Anibal Teixeira, memória do governo JK e da redemocratização, por Luis Nassif

Um personagem intrigante que conheci, testemunha da história política brasileira nos anos 60 a 80 foi Anibal Teixeira

Um personagem intrigante que conheci, testemunha da história política brasileira nos anos 60 a 80 foi Anibal Teixeira, advogado pela Universidade Nacional, economista e estreitamente ligado a Juscelino Kubitscheck. Foi o criador do histórico INDI (Instituto de Desenvolvimento Industrial) de Minas Gerais, de onde saíram os principais planos de desenvolvimento do estado.

Consegui o depoimento abaixo no início dos anos 2.000.

Sua entrada na vida pública se deveu ao modelo de coalizão político brasileiro, comum a todas as democracias representativas. Candidato ao governo do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola montou um acordo com Plinio Salgado, do Partido Integralista. Como compensação, Plinio ganhou o Instituto Nacional de Imigração e Colonização, e Anibal foi chamado para estruturar o setor de migração externa.

Anibal era presidente da União Brasileira dos Estudantes, em uma coalizão de direita, espécie de Partido Novo da época, que tinha Mário Garnero, em São Paulo, como presidente do CÁ 22 de agosto, da PUC, e Modesto Justino de Oliveira, em Minas Gerais.

Não há melhor exemplo dos avanços da democracia em um episódio relatado por Anibal. O nordeste enfrentava a grande seca de 1957 e 1958. Os bispos do nordeste se reuniram em Campina Grande e Natal a apresentaram uma série de propostas ao governo. O líder do grupo era Dom Helder Câmara. Anibal, filho político de Plinio Salgado, foi incumbido de implantar os projetos sugeridos pelos bispos.

Havia princípios de reforma agrária, postos de migração e atendimento. Foi instituído o Farnel de Viagem, pacote com dois sanduíches por pessoa em vários pontos.

Foi presidente das comissões de Coordenação e Operações do Nordeste para Secas e de Socorro às Vítimas das Inundações do Vale do Jequitinhonha.

Depois de uma bem-sucedida experiência no INC, Anibal foi para o GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), instituído por JK dentro do Plano de Metas, trabalhando sob as ordens do Almirante Lúcio Meira.

Aproveitando sua experiência anterior, Anibal publicou ensaio sobre a mão-de-obra na indústria automobilística, incluindo nas analises os fluxos migratórios.

Como parte dos esforços de treinamento da nova mão de obra, foram enviados técnicos para o SENAI, em Milão, para assimilar as técnicas de treinamento.

Anibal solicitou a Meira um diplomata para presidir a Comissão de Seleção dos técnicos. Foi indicado um jovem diplomata, Azeredo da Silveira, o Silveirinha, por gostar de economia. Na década seguinte, Silveirinha seria um dos responsáveis pela reformulação da diplomacia brasileira.

Os 50 anos em 5 para a agricultura

Anibal acabou entrando para a político, sendo eleito deputado estadual em 1962. No mesmo ano começou a trabalhar na campanha de JK, apresentado por Modesto e Garnero.
Quando acabou o governo JK, Geraldo Vasconcellos e Augusto Frederico Schmidt, insistiram para que Anibal preparasse o Plano da Agricultura, que seria o carro chefe da campanha de JK à presidência nas eleições de 1965.

O Plano definia 14 metas agrícolas. JK se empolgou com a campanha devido ao entusiasmo de um jovem líder estudantil que se aproximou de sua campanha, Mário Garnero. Julgou que, Garnero – que era casado com uma herdeira do grupo Monteiro Aranha – como representante da nova estrutura industrial, lhe permitiria o rompimento com a plutocracia paulista. Afinal, foi o Plano de Metas de JK que permitiu o desenvolvimento não apenas da indústria automobilústica mas da mecânica pesada.

Garnero bolou o slogan da próxima campanha. O símbolo seria um tratorando e o slogan seria “Cinco anos de agricultura para cinquenta de fartura”, parodiando o 50 anos em 5 da primeira campanha presidencial de JK. A ideia seria tirar de JK a imagem de adversário da agricultura.

Na montagem do plano, Anibal foi várias vezes à Luiz de Queiroz, principal centro de pesquisa agrícola de São Paulo.

A campanha de JK tinha dois organizadores. Em São Paulo, Garnero. No Rio, Augusto Frederico Schmidt, que inclusive colocava seu Mercedes à disposição de Anibal.

Nas reuniões, discutia-se produção agrícola, problemas de safra e entressafra e até modalidades de alimento. Schmidt tinha know how de desidratação para alimento. Fez jantar para apresentar ao JK fiapinhos de carne.

Outra figura relevante da campanha foi Israel Pinheiro, que era um político muito intuitivo. Percebeu que a agricultura tinha limitações em Minas por conta da topografia. O cerrado tinha grande vantagem de ser plano. Mas havia o desafio da correção do solo. Israel montou um projeto piloto para correção do solo em Felizlândia, com estações experimentais para desenvolvimento do cerrado.

Anibal juntou todas essas ideias e montou o plano de metas para a agricultura. JK ficou tão encantado que acabou comprando uma fazendinha em Brasília.

Havia desafios políticos grandes pela frente. JK queria o apoio do PTB de todo jeito. Para tanto, enfrentava alguns conflitos com o PSD, especialmente no tema reforma agrária.

O candidato imbatível para 1965

As explicações para a cassação de JK e da campanha incessante apontando-o como corrupto, estão nas pesquisas de opinião de 1965, dando-o como favorito às eleições. E, também, um episódio inesquecível. JK assistiu a uma missa na Catedral da Sé e, depois, iria palestrar na Associação Comercial, na rua Boa Vista. Foi transportado nos braços do povo da Catedral à sede da Associação Comercial.
Logo depois, foi cassado.

Antes disso, quando começou a campanha de JK, ainda em 1963, o presidente da Varig, Rubem Berta, colocou um DC3 à disposição do grupo. JK embarcou para o Rio Grande do Sul, para obter o apoio do PTB. Mas os adversários trataram de preparar sua cama, especialmente o governador Ildo Meneghetti. Em Pelotas não havia dez pessoas para recebê-los. O ambiente era completamente frio. Mas JK, o homem da corajosa campanha de 1956, não se deu por vencido:

– Vou virar isso aqui,.

Desfilou nas ruas centrais, comeu muito pêssego em passa, tomou chimarrão (esqueci de perguntar qual a relação do pêssego em passa com o gauchismo).

Na volta, a caminho do aeroporto a comitiva foi acompanhada por 500 carros e 4 mil pessoas.

O golpe de 64 e a Frente Ampla

Quando veio o golpe de 64, Anibal estava em plena militância de direita e acabou se aproximando de Golbery do Couto e Silva e com o general Guedes.

Anibal gostava muito de geopolítica e conversava bastante com Golbery em seu sítio em Jacarepaguá.

Segundo Anibal, o discurso da direita, na época, era de enaltecimento a Lee Oswald (o assassino de John Kennedy) e de apologia à caneta de Castello Branco, que estaria limpando o Brasil.

Quando começou a perseguição a JK, Anibal fez um pronunciamento na Assembleia Legislativa defendendo o ex-presidente. Não foi cassado graças à interferência de Golbery.

A cassação veio depois, quando se envolveu na montagem da Frente Ampla, a aliança entre políticos cassados, incluindo JK, Jango e o próprio Carlos Lacerda, para restaurar a democracia. A Frente foi planejada por Jango e recebida com desconfiança por JK.

Foi incumbido por JK de atrair Lacerda para a Frente. JK disse:

– Anibal, você que tem ligações com militares, tem diálogo mais fácil com Lacerda. O Geraldo te leva no sítio do Lacerda, Você vai conversar com ele para não entrar muito nesse negócio do Jango, se não a Frente Ampla vai ter muita resistência dos militares.

Lacerda concordou com JK. Tinha argumentação muito dialética, constatou Anibal, Disse que não iria encontrar com Jango. às duas da manhã. Anibal voltou para Rio com convicção de que Lacerda não teria contato com Jango. No dia seguinte, às 9 da manhã teve reunião na casa do JK, na qual contou os resultado da visita a Lacerda.

JK chamou na sala o coronel Dilermando, da PM, seu oficial de gabinete, que trouxe outras informações. Lacerda viajou às 8 da manhã para Montevidéu.

– Tomei um licor com ele, e ele já tinha passaporte e tudo para embarcar para Montevidéu, relatou Dilermando.

Lacerda temia enfrentar JK nas eleições, Seu maior receio era de que JK conseguisse o apoio de Jango. Por isso queria evitar sua aproximação.

Tancredo, FHC e o Porto de Santos

Foi Tancredo Neves que levou a Anibal a notícia da cassação de JK. A partir daí ficaram amigos. Tancredo emprestou o apartamento no edifício Niemayer para Anibal morar, que acabou comprando o apartamento do amigo.

Quando a redemocratização se tornou mais próxima, Anibal foi incumbido de montar um trabalho de contra-informaçao para Tancredo, sobre quem poderia ajudar na volta da democracia. Tinha como auxiliares Aecio Neves e Rosana Sarney. Diariamente entregava relatórios com informações para o QG de Tancredo.

Tinha escritório na Asa Norte, em Brasilia, e Aecio passava toda manhã para pegar o relatório e levar para o tio.

Na campanha, Tancredo colocou Anibal na sala ao lado, devido ao fato de ser muito organizado e anotar a relação de quem pediu o que para quem. Era um desafio organizar as promessas de Tancredo. Só o BNDES, ele havia prometido para mais de dez pessoas.

Segundo Anibal, Fernando Henrique Cardoso pediu a Delegacia da Receita Federal, em São Paulo, a Diretoria dos Portos, em Santos, e a diretoria da Cosipa (o depoimento de Anibal foi me prestado no início dos anos 2.000).

No governo Sarney, implantou o Programa de Distribuição de Leite, embrião do vale gás e de outros programas de assistência social direta, que resultariam mais tarde no Bolsa Família. Durante curto período, substituiu João Sayad, no Ministério do Planejamento. Mais tarde, como deputado, foi denunciado por desvio de recursos à cidade de Valença.

Faleceu em agosto de 2015.

1 comentário

  1. É um tolo aquele que pensa poder enfrentar SOZINHO os militares entreguistas associados à nata da elite econômica escravagista.
    Se atualmente juntar TODOS os democratas (liberais e socialistas), ainda assim a parada será duríssima. Observar que, no passado, os líderes da desejada Frente Ampla (JK, Jango, Lacerda) foram todos assassinados (há documentos e testemunhos).

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