Ombudsman da Folha diz que leitura do jornal sobre Pnad foi ‘míope’

Sugerido por Assis Ribeiro

Do Brasil 247

Ombudsman critica o “catastrofismo” da Folha

Segundo a jornalista Suzana Singer, leitura que o jornal de Otávio Frias Filho fez da Pnad foi “míope”; segundo ela, “é um prato cheio para quem acha que o jornal só publica más notícias”, uma vez que todos “destaques pinçados no levantamento eram negativos”; detalhe: a pesquisa mostrou forte expansão da renda, do consumo e do emprego

O “tradicional catastrofismo” da Folha recebeu uma dura crítica da ombudsman Suzana Singer. Segundo ela, o jornal fez uma leitura míope da Pnad, pesquisa que traduz a realidade econômica e social do País. Leia abaixo:

Arauto das más notícias

Folha destaca apenas dados negativos da Pnad, apesar de a pesquisa ter apontado aumento de renda em 2012

A edição que a Folha fez da pesquisa Pnad, que traça anualmente um quadro social do país, é um prato cheio para quem acha que o jornal só publica más notícias. Todos os destaques pinçados no levantamento eram negativos.

O título na capa informava que “Analfabetismo e desigualdade ficam estagnados no país” (28/9). Em “Cotidiano”, havia o aumento da diferença de renda entre homem e mulher, os salários inchados pela falta de mão de obra especializada e o celular como o único tipo de telefone em mais da metade dos lares. A análise dizia que o resultado da pesquisa pode significar “o fim da década inclusiva”.

Outros jornais optaram por manchetes do tipo uma no cravo outra na ferradura: “Renda média sobe, mas desigualdade para de cair” (“O Globo”), “Analfabetismo para de cair no país; emprego e renda sobem” (“Estado”), “Em todas as regiões houve aumento de renda, mas a desigualdade ficou estagnada” (Jornal Nacional).

Leia também:  Assim caminha a boçalidade: jornalismo convencional se parece cada vez mais com bolsonarismo, por Gustavo Conde

Com seu característico catastrofismo, a Folha fez uma leitura míope da pesquisa, que é muito importante pela sua abrangência -são 363 mil entrevistados respondendo sobre escolaridade, trabalho, moradia e acesso a bens de consumo.

O dado mais surpreendente era que a renda do brasileiro cresceu em 2012, ano em que o PIB subiu apenas 0,9%. Na Folha, esse fenômeno só foi citado no meio de uma reportagem sobre a desigualdade.

Coube ao colunista Vinicius Torres Freire, no dia seguinte, chamar a atenção para o fato de que o Brasil estava mais rico “e não sabíamos”. “É possível dizer que a taxa de pobreza deve ter caído bem no ano passado”, escreveu Freire.

Pelos cálculos de Marcelo Neri, 50, presidente do Ipea, 3,5 milhões de brasileiros saltaram a linha de pobreza em 2012. “No conjunto das transformações, foi a melhor Pnad dos últimos 20 anos”, diz Neri.

A desigualdade parou mesmo de cair, mas foi porque os muito ricos (1% da população) ficaram ainda mais ricos (a renda subiu 10,8%), num ritmo mais rápido do que os muitos pobres (10% na base da pirâmide) ficaram menos pobres (ganho de renda de 6,4%). É claro que não se deve desprezar o abismo social, mas não dá para ignorar que houve uma melhora geral no ano passado, o que é um mistério a ser explicado pelos economistas.

Se o jornal subestimou o dado da renda, deu espaço demais para o fato de o analfabetismo ter parado de cair. Teve nesse ponto a companhia dos outros jornais e da TV.

Leia também:  Youtube usa ferramenta de radicalização que alimenta direita brasileira, diz NYT

Depois de 15 anos de queda contínua, a taxa de analfabetismo variou de 8,6% para 8,7%. A diferença, irrisória, pode ser apenas uma flutuação estatística. Nem o fato de a taxa ter parado de cair é importante, segundo os especialistas.

Os analfabetos brasileiros concentram-se, principalmente, na faixa etária mais alta (60 anos ou mais). Os mais velhos, que não tiveram acesso à escola na infância, são mais difíceis de serem alfabetizados. “Entre os jovens, a proporção de analfabetos continua caindo. A conclusão é que, embora nossa educação tenha muitos problemas, este não é um deles”, explica Simon Schwartzman, 74, presidente do Iets.

O destaque dado à diferença entre a remuneração de homens e mulheres também foi descabido. Em 2011, a brasileira recebia 73,7% do salário de um homem. No ano passado, era 72,9%.

Além de não ser uma variação muito significativa, pode ser um problema amostral. “As mulheres não estão necessariamente ganhando menos do que os homens. Se elas já têm uma renda média menor, basta crescer a participação feminina no mercado de trabalho para aumentar a diferença entre os sexos”, afirma Marcio Salvato, 44, professor de economia do Ibmec.

Entre os bens de consumo, o jornal destacou o celular e as motos. Wasmália Bivar, 53, presidente do IBGE, ressalta a máquina de lavar roupa, presente em 55% das casas. “Para a vida das famílias mais pobres, é um bem de grande significado, porque dá mais tempo livre para as mulheres.”

Leia também:  TV GGN: porque a mídia embarcou na Lava Jato

Não é fácil escolher o que há de mais relevante em uma pesquisa extensa como a Pnad, mas não dá para adotar o critério dos piores números. O jornalismo deve ter como primeira preocupação o que vai mal, apontar os problemas, só que o necessário viés crítico não pode impedir que se destaque o que é de fato o mais importante.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

8 comentários

  1. Míope nada!

    Ou então Goebbles tinha 15 de dioptria em cada olho!

    Fala séria Sra Singer, não seja hipócrita, a Sra conhece muito bem o espírito do dono do jornal onde a Sra trabalha, e a maneira como são contruidos as “notícias” neste seu jornal.

    Vai conta outra!

  2. Quando os maiores veículos de

    Quando os maiores veículos de comunicação do país ,unem-se para dar um tom de desastre ao “melhor PNAD dos últimos vinte anos” , nas palavras do responsável pelas informações nele contidas , percebe-se o impacto violento do sucesso da agenda governamental , nas hostes oposicionistas…

  3. Tucanagens que persistem e
    Tucanagens que persistem e seriam bom tema para apara a oposição de verdade.   Estadão de hoje: Brasil Tem Tarifa de Celular Mais Cara do MundoEspanha Paga Cinco Vezes Menos GENEBRA – O Brasil tem a tarifa de chamadas de celular mais cara do mundo em termos absolutos. A constatação é da União Internacional de Telecomunicações, que hoje publica seu informe anual sobre o setor. Em termos gerais e contando também tarifas de telefonia fixa e internet, o Brasil também não tem um bom desempenho. Entre 161 países avaliados, o Brasil ocupa apenas a 93 posição.Em média, um minuto no celular em horário de pico custaria US$ 0,71 entre chamadas pelo mesmo operador. no Brasil A taxa sobe para US$ 0,74 por minuto em caso de chamadas entre operadores diferentes. Para fazer a comparação, a UIT usou a taxa média praticada em São Paulo.O custo é três vezes o que um americano paga para falar ao celular ou Portugal, de onde vem uma parte importante dos investidores. Na Espanha, sede da Telefonica, um cidadão paga cinco vezes menos pelo celular que no Brasil.Em Hong Kong, um minuto no celular custa US$ 0,01 fora do horário de pico, 70 vezes menos que no Brasil.Em comparação ao poder aquisitivo, o Brasil seria o quarto mais caro do mundo , superado apenas pela Bulgária, Malawi e Nicaragua.No que se refere ao custo de banda larga, a situação é bastante melhor. Apenas 54 países tem taxas mais baratas que o Brasil. Nas Américas, o Brasil tem a terceira taxa mais baixa da região.Mas, de uma forma geral, o País está distante das economias com os menores custos de telecomunicações. Numa cesta de preços incluindo toda a forma de comunicação, o Brasil aparece apenas na 93a posição, superado por índia, Colômbia ou Peru. Em termos de telefonia fixa, o País ocupa a modesta posição de número 112 entre os mais caros.Entre os celulares, levando em conta a renda e o PIB per capta, o Brasil é o 117 lugar, sem qualquer redução no preço entre 2011 e 2012.O resultado é que, em termos gerais, o Brasil é apenas o 62o colocado no rankiing dos países mais preparados para usar as tecnologias de informação no mundo, abaixo do Azerbaijão, Croácia, Arábia Saudita, Chile ou Líbano. O ranking é liderado por Coreia, Suécia e Islândia.Avanço – Apesar dos custos, um número cada vez maior de brasileiros tem acesso a celulares e internet. Segundo a UIT, o Brasil atingiu em 2012 pela primeira vez a marca de ter metade da população usando a web e metade com computador em casa ao final de 2012. Em 2011, essa taxa era de 45%.No que se refere aos usuários de banda larga, a taxa ainda é pequena, passando apenas de 8,6% para 9,2% entre 2011 e 2012. O número ainda está distante da média de 27% nos países ricos.Os celulares, apesar do custo elevado, já ultrapassaram o número de brasileiros. Em média, existem 125 celulares por cem brasileiro, contra 119 em 2011.O acesso ao 3G também vem crescendo de forma expressiva. Em 2012, 37% dos usuários de celulares tinha acesso à rede. Em 2011, essa taxa era de 21%. A expansão brasileiro segue uma tendência de outros países emergentes, que dobraram o volume de acesso ao 3G em apenas dois anos. Hoje, metade do mundo tem acesso à rede.    

     

  4. Uau…

    Estamos salvos…esta é a verdadeira face da Democracia que nossa Folha ajudou a preservar em 64, e depois, bem depois, em segurança, ajudou a restaurar(?)…

    Valei-nos São Julinho, padroeiro dos heróis da ditabranda…

    Viram, seus abutres?

    67 toneladas de manchetes negativas, achaques, simplismos e reducionismo partidários e golpistas pesam igualzinho a meio-quilo de texto nas páginas internas da bundaswoman…

    Aprendam, seus bugres…

  5. Da FSP nenhuma novidade. Mas

    Da FSP nenhuma novidade. Mas a blogosfera “progressista” também tem que fazer um mea culpa, pois no que tange aos dados do PNAD, ou só ressaltou os dados positivos, ou ignorou-o completamente. 

    Muitas vezes os blogs “sujos” são tomados por tanto partidarismo que fazem a mesma coisa que a FSP, só que ao contrário.

    O dado que não causou discussão NENHUMA e deveria ser abordado, é o fato da renda dos 1% mais ricos ter subido mais do que a renda dos 10% mais pobres: enquanto os mais abastados tiveram um acréscimo de 10,8%, os com renda mais baixa tiveram acréscimo de 6,4%.

    Se o combate a desigualdade social é a bandeira mais cara dos 3 governos PT, o mínimo que deveria acontecer era, nos blogs ditos de esquerda, ter sido acendido o sinal amarelo diante destes dados.

    Uma discussão interessante seria inquirir o porque ocorreu isto:

    -a renda dos mais ricos cresceu mais devido a fatores que só ocorreram em 2012, sendo a tendência de 2013 a volta do crescimento maior da renda dos mais pobres?

    -ou realmente há uma tendência para que a renda dos mais ricos acelere mais do que a dos mais pobres?

    O mais irônico que a única que se preocupou com isto foi a FSP. Claro, não com o objetivo de discutir a desigualdade social, mas de fustigar o governo, só que isto não exime as outras mídias de discutir se a afirmação de que seria o “fim da década inclusiva” é verdadeira ou falsa.

  6. “Bad news are good news”

    Nassif, vou contar uma história da PUC-SP, quando fazia lá o curso de jornalismo…

    Um dos professores (vou omitir o nome p/ preservar a pessoa, que é fantástica) era um chefe de editoria na FSP, comcurrículo e experiência invejáveis. Pois ele resumia a cultura da grande mídia (e orientava o ensino da profissão) assim, na aula:

    “Bad news are good news”.  

    Ou seja – notícia que chama público leitor/ouvinte/telespectador era noticiário de catástrfes/tragédias, criminal ou com tom crítico/negativo. E o que a mídia e seus controladores queriam era público cativo co vistas à formação de massa crítica (poder de formar opinião junto a uma parcela significativa da população). Nunca – jamais! – teve algo a ver com medida justa, equilíbrio, ponderação na avaliação de eventos ou clareza e correção na apresentação da realidade dos fatos. E detalhe – tal descrição da cultura empresarial da FSP dita pela boca um profissional sênior da empresa, num tempo (1993) em que o periódico era tido como referência e modelo. E em plena gestão do “seu” Frias (Octavio Frias de Oliveira, 1912 – 2007), publisher anos-luz à frente do atual, que é seu filho.

    Ele só “engasgou” na sua aula quando eu e outro colega perguntamos: “Mas, se isso for realmente verdade, por que é que o principal jornal do Grupo Folha da Manhã é a FSP e não o Notícias Populares?”

    Aí, ele falou do avançado da hora, disse ser uma discussão muito longa para um tópico específico e mudou rápido de assunto.

    Abs.

  7. Miopia nada! Presbiopia, velhice!

    Por essas e outras parei com tudo que era da dita empresa, do escrito até a internet! Não ajudo financiar velhacaria! E agora tem um banco….

     

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome