Pensamento do Galvão Bueno

Entrevista concedida à Folha / Ilustrada que muito revela sobra como pensa o Galvão Bueno:

 

Antes do inteiro teor, creio que vale à pena pinçar esse trecho para vocês:

 

A GLOBO MANDA NA BOLA 
Isso é uma bobagem. Eu acho até que devia mandar mais. Porque ela paga as contas [a emissora compra dos clubes o direito de transmitir jogos].

LULA 
Você já viu alguém dizer não para entrevistar o Lula? Eu disse. A assessoria dele me procurou para fazer um “Bem, Amigos”. Quando eu vi, ele ia dar entrevista para todas as televisões. Eu falei: “Obrigado, não quero”.

O Brasil melhorou?
Melhorou. Sem dúvida. Nos últimos 16 anos, melhorou. Entendeu os 16 anos?

 

Segue na íntegra:

Mônica Bergamo

[email protected]

Domingão do Galvão

O locutor passa por tratamento para se livrar de fungos na garganta e na boca e diz que pretende animar seu próprio programa de auditório 

 

Fotos Marisa Cauduro/Folhapress
 

Galvão Bueno prova o vinho que leva seu nome, em hotel de SP 

Em SP para o lançar, na terça, um vinho e um espumante que levam seu nome (o “Bueno Paralelo 31” e o “Bueno Cuvée Prestige”, assinados pelo francês Michel Rolland), Galvão pega régua e compasso: ele pretende redesenhar a vida profissional a partir de 2014, ano em que narrará, no Brasil, uma Copa do Mundo “pela última vez”. O locutor recebeu a coluna no hotel Hyatt, onde fica quando está na cidade -ele hoje vive em Mônaco. Entre copos de vinhos e declarações de amor à mulher, Desirée, falou sobre vários assuntos. A seguir, um resumo: 

 

VOLTA DA SELEÇÃO 
Um espetáculo. Esse primeiro jogo [contra os EUA, na terça] resgatou o nosso jeito de ser, a nossa irreverência, a molecagem sadia. Você vê o Ganso, o Neymar e o Pato, que tinham que estar lá na Copa da África. Fiquei extremamente feliz. Tive mais prazer em transmitir esse amistoso do que nos seis jogos que fiz na Copa.

NA ÁFRICA 
Transmitir jogos da seleção brasileira, na minha profissão, é um êxtase. Mas talvez esta tenha sido a única das minhas dez Copas em que não tive nenhum prazer [nas partidas]. Você sentia que os jogadores não jogavam com gosto, eles jogavam com raiva, mais para dar respostas do que pelo prazer de jogar. Isso não é o futebol brasileiro. O processo foi tão doloroso, tão triste, uma coisa tão exagerada, tão radical.

DUNGA 
Eu sempre defendi o Dunga. Ele começou muito bem, caminhou bem e depois se perdeu inteiramente. Por que uma pessoa tão vitoriosa tem que se alimentar de revanchismo? E não foi só Dunga. Foi o [auxiliar técnico] Jorginho, o [supervisor] Américo Faria…. Quem se alimenta de ódio e de revanche está sempre mais perto da derrota do que da vitória. Nós saímos da Copa sem usar a terceira substituição. Talvez não tivesse ninguém pra colocar, porque ele não levou a seleção. Levou os amigos dele.

Folha – A briga com Dunga afetou o ânimo da TV Globo?
Nós? Nada. Zero. Não quer falar? Não fala. Punido foi o pobre do torcedor brasileiro. E o que falaram, que a [apresentadora] Fátima Bernardes pediu uma entrevista e ele não deu, que ele pediu cabeça de gente…conversa fiada. Quem é ele para pedir cabeça de alguém na TV Globo?

E por que a bronca? 
O Dunga tinha traumas antigos que foram alimentados pelos assessores. O problema não era a TV Globo. É que é legal eleger a Globo. É legal eleger a Folha. É legal eleger a revista “Veja” [como alvo].

E eleger o Galvão.
É o maior barato. Para os outros.

CALA A BOCA GALVÃO 
Foi um barato, uma grande gozação. E virei papagaio! O Ayrton Senna me chamava de papagaio e agora virei oficialmente. [Aponta o céu] Ele deve estar morrendo de rir. Mas eu tomei um susto, é claro. Começou quando eu e a Fátima apresentávamos o show de abertura da Copa.

Aquele em que você dançou na bancada?
Sou baladeiro, festeiro. Saímos de lá numa felicidade imensa, “do cacete”, a audiência foi um espetáculo. E veio aquele aluvião, o Cala a Boca Galvão [espectadores tuitavam para que Galvão não falasse no meio do show]. Esse Twitter é um troço doido. Quando vi, me procuraram Folha, “O Globo”, “Veja”, “El País”, “New York Times”. Pra falar um português claro, eu pensei: fodeu. 

 

Pensei: e agora? Vamos divulgar nota oficial? Mas não sou político. Não cometi crime. Aí surgiu a ideia de falar no [programa] “Central da Copa”, com o Tiago Leifert. Ele é brincalhão. Me vejo nele. Eu era folgado e abusado na idade dele. E assumi a brincadeira. O que poderia ter sido ruim virou um grande barato. Teve também aquele maluco que fez o vídeo dizendo que Cala a Boca Galvão queria dizer “Save the Birds”. Sensacional. Virou um troço mundial mesmo. Até propus à Globo que fizéssemos uma campanha séria [em defesa de pássaros em extinção]. Eu virei cult.

A VOZ 
No jogo de Brasil e Holanda na Copa, eu travei. A minha voz falhava, parecia carro de embreagem ruim. O Cleber Machado chegou a ficar de prontidão. Me apavorei. No Brasil, o [cantor] Zezé Di Camargo me indicou o Luiz Cantoni, otorrinolaringologista. Ele botou câmeras na minha garganta: “Olha isso!”. Estava forrado de placas brancas. Peguei um fungo na boca, na garganta, na faringe. Sabe micose no dedo? Eu tenho nas cordas vocais. Rinite fungótica. Ó que nome doido? Tomei anti-inflamatórios, fungicidas e estou fazendo cinco gargarejos diários com Micostatin. Já estou quase perfeito. É o Fala Galvão. Voltei a gritar.

O FUTURO 
A Copa de 2014 será a última que vou narrar. Porque é uma entrega total. Eu saio da Copa moído, acabado. Vou estar com 66 anos, 42 de profissão. E eu sou um saltimbanco. Deus me deu duas mulheres excepcionais: a Lucia, minha primeira mulher, que morreu em janeiro, e a Desirée. Elas sempre foram mãe e pai. Eu tenho cinco filhos, dois netos maravilhosos. Quero dar um pouco mais pra mim e mais de mim pra eles. Mas eu não quero sair da Globo nunca mais! Eu vou fazer 30 anos de Globo em 2011. Vou fazer um livro, “30 Anos de Estrada”. E sou louco para fazer um programa de auditório. Doido.

Tipo Silvio Santos?
Tipo Faustão. Ou Jô. O Pedro Bial se rasgou no “Big Brother”. Aquilo lá é um programa de auditório. E o Bial é gênio. Cineasta, poeta, repórter, escreve como ninguém. É o Chacrinha dos dias de hoje. No “BBB”, passou a ser atacado. Como eu.

Há preconceito contra o que é popular?
No Brasil tem preconceito contra todo mundo que faz sucesso. Ponto.

SALÁRIO 
Ganho mais do que preciso e menos do que mereço.

R$ 1 milhão por mês?
Você é que está falando [risos]. Eu não posso. Mas, se não for, tá perto [mais risos]. Dizem que talvez eu seja o maior salário da Globo. Mas não quer dizer que eu ganhe mais. Eu não faço merchandising, comerciais. Não posso e não devo.

A GLOBO MANDA NA BOLA 
Isso é uma bobagem. Eu acho até que devia mandar mais. Porque ela paga as contas [a emissora compra dos clubes o direito de transmitir jogos].

LULA 
Você já viu alguém dizer não para entrevistar o Lula? Eu disse. A assessoria dele me procurou para fazer um “Bem, Amigos”. Quando eu vi, ele ia dar entrevista para todas as televisões. Eu falei: “Obrigado, não quero”.

O Brasil melhorou?
Melhorou. Sem dúvida. Nos últimos 16 anos, melhorou. Entendeu os 16 anos?

CRAQUES AMIGOS 
Quando sofri um acidente [em 2004], o Kaká ligou para o hospital. E disse à Desirée: “Diga que é o outro filho dele. O do futebol”. Essa é a nossa relação. Pelé, Rivellino, Zico, Júnior, Falcão, são gênios. E meus amigos há 30 anos. Mas hoje tá mais difícil. Para falar com um jogador, você passa por 18 assessores. E provavelmente, se não for o Galvão, não fala com eles.

VIDA EM MÔNACO 
Foi um presente que me dei. Quando Ayrton morava lá, eu falava: “Um dia eu vou ser gente pra morar aqui”. É uma coisa de realização, de você fazer aquilo que projetou há 25 anos. Lá, em duas horas, estou em qualquer país para narrar um jogo. Facilitou a vida. Meus filhos estudam em escola internacional. O Luca tem nove anos. Lê, fala e escreve em inglês e em francês.

Você tinha sete empregados no Brasil e lá só tem um.
Dois eram seguranças. Um era motorista. O outro era jardineiro. Aqui, sou aconselhado a ter segurança, carro blindado. Lá não tem nada disso. A Desirée põe a mesa do jantar, os meninos tiram.

E no Brasil?
O Luca é muito inteligente. Mas eu sempre desconfiei que ele não era tão inteligente quanto a diretora da escola aqui dizia. Porque ele é filho do Galvão. Lá, eles têm que caminhar por eles. Do lado bom e do lado mau. Meu filho Cacá Bueno é um gênio como piloto [de Stock Car]. Sofreu anos de perseguição por ser meu filho. No auge da rejeição ao Galvão, ele subia no pódio e vaiavam. Faziam o mesmo coro do “Galvããão, viado”. É uma sacanagem. Machuca muito.

DIVINA VAIDADE 
A Desirée é uma mulher e uma mãe espetacular. Me devolveu a vaidade, a vontade de viver mais, de ser mais jovem. Ela é 18 anos mais nova. E um amigo me disse: “Galvão, a gente tem a idade da mulher que ama”. Ó que coisa bonita! Há dez anos fiz plástica, na pálpebra. Acho até que tá na hora de dar um tapinha aqui [no pescoço]. O papinho tá feio, tá caído aqui, ó!

AMOR AOS 60 
Aos 49, quando conheci Desirée, ele foi arrebatador. Aos 60, ele é encantador.

SEXO AOS 60 
Um espetáculo. 

 

 

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