O fiscalismo cego destruiu a alma da imprensa, por Luis Nassif

Mas há uma enorme lentidão de parte da mídia de entender os novos ventos - se não por solidariedade, por defesa de princípios sociais, ao menos por acuidade jornalística.

O uso do cachimbo entortou definitivamente a boca da mídia.

A pandemia está promovendo mudanças nos movimentos da opinião pública midiática. A exposição das vulnerabilidades das classes de menor renda, somada às cenas explícitas de racismo da política, depois de muitos anos abriram os olhos da parcela mais informada da opinião pública sobre os exageros do modelo econômico. Na nova onda, a palavra-chave é solidariedade. As melhores cabeças do mercado já acordaram para a bomba de efeito retardado da questão social.

Mas há uma enorme lentidão de parte da mídia de entender os novos ventos – se não por solidariedade, por defesa de princípios sociais, ao menos por acuidade jornalística.

Tome-se o caso em julgamento no Supremo Tribunal Federal, sobre a contagem de licenças de saúde para a aposentadoria por tempo de serviço. Há anos ja existe um controle desumano sobre as licenças, fruto do sistema de bônus para os peritos: são recompensados de acordo com a quantidade de licenças negadas. Portanto, não se pode falar em afrouxamento das licenças. E as licenças envolvem a parte mais vulnerável do emprego formal, os trabalhadores sujeitos a doenças.

Agora, o saco de maldades de Paulo Guedes pretende retirar o período de licença da contagem de tempo para a aposentadoria. Atropela regras estabelecidas, cria insegurança jurídica.

Haveria muitas maneiras da mídia abordar o tema. Por exemplo, entrevistando pessoas que poderão ser prejudicadas pela mudança de regras. Mas toda a abordagem é em torno de um zelo fiscal, como se a única função do orçamento público fosse remunerar o mercado.

O maior prejuízo à mídia, do antijornalismo praticado nos últimos 15 anos, foi ter destruído a alma da imprensa.

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