo”:

 

a recusa (patológica) em admitir erros, o populismo, a construção de narrativas fantasiosas e a velha tática do nós contra eles.→ Masgemt, nós contra eles não é PT, é van Dijk, é Bíblia, é tudo quanto é teoria! (Galhéra da filosofia, me acudam aqui!). Narrativas fantasiosas? Quem curte uma narrativa fantasiosa, mesmo? Agora vamos ver o outro lado de “recusa patológica em admitir erros”: “necessidade patológica de apontar erros do PT”. Quem é o sujeito dessa frase, mesmo? (spoiler: imprensa brasileira). Mas o problema é o PT, não o jornalismo de merda que se faz atualmente nesta espelunca, né?

 

(…) Para a militância petista, isto não tem a menor importância, pelo contrário, os que tinham alguma restrição a Haddad na igreja do PT agora deverão passar a venerá-lo. → Aqui a associação de PT a igreja ficou escancarada, seguida do verbo venerar.

 

(…) essa inflexão radical pode ser desastrosa [por inflexão raivosa entenda: não agir conforme os preceitos do Estadão. Porque o estadão, sim, é um veículo ponderado, moderado, racional e eu vou parar aqui pra não cair na gargalhada]. Sem falar no compromisso com a democracia e com outros valores essenciais, como a verdade. → ah, tá. O PT não tem compromisso com a democracia nem com outros valores essenciais, como a verdade?

 

O moço da ciclovia envelheceu 20 anos em uma semana de campanha. Virou um político velho, fazendo uma política velha, sem autocrítica nem transparência, → Metáfora orientacional acionada:  velho é NEGATIVO

desperdiçando a chance de se contrapor de verdade às propostas radicais e ao populismo com sinal trocado de Bolsonaro. → Ué? O PT é populista, mas vai se contrapor ao populismo com sinal trocado do Bolsonaro? Aliás, o que seria ‘populismo com sinal trocado”?

 

E é assim, com metáforas orientacionais, frames e categorizações, que a imprensa vem associando ao PT há 18 anos uma imagem negativa, atrasada, inconsistente.

 

Essas coisas Noam Chomsky não vê. (caso contrário, teria que reconhecer como verdadeiras as teorias de seu desafeto. Mas isso é fofoca acadêmica, deixa pra lá.)

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora