Passa a régua, por favor!, por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

Passa a régua, por favor!

por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

Antes de mais nada, peço desculpas a todos pelo meu sumiço daqui. A vida insistiu em acontecer durante o primeiro turno. Tive que viajar me despedir de um tio ultraquerido cuidar de cachorros gata casa sogra filho marido tudo sem vírgula porque dona de casa não tem vírgula nem pra respirar nem pra separar constituintes de frases. Já estamos no meio da primeira semana do segundo turno.

Por isso, deixem eu só fazer um apanhadão desde quando eu parei, pra dar uma pontuada legal.

Se tem uma coisa que o primeiro turno deixou claro é que os jornais brasileiros preferem Bolsonaro ao PT. Como eu cheguei a essa conclusão? Com van Dijk. Ain, ixplica? Ixplico:

Teun van Dijk acredita que uma forma de você apresentar o contraste entre “nós, os bons, e eles, os maus” (spoiler: isso não é invenção do PT. Começou no antigo Testamento. De lá pra cá, só vem aumentando.) é dando ênfase pro que de errado eles fizerem (ou tornando errado algo corriqueiro que eles fizerem), e tirando a ênfase do que a gente fizer de errado.

O Globo levou essa teoria à prática no dia 27 de setembro com bastante intensidade, em quatro manchetes internas:

1) Campanha com Lula já é investigada em pelo menos cinco estados

2) Para Gleisi, indulto para ex-presidente é “normal”

3) Dirceu tem pena reduzida de 11 para 8 anos em ação da Lava-Jato

4) Filho de capitão republica imagem que simula tortura

Temos aí em cima framings de partido ladrão e corrupto com membros que querem ajudar uns aos outros a se safarem das garras da lei – com direito a te fazer passar raiva, se você abominar José Dirceu. Eles são maus e corruptos, seres odiáveis. Nós somos bons e temos de nos livrar deles. Dê ênfase às coisas negativas sobre eles, diz van Dijk.

O filho de capitão insípido, incolor e inodoro da manchete 4 vem a ser o vereador Carlos Bolsonaro, filho do capitão reformado Jair Messias Bolsonaro que, vejam vocês, é o candidato do PSL à presidência da república. A reportagem informa sobre o compartilhamento que o vereador fez de uma foto de um homem torturado com o nariz ensanguentado. Vou nem falar do verbo que dá a entender que a imagem já havia sido publicada antes. Deixa esse detalhe pra lá. Tire a ênfase das coisas negativas sobre nós, diz van Dijk.

Ouso dizer que a manchete 4 traz um sujeito sintaticamente simples, porém semanticamente oculto.

A Folha e o Estadão também entraram no bonde do van Dijk, como mostram as manchetes

5) Haddad se cerca de petistas que respondem a processos (Folha, 1ª página, 30/9)

6) Centro sinaliza união e ataca ‘radicalismo’ de Haddad (Estadão, 1ª página, 1/10)

Que formam na cabeça dos leitores o framing de um partido de corruptos, que está lançando um radical à presidência (chamar Haddad de radical equivale a considerar um São Bernardo um cachorro de corridas, ou considerar, sei lá, o Edmundo Animal uma pessoa com aptidões para o balé.)

E é assim, de frame em frame (já expliquei frame por aqui. Se você perdeu, recomendo um livro muito legal que explica com pormenores. Trata-se de Gramática da Manipulação, escrito por Letícia Sallorenzo. Tenho minhas reservas quanto a essa linguista, mas noves fora ela é legal :P)

Leia também:  Fim da multa de 40% do FGTS: Bolsonaro combate desemprego retirando direitos

Noves fora, tivemos no 1º turno um total de 1.312 manchetes recolhidas de Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, de 1º de setembro a 7 de outubro. Desse total, estes foram os candidatos mais citados:

Bolsonaro

319

Haddad

177

Alckmin

97

Ciro

74

Marina

42

Meirelles

10

Amoêdo

6

Alvaro Dias

4

Boulos

3

Daciolo

2

Vera Lúcia

1

Eymael

1

João Goulart Filho

1

 

 

 

Agora vamos à caquinha do segundo turno…

 

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3 comentários

  1. Bolsonaro, já considerado a

    Bolsonaro, já considerado a autoridade máxia do país, diz que nunca existiu paralelo no mundo como o que acontece agora nas eleições no Brasil. Refere-se ao fato de mesmo não indo a debates, está eleito. De fato, ele pode ser tudo, menos idiota, pra não enxergar o número de abilolados a votarem nele com muito gás, assim como Regina Duarte, por exemplo, que morre de medo de democracia. 

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