Os paradoxos da mídia

Por Tomás Coelho

Contra, porém a favor

O governo Lula fez muito mal ao fígado dos meios de comunicação. A derrota dos tucanos em 2002 foi muito mais que a perda de uma eleição. Ruiu um projeto de reforma social que cresceu desde os últimos anos da ditadura militar e tinha apoio em setores empresariais e nos meios de comunicação. Um sintoma de que se trata de um projeto foi a moratória em dezembro de 2002 da dívida das Organizações Globo, que encarnaram bem o espírito do ideal reformista dos anos 90 e a aposta num modelo de negócios que não sobreviveu às seguidas crises cambiais a partir de 1997.

As empresas de mídia se viram desamparadas na virada de 2002 para 2003: o modelo econômico (crédito externo, investimentos na privatização) agonizou e um “adversário” político chegava à Presidência da República. O cientista político Luiz Werneck Vianna notou que o governo Lula conseguiu aglutinar todos os setores da sociedade, indo dos sem-terra aos bancos. Todos aderiram ao jeito petista de governar. Subsídio para as indústrias, juro alto para a banca, crédito consignado para classe e bolsa família para os mais pobres.

Só a mídia fingia não querer participar da festa. Porém, participava, sim. Jornais, revistas e TVs faturaram bem com o aumento de vendas de imóveis, carros e eletrodomésticos desde 2004. Ficava aquele gostinho rançoso: apoiamos os ganhos financeiros, mas esse “cara” (“o” cara, segundo Obama) era um convidado trapalhão. Não é da nossa turma, pensam os meios de comunicação. Tão verdade assim, que uma representante das empresas de comunicação convocou a impresa a liderar a oposição, a tocar o tambor de lata em praça pública.

Criou-se um modelo engraçado: somos contra esse governo, porém a favor de tudo que ele faz para ganharmos dinheiro. As lideranças dessas críticas leveram imediatamente o troco de grupos organizados em um meio de comunicação emergente: a web. A mídia tornou-se um dos temas centrais da chamada blogosfera brasileira. Surgiram expressões jocosas como PIG (partido da imprensa golpista), difundidas por dissidentes dos meios de comunicação. O presidente Lula virou o centro de uma disputa simbólica e desproporcional.

Foram oito anos de muita briga, principalmente na internet. A cada radicalização dos meios de comunicação, apareceu um movimento contrário e com roupagem progressista. Como sempre, a divisão estava entre os adversários e os defensores de Lula. Tudo porque as empresas de mídia e seu projeto de reforma social perderam a disputa de 2002 e decidiram espernear. É democrático pelos olhos de hoje criticar os governos, quase um imperatiivo categórico ,mas os excessos fomentaram a lógica do amigo e do inimigo – Carl Schmitt reloaded. Pena.

Os “contra” denunciam a tomada do Brasil pelo novo comunismo. Uma piada, se pensarmos bem. Mas tem sua lógica, mesmo que esquizo. Badiou chamou de “hipótese comunista”: os conservadores, na verdade, não levam muito a sério a ideia de que o mundo está se socializando, mas querem afastar qualquer vestígio de uma mera proposta ou programa social. É a lógica de chamar o “Bolsa Família” de “bolsa esmola”. Não veem que se trata de um sopão para evitar um desastre maior. Nesse ambiente, pensam os neocons ou goofies, é justo e necessário” abolir qualquer “hipótese comunista” do horizonte. Apaguemos a luz do fim do túnel.

Os “a favor” (estamos falando do Brasil de Lula) enxergam a verdadeira mudança social a partir de 2003. Nunca antes na História… e por aí vai. O teatro político vai virando um melodrama: filme contando a vida de Lula, a copa do mundo de 2014, as olimpíadas de 2016. Assim, de repente, com a liquidez internacional no pico, poderemos extinguir a pobreza. É um tal de ver o Brasil profundo, do “agora vamos, agora vai”. Os meios da comunicação tentam segurar o ufanismo, porque isso rende dividendos políticos à candidata escolhida por Lula, “o” cara.

Um passinho mais e a mídia ressuscitou o palavrório anticomunista: chamar de terroristas os antigos guerrilheiros e criar o fantasma do Foro de São Paulo. That´s all folks. 

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