O macaco em loja de louças

Atualizado

O macaco em loja de louças que articula as ações de Daniel Dantas continua quebrando louças.

Fica até cansativo. Denuncia-se a ação articulada de órgãos da imprensa ligados a Dantas. Para não deixar que seus críticos sejam desmentidos, no momento seguinte os suspeitos articulam outra ação ao vivo e em cores, com todo mundo relevante acompanhando o caso. É como se estivesse em um palco e os atores fizessem uma chacrinha para combinar alguma manobra sem se dar conta de que as cortinas já se abriram e a platéia inteira está testemunhando.

É incompreensível tanto amadorismo!

Veja só:

1.    Conjunto de resoluções do STF beneficiando os criminosos de colarinho branco. Conseguiram a vitória mais completa até agora. No momento da vitória, não passem recibo. Mas a síndrome do escorpião fala mais alto. Parece que a vitória sobe à cabeça e querem aproveitar a comemoração para fechar a fatura completa: a anulação da Satigraha e a liquidação dos inimigos. Todas as vezes que procederam assim, deram tiro de bazuca no pé. Mas não aprendem.

2.    Simultaneamente a essa decisão, o advogado Nélio Machado simula um afastamento da defesa de Dantas. Na sequencia, novo festival da matérias.

3.    O óbvio Consultor Jurídico solta várias matérias contra ABIN, contra a Satiagraha, conforme comentaristas já reportaram.

4.    A óbvia Veja – que não deu uma nota sequer sobre o maior bloqueio de recursos da história, por autoridades judiciais internacionais – , pega uma matéria requentada (a tal reunião do general Jorge Félix com a ABIN em novembro) e procede ao cozidão costumeiro.

A Época já tinha dado essa matéria em novembro.

Veja consegue a gravação da reunião e cria do nada a mesma matéria.  O general usa o termo “vazar a reportagem” nitidamente com o propósito de apontar quem foi a pessoa que originou a matéria.

O que diz o trecho que a revista quer utilizar para se inocentar do episódio do grampo:

Infelizmente, série muito grande de vazamentos, ocasionado por colegas de vocês, desde vazamento que deu origem a toda essa celeuma, essa reportagem (ABIN grampeou o Ministro) foi vazada por um colega de vocês, está claramente na reportagem. E consta aqui o repórter que fez a matéria, o Policarpo, teria informado a PF quem vazou a matéria.

Consta aqui que foi a mesma pessoa que vazou a outra reportagem que vazou na IstoÉ. Como vocês são homens e mulheres de inteligência, podem procurar saber quem foi.

A imprensa tem lado, infelizmente tem lado. E muitas vezes o lado não é o nosso lado. De modo que essas coisas saem e frequentemente são distorcidas e se voltam contra nós.

De forma que vamos fazer nosso trabalho progressivamente, sentimos que as coisas estão mudando, embora haja vazamentos até seletivos e interpretações seletivas também,. De modo que precisamos tomar cuidado e deixar que o tempo e o encerramento dos inquéritos coloque as coisas nos devidos lugares.

É crível supor que, se houvesse grampo clandestino da ABIN contra o presidente do STF, o general Félix admitiria em conversa com o corpo de funcionários da ABIN, oficialmente gravada e cujo teor ele mesmo admite que poderia ser vazado?

Francamente, não entendo esse suicídio editorial da revista. Quando mais remexe, pior fica.

Vá a esse endereço para ler as matérias: http://www.google.com/notebook/public/03904464067865211657/BDRJ6SgoQicupg_Uj

Por Marco Antônio

Nassif, o STF não pode determinar a quebra do sigilo da fonte, por ser cláusula pétrea e instrumento indispensável à garantia do exercício profissional de jornalistas e advogados, por exemplo. A não ser que descumpra o artigo quinto de que tanto se gaba de proteger. Mas não é preciso isso tudo. A Veja pode muito bem fornecer o áudio que diz ter. Afinal, não estará quebrando nenhum sigilo de fonte, já que nele só aparecem o Ministro e o Senador que, inclusive, já confirmaram o teor de tão amena e desimportante conversa. A reticência injustificável da publicação em fazê-lo é justamente o que não convence ninguém da existência de tal gravação. E a Veja sabe que ninguém vai ficar convencido. Acho que a tentativa desesperada é mais para prevenir-se do que poderá vir por aí com aberturas de determinados documentos eletrônicos do que para salvar Dantas, que, já sabe a elite financeira e política do país, está com os dias contados no que diz respeito a qualquer tipo de influência econômica.

Por João Vergílio

Há duas hipóteses aqui. Ou o general usou a palavra “vazamento” em seu sentido estrito, ou então fez uma escolha vocabular infeliz – deveria ter se referido à “invenção” do agente da Abin, à “mentira” contada por ele, à “tramóia” que ele teria armado, e coisas do gênero, mas, por algum motivo, usou a palavra “vazamento”, dando margem à conclusão da Veja de que o general teria confessado publicamente a execução de um grampo ilegal, falando com uma assombrosa franqueza a respeito de um crime diante de todos os seus subordinados reunidos num auditório, numa sessão gravada.

Admitindo o crime do agente, estaria admitindo também seus próprios crimes, bem como de toda a cúpula da Abin, presente à reunião, já que, sabendo da existência de grampos ilegais, ao invés de denunciá-los, resolveram acobertá-los.

Valeria a pena explorar um pouco os contornos dessa hipótese que, para salvar a literalidade de um termo, joga na lata do lixo todo o contexto da enunciação. Como interpretar uma confissão como essa? Como inseri-la num contexto minimamente sustentável?

Poderíamos imaginar que o general foi vítima de uma espécie de “ato falho”. Lá no fundo de sua consciência, ele sabia perfeitamente que a agência tinha, sim, culpa no cartório e, num momento de descuido, acabou deixando transparecer essa culpa no uso da palavra “vazamento”. Se pudesse refazer o discurso, não teria usado essa palavra, mas outra. Muito bem. Pode ter havido um ato falho. Mas, reparem que essa hipótese DEPENDE de admitirmos previamente que houve um grampo ilegal e que o general tinha plena consciência disso. Só quem já está convencido disso pode montar o cenário psicológico do ato falho.

A declaração do general não serviria para provar a ocorrência do crime. O contrário disso é verdadeiro. Só a convicção de que existiu um crime me permitiria ver na fala do general um “ato falho”. Se não estou convencido disso, posso continuar achando que, se tivesse que refazer o discurso, o general teria usado uma outra palavra, sem inferir daí que o uso da palavra “vazamento” tenha sido o sintoma involuntário de uma culpa inconfessada.

A hipótese restante é a do “sindicato do crime”. A Abin seria um covil de criminosos, todos saberiam perfeitamente que os grampos ilegais são feitos a torto e a direito, ao arrepio da lei, todos estariam perfeitamente cientes de que um dos agentes havia grampeado o supremo ministro do Supremo, e o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, como comandante máximo daquela corja, apenas repetia no microfone, com registro para a posteridade, aquilo que todos os velhacos da platéia estavam cansados de saber.

A revista Veja acha um absurdo imaginar que um ministro, um senador e um jornalista tenham se mancomunado para a produção de uma mentira conveniente para os três. Mas não acha absurdo imaginar que milhares de servidores públicos sejam cúmplices de um crime no qual não teriam nenhum tipo de interesse.

É a isso que se reduz a leitura que a revista faz dessa fita.

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