Wilson Ferreira
Wilson Roberto Vieira Ferreira - Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
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Por que jornalistas corporativos têm tanto medo da cor vermelha?, por Wilson Ferreira

“Eritrofobia” é termo psiquiátrico dado ao pavor irracional pela cor vermelha... será que os jornalistas corporativos sofrem disso? 

Pânico cromático: por que jornalistas corporativos têm tanto medo da cor vermelha?

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

O pânico cromático provocado pela cor vermelha está de volta. Dessa vez, para tentar salvar das enchentes o governador do RS, Eduardo Leite. Depois do pânico das ciclofaixas pintadas de vermelho em SP, do pavor de símbolos vermelhos entrarem na bandeira brasileira e de a Folha exaltar a retirada da cor vermelha dos pilares do MASP, agora o pânico cromático retorna na politização da catástrofe ambiental que o jornalismo corporativo diz que não deve ser feito. A jaqueta vermelha do ministro da Reconstrução do RS, Paulo Pimenta, provocou pavor semiótico na Globo News. O apalermado Eduardo Leite estaria de cara amarrada por estar diante de uma propaganda política explícita do PT. Segundo a Globo News, ao contrário, o jovem ativo político midiático estaria “neutro”, com colete da Defesa Civil. Grande mídia diz combater as fake news da extrema direita. Mas continua alimentando com pautas, imagens etc. as redes bolsonaristas. “Eritrofobia” é termo psiquiátrico dado ao pavor irracional pela cor vermelha… será que os jornalistas corporativos sofrem disso? 

“Gestão moderna e competente, que agrega resultados. Faz diagnóstico dos problemas com base em evidências e dados, e comunica a sociedade, apresenta as propostas de reformas e, com diálogo, negocia sua aprovação”.

Foi assim que a ex economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, em sua coluna no jornal “O Globo” comemorava a “gestão moderna” do governador Eduardo Leite. Incensado pela grande mídia que comemorava o superávit orçamentário do Estado de R$ 3,3 bilhões no ano passado.

Em um vídeo animado, um confiante Eduardo Leite anunciava o processo de concessão à iniciativa privada do Cais Mauá em que enaltecia a derrubada do Muro da Mauá, estrutura que faz parte do sistema de contenção das águas do Guaíba – derrubar para “fazer as pessoas andar circulando livremente sem ter aquele muro…”.

Pois a catástrofe ambiental do Rio Grande Sul derrubou tudo. E está quase desmoronando o legado político do governador. 

Por isso, nesse momento, o jornalismo corporativo está fazendo um esforço hercúleo para salvar o ativo político que é a esperança da mídia hereditária ter finalmente um representante competitivo da direita democrática.

Esse esforço está na relação direta de como William Bonner vem sendo ameaçado e hostilizado diariamente em Porto Alegre, de onde está ancorando o Jornal Nacional – durante anos de jornalismo de guerra a emissora deu visibilidade ao ódio e violência da extrema direita para engrossar o lavajatismo e a onda anti-PT. Nem que fosse ao custo de expor seus jornalistas a essa mesma violência.

Agora, não consegue mais colocar o Brasil profundo de volta às suas profundezas. 

Pânico semiótico

Por isso, salvar Eduardo Leite da enchente passou a ser uma questão existencial: limpar as mãos da lama psíquica com a qual a extrema direita foi moldada, e colocar no lugar uma direita limpinha e democrática.

Esse desespero leva a momentos patéticos, como o pânico com a cor da jaqueta vermelha de Paulo Pimenta do Ministro da Reconstrução do RS empossado por Lula na cerimônia de quarta-feira (15) em São Leopoldo, RS.

A apresentadora da Globo News, Daniela Lima, num esforço de silogismo semiótico (O PT é vermelho/Paulo Pimenta trajava casaco vermelho/logo, ele faz propaganda do PT), tentou demonstrar que Lula e seu ministro estavam com o dress code errado, politizando a catástrofe e, por isso, irritando Eduardo Leite que se manteve de cara amarrada, sem aplaudir. 

Essa foi a introdução da jornalista Daniela Lima para descrever um suposto bastidor de que os tucanos não gostaram da cena:

Em política, gente, a imagem fala muito, eu chamo a sua atenção para o casaco de Paulo Pimenta. Poderia ter usado um tom neutro, um tom que remetesse à Defesa Civil, como faz o governador Eduardo Leite, que está com uma cara de poucos amigos e em nenhum momento aplaude […] estava lá (Paulo Pimenta) com a partidária, com a cor do PT e é criticado por isso”,

Convenhamos: a cara amarrada de Eduardo Leite não era pela cor vermelha da jaqueta de Paulo Pimenta (“pimenta” também tem cor vermelha… vão dizer que a sua indicação foi também por causa desse detalhe cromático subliminar…). 

Estava de cara feia ao sofre uma intervenção federal no seu Estado que ameaça ao seu futuro político – diante do boicote de muitos prefeitos em atrasar o envio de ofícios solicitando aporte financeiro do Governo Federal (tomar moradores como refém para demonstrar um suposto desinteresse do Governo) e a possibilidade de os produtores de arroz estocarem o produto para especular preços, Lula interveio no Estado.

Pequena história do pânico cromático

Esse pânico cromático pela cor vermelha começou nos tempos de jornalismo de guerra promovendo a histeria anti-PT.

 O início de tudo está lá em 2014, quando a professora da PUC/SP especialista em Semiótica, Lucia Santaella, alertou nas redes sociais sobre o perigo subliminar das ciclo faixas pintadas de vermelho em São Paulo.

“Essas faixas não passam da mais descarada propaganda vermelha do PT, encomendadas pelo Diabo em pessoa”, alertou Santaella. Certamente, esse “Diabo em pessoa” era o então prefeito da cidade Fernando Haddad. 

A denúncia de uma eminente autoridade em Semiótica fez o deputado estadual do PSDB, Joseph Jo Raymond Diwanm, a entrar na Justiça Eleitoral para retirar a cor das ciclovias – não obstante o fato de todos saberem que o vermelho é o padrão internacional de sinalização de ciclofaixas. 

Começava a estratégia da grande mídia em dar pernas a não-notícias. Dar relevância e visibilidade ao bestiário político que começou a gestar a retórica da extrema direita.

A ameaça do vermelho que poderia tomar conta da nossa bandeira passou a ser retórica extremista. Quando, por exemplo, extremistas invadiram a Câmara dos Deputados em 2016 pedindo “intervenção militar institucional”. Uma manifestante gravou um vídeo em que denunciava um “projeto nojento” de colocar um símbolo vermelho na bandeira brasileira.

Continue lendo no Cinegnose.

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira - Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.

1 Comentário

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  1. E a XPum poderia dar seguimento a sua habitual flatulência neoliberal e comentar a diferença entre os 3.3 bi que o responsável fiscal economizou derrubando diques, e os não sei quantos bi que a União vai desembolsar na reconstrução da devastação causada por tanta “responsabilidade”. Haja escatologia pra explicar tamanha distopia.

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