O problema maior é a falta de pluralismo nos meios de comunicação, por Luis Felipe Miguel

O problema maior é a falta de pluralismo nos meios de comunicação

por Luis Felipe Miguel

O pacto do jornalismo com seu público tem dois momentos básicos.

O primeiro – e mais simples – é a promessa de que as notícias que ele apresenta são verdadeiras. Se está escrito que Donald Trump e Kim Jong-un se encontraram, então eles se encontraram.

O jornalismo da mídia corporativa tem enfatizado sua confiabilidade quanto a este quesito para afirmar a si mesmo como a oposição às temidas fake news. No discurso de seus porta-vozes, o combate à disseminação de notícias falsas desliza quase que naturalmente para o privilégio ao jornalismo da mídia corporativa. A reivindicação agora é que as mídias sociais criem mecanismos para diferenciar o que é “jornalismo de verdade”, isto é, o produzido pelas empresas, de outras fontes noticiosas, que se tornam então automaticamente sinônimo de fake news.

Com isso, como quem não quer nada, o jornalismo da mídia corporativa reafirma seu poder de agenda.

Este é o segundo – e mais complexo – pacto com o público. O jornalismo promete apresentar uma seleção confiável dos fatos mais relevantes, feita a partir da aplicação, de boa fé, de critérios que são julgados pertinentes.

Se o encontro entre Trump e Kim está no jornal, então é um fato importante.

No entanto, não há um metro universal para determinar quais fatos são os mais importantes. A seleção do jornalismo é influenciada por diferentes fatores.

As rotinas de produção da notícia privilegiam determinados fatos – pela acessibilidade das fontes ou pela possibilidade de programar a cobertura, por exemplo.

A posição social dos jornalistas afeta sua visão de mundo. É por isso, por exemplo, que notícias sobre trabalho doméstico em geral se colocam mais do ponto de vista dos patrões do que das empregadas.

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Mas há também, é claro, as pressões dos anunciantes e os interesses econômicos das próprias empresas jornalísticas. Às vezes, de maneira aberta – ou alguém acha que a Folha dá páginas e páginas para sua próprias coleções de CD’s ou livros por conta de seu elevado valor cultural? Mas, em geral, de forma disfarçada.

E há, por fim, as preferências políticas dos controladores da empresa. Enquanto os primeiros vieses são quase inconscientes (o que não os torna menos relevantes), os últimos são deliberados.

Rompe-se o compromisso da “neutralidade” da notícia, isto é, de que a decisão de divulgá-la não será afetada pelo fato de que vai prejudicar A ou favorecer B, mas apenas por sua relevância intrínseca, de acordo com os critérios de seleção adotados.

Quanto mais débeis são os parâmetros profissionais vigentes, mais fortes são estas últimas influências. No Brasil, como sabemos, estes parâmetros são baixíssimos.

Por isso, assassinatos de lideranças camponesas e indígenas se sucedem no interior do país sem que sequer sejam registrados nos jornais.

Por isso, o noticiário econômico martela sem parar o déficit da previdência social – com espaço próximo do zero para quem contesta o cálculo – e se cala sobre a estrutura tributária que favorece fortemente os muito ricos ou sobre a sonegação de impostos em larga escala.

Por isso, nenhum grande jornal noticia quando o chefe da Igreja Católica manda um emissário visitar no cárcere um ex-presidente, levando presente e tudo.

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Os meios de comunicação alternativos são importantes para apresentar os fatos que a mídia corporativa deixa de lado. São um componente fundamental para gerar um mínimo de pluralidade no nosso ambiente informacional.

O foco na denúncia das fake news e seu complemento, o fetiche do fact checking, têm como efeito primário anular a questão da seleção das notícias. O retorno do jornalismo da mídia corporativa ao trono de “verdade confiável” busca, muito mais do que eliminar as fake news, eliminar a competição na produção da agenda.

Enquanto isso, a própria mídia corporativa produz suas fake news. Mas as produz com classe, usando as estratégias de evasão da responsabilidade que a sociologia do jornalismo identifica há décadas. Há sempre uma desembargadora para dizer que Marielle Franco era vinculada ao crime organizado, um procurador para dizer que o barco de lata é prova de corrupção, um delegado para dizer que o movimento social é desordeiro.

Notícias falsas são, sim, um problema. Mas nosso problema maior é a falta de pluralismo nos meios de comunicação, isto é, o alinhamento de toda a grande imprensa a um mesmo restrito conjunto de interesses sociais, econômicos e políticos. O enquadramento que o jornalismo da mídia corporativa quer dar à questão das fake news, que reforça sua própria centralidade, agrava nosso problema principal, em vez de remediá-lo.

Luis Felipe Miguel – Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades. Pesquisador do CNPq. Autor de diversos livros, entre eles Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014).

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4 comentários

  1. HOJE as midias sociais AINDA

    HOJE as midias sociais AINDA estão se comportando como o BOI que corre atrás da VACA

    Não sei aonde pega  ..se em diferenças empresariais ou ideológicas, mas fato, ESTA SOBRANDO CACIQUE e faltando tribo ..e nessas quem perde é a sociedade com informações precárias e repetitivas

    O PIG por exemplo usa doutra artimanha  ..os mesmos CRIMINOSOS que envenenam no veículo A, aparecem no veículo B  ..tipo Reinaldo Azevedo, Cantanhede  ..ou a turma da globo – globo news –  cbn -G1 e O globo/PSDB etc

    HOJE por exemplo ..peço aos colegas pra acessarem o TVT  ..vai lá, vejam o telejornal de ontém que NÂO esta caminhando de forma integrada com a blogosfera

    ..só no telejornal de 11/06 fiquei sabendo que :

    – existe uma greve de 72h de 25 mil funcionários contra a privatização da Telebrás

    – que professores da rede privada tiveram grandes conquistas com a greve

    – que áreas indigenas de Peruibe determinadas por DILMA foram suspensas por Celso de Melo (aquele que indiciou Grace e liberou Aloisio Nunes)

    – que existe um PRE PROJETO aprovado que busca COBRAR do detento pelos CUSTOS com sua prisão (e já já, .provável, alguém vai propor privatização do sistema pra americanos a “custo zero”)

    então, TODAS matérias que a blogosfera acordou sem saber o que esta acontecendo  ..isso porque veículos ditos progressitas insistem em serem PAUTADOS pelo PIG ..ou a nos trazerem notícias da COPA

    a tchurma precisa entender que DA UNIÂO nasce a força

    http://www.tvt.org.br/

     

     

  2. Informação e diversão

    O grande problema dos meios de comunicação empresariais ou corporativos, que não foi ainda devidamente estudado na academia, é o insidioso embaralhamento entre o que é pretensamente ‘informação’ e o que é ‘distração’ ou ‘entretenimento’. A indústria da imagem, com seu poder de sedução e encantamento, adiciona insulto à injúria e contribui de forma mais ou menos sutil para o enviesamento cognitivo e o blolqueio do senso crítico. Hoje é difícil saber, nos meios televisivos, o que é informação genuína e o que é pura farsa e teatralidade. Gostaria de me convencer do contrário, mas não acredito que o cidadão comum tenha liberdade de atingir um grau mínimo de discernimento nesse emaranhado – principalmente em matéria de política nacional e eleições. O professor Miguel, um lutador incansável e convincente, acha que o pluralismo de meios poderia minorar o problema. Pode ser.

  3. bom post.

    Qualquer pessoa consciente e isenta já descobriu que não dá para confiar na “grande imprensa”, nem nacional nem a internacional.

    A nacional já não a vejo e leio lá se vão vários anos… A internacional  só leio e ouço mais por conta do meu interesse por idiomas.

    Sobra os alternativos mesmo com poucos recursos, pouco traquejo e por vezes com exageros e imprecisões…

    Mas eu desculpo, numa boa.

     

  4. O problema é a falta desses meios de comunicação…
    Nassif, faltam meios de comunicação lato senso. O que temos hoje é o monopólio da informação neoliberal por parte de grupos empresariais interessados em se apropriar do Estado brasileiro, através de veículos que não se sustentam economicamente mas ainda são tidos como porta-vozes da opinião pública. Só um AI-5 como o da ditadura de 64 poderia ressuscitar o tal “pluralismo” ou a oitiva do outro lado, mas tudo indica que isso não acontecerá, motivo pelo qual é urgente desmistificarmos o PIG e seu monopólio da verdade. Para tanto, basta fazer as contas, demonstrar que a tiragem e/ou audiência despencaram e transformaram as antigas bancas de jornaleiros em pontos de venda de outros produtos, que as assinaturas remanescentes são de empresas e não de pessoas físicas, em sua maioria, razão pela qual nossos grupos informativos vivem de lobbies e de uma publicidade governamental caríssima, como se esses veículos tivessem a amplitude que tinham antes, quando não haviam webb e suas redes sociais e aplicativos, que puseram um término aos anúncios populares de venda de imóveis e outros produtos, que respondiam pela viabilidade econômica desses meios. Cabe à sociedade exigir que as verbas publicitárias governamentais sofram uma redução proporcional à queda do alcance dessa mídia, pondo fim ao “caixa dois” que remunera a parcialidade, partidarismo, facciosismo e outros nomes dos fake news ou press-realeases que veiculam, escamoteando a verdade dos fatos, sob pena das autoridades terem de pagar do próprio bolso esse apoio à máfia midiática que lhes assegura o continuísmo no poder. Além de obrigar as autoridades a reconhecer que os blogs sujos e demais cyber-meios informativos exigem respeito e valorização, é necessário ainda conferir visibilidade às sociedades, empresas e negócios mantidos pelos donos do PIG, única forma capaz de explicar o que há por trás de suas campanhas ou do silêncio sepulcral sobre assuntos que vão desde a omissão da visita do emissário do papa à cadeia aonde Lula está até as consequências do dilúvio de agrotóxicos do agronegócio sobre a saúde pública, que converteu o Brasil em campeão mundial de incidência de câncer e outras doenças crônico-degenerativas. Para romper tal silêncio sepulcral sobre o que interessa realmente à coletividade, contudo, nada como a reinvenção de publicações estilo “O Pasquim” ou a obrigatoriedade do poder público da União e dos Estados implementar tevês públicas capazes de pôr fim à atual escravidão mantida pela TV Globo sobre todos nós. Mas, para essa última tarefa, o Judiciário teria de aceitar as pesquisas eleitorais demonstrando que o povo que lhe paga os salários exige que Lula possa concorrer à presidência da República. Ou, caso insista em desrespeitar a opinião pública, aceitar as consequências, que nem salas privativas em aeroportos ou escoltas diuturnas poderão evitar, como poder público subalterno ao interesse coletivo maior.

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