Um assassinato de reputação de 2003, por Luis Nassif

Minha caçula tem um amigo cuja mãe lhe conta que, anos atras, defendi uma amiga dela de uma acusação injusta.

Sempre julguei que o papel do jornalismo era investir contra os abusos de poder – fossem de quem fossem. A partir dos anos 90, os abusos vinham de duas fontes complementares: a imprensa e o sistema judicial, delegados, procuradores e juizes justiceiros.

Em todo meu período de Folha me dediquei à denúncia desses abusos. E havia uma regra de ouro em todos: mostre-me um Catão que lhe mostrarei um oportunista. Foi assim com inúmeros parlamentares defensores dos homens de bem, juízes que abusavam de seus poderes em defesa da verdade dos homens de bem, delegados criando narrativas para se promover e repórteres acatando as fantasias e crucificando inocentes para garantir a manchete.

Foi assim nesse caso.

Aqui, a minha matéria em que relatava o episódio, de 30 de outubro de 2003

O sequestro na Santa Casa

No primeiro semestre, duas mulheres apareceram na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo atrás de informações sobre adoção de crianças. Foram atendidas pela assistente social Bernadete Pires Pacheco, 37 anos, 11 de Santa Casa.

No mês de junho as mesmas mulheres entraram no hospital com uniforme de enfermeira. No corredor, encontraram uma menina de 15 anos com uma filha no colo. A menina tinha acabado de chegar de um abrigo para menores infratores, acompanhada da assistente social do abrigo, para um atendimento de emergência. Portanto ninguém da Santa Casa poderia saber previamente que estaria lá naquele momento. As moças viram a menor, pediram à criança que fizesse um exame de raio-X e desapareceram. O sequestro foi às 9h45. Naquela hora, Bernadete estava fora da Santa Casa, em atendimento médico.

Meses de investigações depois e após um volumoso inquérito de mais de 300 páginas, o delegado Fernando Gomes, da 77ª DP, chegou às sequestradoras e, por meio delas, à família que ficou com a criança -uma ex-patroa das moças, que queria ser mãe.

Detidas, as sequestradoras afirmaram que Bernadete as tinha orientado sobre como proceder no sequestro. Nenhuma prova, nenhuma evidência, provavelmente apenas um caso típico de suspeito que, preso, acha que pode reduzir a culpa dividindo responsabilidades com terceiros.

Foi o que bastou para o delegado Gomes incrementar sua história. Na noite de sexta-feira, duas semanas atrás, mandou um camburão à casa de Bernadete a fim de conduzi-la à delegacia para reconhecimento das suspeitas. A assistente social foi, desarmada, acompanhada apenas de seu pai, de 67 anos.

Lá, sem orientação do advogado, a moça ingenuamente caiu na armadilha de Gomes. O delegado indagou se ela reconhecia as sequestradoras. Bernadete disse que sim, que se lembrava delas no hospital pedindo informações sobre adoção. Foi o que bastou para sair direto dali para a cela. Não havia nenhuma evidência a mais contra ela, nenhum dado, como não houve depois que vasculharam sua conta telefônica e bancária.

O delegado instruiu o inquérito, foi pessoalmente ao juiz pedir a prisão temporária de cinco dias, renovada por mais cinco. Depois de dez dias, prisão preventiva por mais 30 dias em uma cela da 77ª DP. Há 12 dias a moça está presa.

Aí começou o grande show da mídia, com o delegado podendo exibir sua presa. Foi programada uma reconstituição do crime. Mesmo não estando presente na Santa Casa no momento do sequestro, Bernadete foi levada para lá, e o apresentador José Luiz Datena pode reverberar e sugerir que talvez ela tivesse participado de outros sequestros.

A Santa Casa inteira se insurgiu em defesa da sua funcionária. Foi feito abaixo-assinado com todos os médicos e funcionários avalizando o seu caráter. A moça continua presa, aguardando agora o julgamento do pedido de habeas corpus.

A moça está presa. Confirmada a sua inocência, não se venha com essa história de que o Estado é culpado e deve pagar. Se a moça for de fato inocente, o culpado tem nome e RG e é delegado titular da 77 DP.

Aqui, uma pesquisa que fiz agora, com o nome do delegado. A matéria é de 7 de junho de 2008, do grande André Caramante, outro que incomodava o status quo.

Outro delegado é preso no caso Detran

Fernando José Gomes é acusado de integrar a quadrilha presa na Grande SP sob acusação de vender carteiras de habilitação

ANDRÉ CARAMANTE

DA REPORTAGEM LOCAL

O delegado Fernando José Gomes, da Polícia Civil de São Paulo, foi preso ontem, dentro da delegacia de Ferraz de Vasconcelos (Grande SP), sob a acusação de integrar a quadrilha acusada pela Promotoria e pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) de vender cerca de 1.300 CNHs (carteira nacional de habilitação) nos últimos dois anos. É o segundo delegado preso sob essa acusação.

Além da prisão de Gomes, 14 dos delegados chefes de Ciretrans (Circunscrição Regional de Trânsito) na região da Grande São Paulo (dez) e do litoral (quatro) foram afastados.

Com os afastamentos de três delegados da corregedoria do Detran-SP na última quarta, já são 17 os delegados atingidos pela Operação Carta Branca, deflagrada por Gaerco (Grupo de Atuação Especial Regional para Prevenção e Repressão ao Crime Organizado), Ministério Público de Guarulhos e PRF (Polícia Rodoviária Federal).

O também delegado Juarez Pereira Campos, outro de Ferraz de Vasconcelos, foi um dos 19 presos na operação da última terça-feira. Campos é acusado de liderar o esquema de venda de CNHs. Cada habilitação custava, em média, entre R$ 1.300 e R$ 1.800, de acordo com o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira.

De acordo com o promotor, o nome do delegado Gomes pode ser o que consta na contabilidade de pagamento de propina da quadrilha que usava a Ciretran de Ferraz de Vasconcelos como base. A prisão de Gomes é temporária por cinco dias.

Agenda

Em uma agenda apreendida na casa do investigador da Polícia Civil Aparecido da Silva Santos, o Cido, também preso terça pela PRF, está escrito, entre outros nomes: “Dr. Fernando – R$ 4.000”. O delegado Gomes havia sido afastado de suas funções na chefia da Ciretran de Ferraz em abril.

O responsável pela saída de Gomes da Ciretran foi Elson Sayão, delegado chefe do Demacro (Departamento de Polícia Judiciária da Macro SP), órgão da Polícia Civil que cuida da corporação em 38 dos 39 municípios que formam, ao lado da capital, a Grande São Paulo.

Ligado diretamente ao delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Maurício José Lemos Freire, foi Sayão quem, em 22 de abril, avisou o então delegado seccional da região de Ferraz, Carlos José Ramos da Silva, o Casé, sobre a apreensão pela PRF de 200 CNHs emitidas na região dele.

Na última quarta, Freire, ao ser questionado pela Folha, não quis falar sobre o aviso dado por Sayão a Casé, que foi afastado no dia 21 de maio.

Corregedoria
Sete dias após Casé, então chefe da Polícia Civil na região de Ferraz, receber o alerta da chefia da corporação sobre a apreensão das 200 carteiras, a corregedoria do Detran-SP foi à Ciretran de Ferraz, mas, segundo a Promotoria, nada foi feito contra o esquema.

Interceptações telefônicas mostram que, em 29 de abril, membros da corregedoria do Detran-SP receberam dinheiro de alguns dos 19 presos na terça. As conversas envolvem donos de auto-escolas e um funcionário da Ciretran de Ferraz.

Nas gravações telefônicas autorizadas pela Justiça, eles falam em arrumar dinheiro vivo (R$ 10 mil por auto-escola no esquema) “porque a corregedoria veio para fritar, mas que uma boa conversa resolveria”.

Outro lado

A Folha solicitou ontem entrevistas com o secretário da Segurança da gestão José Serra (PSDB), Ronaldo Marzagão, e também com o delegado-geral da Polícia Civil, mas nenhum dos dois atendeu ao pedido. Esses pedidos estão sendo feitos desde terça-feira.

A reportagem também pediu que as assessorias dos dois órgãos viabilizassem uma entrevista com o delegado preso ontem, mas tanto a Segurança Pública quanto a Delegacia Geral não se manifestaram sobre a solicitação.

 

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