Você não concede o que eu conquistei, por Maria Gabriela Saldanha

Enviado por alfeu

Do Festival Marginal

Sempre Fomos Nós – Parte 1: Já começou errado, você não concede o que eu conquistei

#SempreForamElas

Há exatamente um ano, milhares de feministas apoiavam um grupo de mulheres que corajosamenterelataram situações de assédio que lhe foram impostas pela mesma subcelebridade virtual, um professor dito à esquerda, com material sobre feminismo publicado, até então largamente respeitado como formador de opinião. Um dos relatos envolvia uma menor.

Na cena feminista de novembro de 2015, uma amnésia coletiva instala-se sobre as redes sociais: alguns dos apoiadores desse figurão e relativizadores de outras violências de gênero, que permaneceram silenciando mulheres em espaços por eles administrados, participam da campanha #agoraéquesãoelas – na qual feministas, no curso de uma gripe, digo, de uma semana, poderão ocupar os espaços por eles “cedidos”, a fim de que falem sobre os seus temas.

O curto prazo guarda um outro problema: a liquidez dos debates na sociedade da informação, onde a pauta do dia ofusca o sem-prazo da luta contra o sistema. Tais espaços disponibilizados por colunistas famosos estão, em geral, alocados na grande mídia, o que sinaliza uma outra discussão, acerca da divulgação dos espaços midiativistas que já são originalmente ocupados por mulheres como um processo de resistência contra a grande imprensa. Aqui, apresentaremos pontualmente alguns motivos pelos quais devemos ter ressalvas quanto a essa semana de campanha. Ela é tão curta que, de repente, ao final do texto as mulheres já tenham voltado a ser gatas borralheiras. Mas fica a proposta de reflexão para todas as vezes em que queiram fazer parecer que os espaços masculinos nos estão sendo doados. O texto está dividido em partes e publicaremos uma por dia.

#SempreForamElas

PARTE I
Já começou errado. Você não concede o que eu conquistei

1. “Vocês estão sendo duras demais” ou “Será que nunca está bom?”

Inicialmente, vejamos como são desastrosos alguns textos onde os colunistomachos divulgam a campanha, que designam também a cena em que ela surge:

Renan Quinalha – Revista Cult:

“Nesta semana, como forma de amplificar a mobilização feminista em curso e acentuar o protagonismo das mulheres nas lutas políticas de nosso tempo, estas ocuparão o espaço tradicional de homens nas suas colunas, blogs, revistas e outras mídias. Não se trata de mera ‘concessão de migalhas’ ou de ‘apropriação de protagonismo”, como alguns disseram para desqualificar de antemão a campanha. O que se busca não é celebrar a ‘generosidade’ ou ‘sensibilidade’ de homens que cederam um dia seus espaços de privilégio, mas justamente colocar o foco na denúncia e na visibilização das desigualdades que estruturam as relações de gênero em nosso país. E a voz e a representação diminutas das mulheres nos veículos de comunicação é apenas uma das manifestações dessa injustiça estrutural que precisa ser combatida.”

Porque não basta ser homem e ceder o espaço, não é? Tem que ceder rebatendo os argumentos pelos quais as próprias feministas problematizam a situação, já que elas estão sempre erradas ou não têm condições intelectuais de entender a campanha. E, principalmente, é preciso aplicar toda a sua machopedagogia.

 

Deputado Jean Wyllys:

“Desta vez não sou eu, Jean Wyllys, que vai falar aqui. Contudo, de certa forma, também sou. Porque aquelas que vão falar também me representam e eu quero ouvi-las, e quero que vocês as ouçam também. Leiam o texto que segue, que explica o sentido da campanha, da qual faço parte e ajudei a construir, mas cuja iniciativa foi delas.

E aguardem: a partir de amanhã e ao longo de toda essa semana, muitas mulheres falarão aqui na minha página, para todas e todos nós, e eu vou ceder a minha coluna na ‘Carta Capital’ para uma delas. Também decidi que a partir de agora só aceitarei participar de palestras, mesas ou debates com três ou mais pessoas se pelo menos uma delas for mulher, e vou trabalhar para que esse critério seja aplicado como regra pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados nas audiências públicas.”

Bom, gostaríamos de saber se essas palestras, mesas ou debates poderão contar com a presença de mulheres que queiram denunciar episódios de assediadores queridos por midiáticos, se feministas negras poderão criticar programas da TV aberta com títulos que considerarem racistas, se abolicionistas da prostituição serão ridicularizadas questionando o Projeto de Lei Gabriela Leite, se feministas radicais poderão se posicionar contrariamente à hormonização infantil e feministas que já foram silenciadas por assessorias de comunicação de parlamentares teriam espaço nessas mesmas páginas. Ou se para ter espaço é preciso não se distanciar muito do feminismo liberal e pensar exatamente como os homens que “cederam” os espaços.

 

Gregório Duvivier:

“Hoje a Manoela Miklos ocupou a minha coluna na Folha. É o início de uma semana em que mulheres ocuparão o lugar dos homens na mídia. Todo dia, pelo menos uma ocupação diferente. Muita honra ser tão bem ocupado pela Manoela, que foi quem teve essa idéia linda, e que tá só começando. Fiquem atentos à hashtag #AgoraÉQueSãoElas

Uma semana. E hoje já é quinta-feira. Um beijo para quem adivinhar a autoria da pérola “A protagonista da luta é a luta”, em resposta que desmerece o protagonismo de uma feminista negra, aliás, recém-silenciada por meio da derrubada do seu perfil, a Stephanie Ribeiro. Valendo!

 

Enquanto isso, Lola Aronovich, do blog “Escreva, Lola, escreva”, denuncia que vem sendo ameaçada de morte, estupro e desmembramento por homens há mais de quatro anos, tendo sido criado um blog falso em seu nome para difamá-la. “E continuo sem medo”, diz ela, que não recebeu nenhuma palavra de apoio, nenhum gesto de solidariedade desses colunistas do sexo masculino, durante todo esse tempo. Enquanto feministas só têm visibilidade por meio de espaços masculinos, seus espaços originais estão sendo perseguidos e violados.

Não estamos sendo duras demais, mas tudo bem se estivermos. Não estamos aqui para cumprir o velho estereótipo de docilidade feminina, mas os ideais de autonomia e libertação. E, não, nada está bom. O espaço para que a mulher fale sobre a sua condição é insubstituível, não está ao cálculo dos discursos mais ou menos acertados masculinos. O protagonismo da nossa luta é nosso porque o privilégio cega, de forma que quando apontarmos as falhas e o desserviço das ações políticas dos homens, devemos ter a nossa visão respeitada. A prática de subestimar a inteligência da mulher, seja determinando quando ela pode ou não se sentir oprimida, seja explicando que o seu machismo não foi machismo, seja desenhando o que julga que ela não terá capacidade de entender sozinha, recebeu um nome junto às feministas norteamericanas:mansplaining.

Por outro lado, os argumentos aqui levantados não desmoronam à simples afirmação de que se trata de uma iniciativa de mulheres, por dois motivos: (i) já foi entregue, por meio da fala do Deputado Jean Wyllys, que a construção não foi exclusiva de mulheres, isto é, o protagonismo feminino é precarizado desde o surgimento da campanha; (ii) mesmo àquelas a quem a alavanca da campanha é atribuída praticam um feminismo liberal. Sabemos que os discursos liberais são descomprometidos com a pesquisa sobre os mecanismos de dominação do patriarcado; que são facilmente sequestrados pelas políticas de orgasmo e que se mostram desinteressados de adentrar as pautas fundamentais para a dignidade das mulheres menos privilegiadas.

 

2. O problema da narrativa de “concessão” dos espaços políticos masculinos

Nada de novo no front. Refresca-nos a memória a companheira Giovanna Dealtry, ao dizer que: “Na nossa história oficial os brancos também ‘concederam’ a abolição aos escravizados. Na nossa história oficial o Brasil foi ‘descoberto’. Toda disputa política passa pela palavra”.

Pois temos que a palavra “concessão”, sinônimo de “consentimento”, esta tão comumente esvaziada para nos violentar, agora surge com uma roupagem interessante para os machos de esquerda: eles concederam seus púlpitos de pelúcia para a nossa fala – e a nossa luta e as nossas angústias e a nossa visibilidade – num bom-mocismo inédito, que as jornadas de junho e seus vinagres jamais poderiam imaginar.

Cabe ressaltar que a campanha tem o formidável prazo para virar abóbora: uma semaninha. Ora, tudo isso ocorre justamente na semana posterior à de maior esplendor para os debates de gênero do ano. Em uma semana:

  • Discutimos os milhares de comentários pedófilos contra Valentina (e todas nós) no Twitter;
  • A hashtag #primeiroassédio desencadeou mais de 82 mil relatos, compreendendo um feito inédito: foi a primeira vez que mulheres do Brasil inteiro conversaram abertamente sobre seus abusos de infância. Dos dados alarmantes, extraímos a média de 9,7 anos entre as vítimas, num retrato assustador da cultura da pedofilia, em um país onde 70% dos estupros são cometidos contra menores de 13 anos;
  • O Projeto de Lei 5069/2013, de autoria do Eduardo Cunha, levou milhares de feministas às ruas em algumas capitais, em uma sucessão de atos que vem consumando a Primavera Feminista.
  • Celebramos as esperanças de amplificação dos debates de gênero nas escolas, com a citação do parágrafo mais famoso do livro “O Segundo Sexo”, isto é, de Simone de Beauvoir em seu contexto, e com a temática da redação do Enem, qual seja, “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.

Ufa, que semana! Tudo conflui para a grande pergunta: que mudança significativa pode haver em uma semana, para mulheres que concretizaram tudo isso sozinhas, a partir da benevolência de esquerdistas famosos (e comumente equivocados, quando se dispõem a falar sobre feminismo)?

Para quem sabe que a luta é diária, quase nada muda.

No “próximo capítulo”: Por um feminismo que não negocie com o patriarcado e que não divulgue a mídia patriarcal pensando se divulgar.

http://www.festivalmarginal.com.br/inspiracao/sempre-fomos-nos-parte-1-ja-comecou-errado-voce-nao-concede-o-que-eu-conquistei/

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Sempre Fomos Nós – Parte 2: Por um feminismo que não negocie com o patriarcado

Sempre Fomos Nós – Parte 3: Não se promove a libertação feminina com semana detox de colunistomacho

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