Nos tempos de Moreira Salles: Orosimbo Roxo Loureiro, o empreendedor trágico

O personagem Orosimbo Roxo Loureiro, empreendedor imobiliário e banqueiro, criador do Canguru Mirim, a primeira caderneta de poupança do país. Seus empreendimentos imobiliários fizeram época em São Paulo

Um dos personagens mais interessantes, no mundo de Walther Moreira Salles, foi o empreendedor imobiliário e banqueiro Orosimbo Roxo Loureiro, criador do Canguru Mirim, a primeira caderneta de poupança do país.

No livro, ele entra especificamente no projeto de capitalização da Refinaria União, que terminou malsucedida por um erro que quase liquidou com o Baú de Silvio Santos: vendiam-se os planos a prazo e a primeira parcela remunerava os vendedores. Devido a isso, não havia nenhum cuidado do vendedor em analisar a capacidade de pagamento futura do comprador.

Mas vamos pegar do começo.

Nascido em 1033, em 1937 fundou a empresa de transportes Auto-Viação, ligando São Paulo ao Rio de Janeiro. Depois, entrou em negócios imobiliários.

Seus empreendimentos imobiliários fizeram época em São Paulo. Era amigo de Di Cavalcanti, Oscar Niemayer e trazia ideias ousadas para a época, como os planos condomínio. Era um plano em que se pagava o preço de custo, mais um percentual fixo de remuneração do empreendedor.

Figura 1Nações Unidas, Copan e Clube dos 500

O sistema se tornou febre em São Paulo. E Roxo Loureiro passou a lançar empreendimento após empreendimento, adquirindo casas velhas no centro de São Paulo e montando grandes complexos imobiliários Lançou o Copan, o edifício das Nações Unidas, um imenso conjunto na Brigadeiro Faria Lima com Paulista.  Passou a administrar uma enorme liquidez, mas criando um passivo pela frente: a entrega futura dos imóveis.

O BNI e o Canguru Mirim

Para administrar o caixa, decidiu abrir um banco. Com seu irmão Loureiro Junior – o principal financiador de Plinio Salgado, no Partido Integralista – montou o Banco Nacional Imobiliário, ou banco de sobreloja, como ironizava Teodoro Quartim Barbosa, do Banco do Commércio e Indústria.

Antes de se meter em sua nova aventura, sentiu necessidade de ter um bom gestor ao seu lado. Foi atrás de um jovem esperto, de olhos vivos, que ele conhecera na Secretaria da Fazenda, quando comparecia lá para liberar suas obras. Era Otávio Frias de Oliveira, mas que só desistiu do emprego após a queda de Ademar de Barros.

O BNI foi uma revolução no sistema bancário. Dominando o inglês, Roxo Loureiro e Frias foram atrás dos conselhos do mais revolucionário banqueiro da época, Mário Giannini, que transformou o Bank of Itália, da Califórnia, no Bank of America, o mais inovador dos bancos do seu tempo.

Amadeo e Mario Giannini

Filho de Amadeo Giannini, o patriarca da família, Mario revolucionou o sistema bancário norte-americano estendendo os serviços para a classe média. Foi também pioneira na estruturação das holdings. Graças a um dos sócios, Orra E. Monette, o banco passou a ter um sistema centralizado de processamento, permitindo ampliar seu espaço de atuação. Até então, os bancos estavam restritos a uma única cidade ou região.

O Bank of America foi financiador central das indústrias cinematográficas e de vinhos da Califórnia. Foi o banqueiro que forneceu a Walt Disney os fundos para produzir a Branca de Neve, primeira longa metragem de desenhos.

Passaram a se corresponde com Gianini. Um dia, Roxo Loureiro chegou esbaforido no banco e falou para Frias:

– Frias, corre aqui. Temos duas passagens de avião para irmos aos Estados Unidos. Quem mandou foi Mário Gianini.

Chegaram ao escritório do banco em Nova York. Na portaria informaram que tinham ido conversar com Mário Gianini. Quase não conseguiram entrar. Quando a portaria ligou para a secretária de Gianini, imediatamente foram autorizados a subir.

Chegaram na sala der Giannini que, em tudo, parecia com o estilo italiano do Conde Matarazzo. Havia a mesa de Giannini e nenhuma cadeira para os visitantes. Eram atendidos de pé.

Giannini foi direto ao ponto. Dirigiu-se a Roxo Loureiro e lhe disse:

– Me fale do Brasil que você contou nas cartas.

Os dois amigos começaram a descrever o país. Gianini interrompeu e mandou a secretária trazer cadeiras.

– Já vi que nossa conversa vai longe.

Saíram da reunião e foram a Wall Street conversar com Mr. Schulbaker, o guru dos underweritings do J.P.Morgan, o banco que revolucionou a prática no século 19.

De volta ao Brasil, o BNI lançou a poupança Canguru Mirim, organizou a venda de alguns lançamentos de ações e foi convidada para o maior desafio de sua breve existência: montar o sistema de venda de ações para a Refinaria União, da primeira leva de refinarias brasileiras lançadas pelo Conselho Nacional de Petróleo.

O banco cresce

O BNO passou a abrir agências em vários bairros, mais de trinta. Incorporou dois bancos. Rompeu com o padrão anterior, de haver agências só no centro de São Paulo. Lançou a Canguru Mirim, caderneta de poupança. E entrou no mercado de underwritings.

CANGURUMIRIM
Um cruzeiro, dois cruzeiros, papai vai dar pra mim. Vou guardar o meu dinheiro é no Canguru mirim. Caderneta de Poupança do Canguru Mirim. Com a garantia da Organização Orosimbo Roxo Loureiro.

Roxo Loureiro estava no seu escritório, junto com Frias e Armando Simoni Pereira, quando recebeu um telefonema de Otávio Guinle, pedindo que fosse para o Rio de Janeiro apresentar o plano de capitalização da Refinaria União.

Pegaram o primeiro DC3 e foram os três para o Rio. Chegando no Copacabana Palace, ficaram aguardando os demais participantes da reunião. Para sua surpresa, entrou Otávio Guinle junto com David Rockefeller.

Fizeram a apresentação e encararam o ceticismo de Rockefeller.

– Vocês estão lidando com aventureiros.

Guinle respondeu pelo grupo:

– Aqui somos aventureiros sim, porque temos tudo por construir. Somos aventureiros igual ao seu avô.

O livro descreve em detalhes a operação e as razões do seu fracasso. Mas não foi o que determinou a quebra do BNI. Primeiro, misturaram caixas, da construtora e do banco. Depois, como me disse Frias, Roxo Loureiro meteu-se em política, inclusive como forma de fugir do cerco dos políticos tradicionais. Em 1954 foi eleito deputado federal.

Enfrentou problemas de liquidez. Em vez de acudir, Octávio Gouvêa de Bulhões, presidente da Sumoc (Superintendência de Moeda e Crédito) decretou seu fim, com uma entrevista infeliz a uma rádio paulista – segundo avaliação  do próprio Moreira Salles – que provocou uma corrida ao banco.

Imediatamente, os mutuários dos projetos imobiliários suspenderam o pagamento. Durante um dia, Frias ficou na agência central, trazendo dinheiro de todos os cantos para tentar segurar o banco. Até que o diretor comercial, Carlos Caldeira foi mais realista:

– Feche as portas, não deixe ninguém mais entrar e deixe de acabar com o patrimônio do banco: não tem mais saída.

O banco quebrou. Roxo Loureiro negociou seu patrimônio com o Banco Brasileiro de Descontos.

Frias aproveitou a experiência acumulada com underwritings e recomeçou a vida montando várias operações, que lhe permitiram se capitalizar para, posteriormente, adquirir a Folha.

O fim de Roxo Loureiro

Com a venda do BNI, Roxo Loureiro ficou apenas com o Clube dos 500, um enorme projeto imobiliário no quilômetro 500 da Via Dutra.

Amador Aguiar sempre passava por lá para ir a Itajubá. Em uma das visitas, achou o amigo muito triste.

– Loureiro, você é muito ativo, tem muitas ideias. tenho o dever de te tirar daqui e voltar para São Paulo. Vamos para São Paulo, você gosta de turismo, vamos montar a Companhia de Hoteis Bradesco.

Na época, Delfim Neto criar um incentivo fiscal que permitia investir em turismo com 6% do Imposto de Renda.

Roxo Loureiro achou a ideia interessante. Sempre pensou que futuro do Brasil era no turismo

– Eu queria que você entrasse com seu hotel, continuou Amador.

Estimou-se o valor do Clube dos 500 em três  milhões de cruzeiros. Amador propôs pagar 1 milhão em dinheiro e 2 milhões em ações da Companhia de Hotéis Bradesco. Loureiro mantinha uma corretora e uma distribuidora de valores. Reuniu os filhos no Clube dos 500 e abriu o coração.

– Eu estou enterrado aqui, preciso ir para São Paulo, sua mãe brigando comigo porque não quer ir.

Os filhos pediram para explicar melhor a história

– Papai, você sempre falou que Amador se aproveitou da sua situação.

Na verdade, Roxo Loureiro negociou muito mal o BNI e o Copan. Em uma das conversas com Amador Aguiar, anos depois, desabafou sobre o acordo firmado. Amador abriu o jogo:
– Se você tivesse pedido cem apartamento do Copan, eu teria concordado. Mas você não pediu nada, só o Clube dos 500.

O problema é que não pediu.

Ouvir os filhos era apenas uma formalidade. No sistema patriarcal da família, o patriarca decidiu, decidido está. Roxo Loureiro passou a trabalhar no Escritório Central, junto com Alcides Tápias.

No início, a empresa cresceu. Comprou terrenos em São José dos Campos, Ribeirão Preto, construiu em Nova Odessa.

No meio do caminho, no entanto, o Banco Central mudou as regras. E obrigou a transferência dos recursos para o Fundo da Embratur, cujo presidente era Said Farhat.

Toda a dinheirama aplicada em turismo, de empresas como Villares, Bradesco, Unibanco, foi para o fundo da Embratur, que já tinha direcionamento político, para Othon Bezerra de Mello, da Rede Othon, e José Tjurs, do Hotel Nacional de Brasília.

Ainda tentou conversar com Laudo Natel, egresso do Bradesco e governador de São Paulo. Mas não conseguiu reverter a decisão do governo.

Passado um tempo, Amador Aguiar chamou Roxo Loureiro na Cidade de Deus. Disse que a pressão de Laudo Natel em cima da Embratur tinha sido mal recebida pelo governo. E isso expunha o Bradesco a retaliações.

– Negócio seguinte, vamos parar com essa companhia. Não tem jeito. Você pediu para o Laudo ir lá, ele fez pressão e recebemos série de informações que, por represália, eles vão pressionar o Bradesco.

Roxo Loureiro tinha 1,5 milhão de ações da Bradesco Turismo que, dentro de pouco tempo, não iriam falar nada. Procurou Alcides Tapias e conseguiu trocar por certificados de depósitos bancários.

Quando vieram os planos econômicos, o dinheiro virou pó. Ficou sem dinheiro até para pagar condomínio no apartamento de Higienópolis, onde continuava morando.

Dali para frente, ficou sonhando. Imaginava que iria ao Bradesco devolver os certificados de depósitos para Amador, que lhe devolveria o Clube dos 500.

– Isso eu não posso fazer, porque isso aqui é uma empresa. fizemos negócio, negócio feito

Orosimbo morreu na mesa de reuniões, na frente de Amador.

PS – O artigo foi escrito com base em entrevistas com Orosimbo Roxo Loureiro Frias, Carlos Caldeira (nos anos 80), Octávio Frias de Oliveira e Walther Moreira Salles.

2 comentários

  1. ERRATA:Onde diz “um imenso conjunto na esquina da avenida Faria Lima com a Paulista”, deveria ser Brigadeiro Luís Antônio, Luís a Faria Lima não cruza a Paulista!

  2. Muito boa essa história de “grandes empreendedores nacionais” que faliram, levando consigo o dinheiro e os sonhos de milhares de brasileiros incautos que investiram em ilusões promovidas por velhacos, que não foram molestados pela justiça da época, como ainda acontece no Brasil da atualidade.

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