Bar vende cerveja e oferece aulas, por Jorge Henrique Bastos

Tudo começou em dezembro de 2018, quando Sócrates Magno Torres, educador social e roteirista, frequentador do bar, resolveu desafiar o dono a instalar uma lousa para ajudar nas típicas discussões que animam as mesas e o balcão.

Professor Ivan Cotrim, da Universidade Mackenzie e do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA), dá aula sobre O capitalismo brasileiro: a autocracia na via colonial.

Bar vende cerveja e oferece aulas

por Jorge Henrique Bastos

A rua Cesário Mota é uma artéria que começa na rua da Consolação, passa pela tradicional Biblioteca Monteiro Lobato, se estende pelas traseiras da Santa Casa de Misericórdia e termina na Jaguaribe. A rua está encravada numa região de boemia histórica, entre a Vila Buarque, a Praça Roosevelt, e bem próxima do airoso bairro de Higienópolis.

É aí, no número 504, entre as paredes amarelas, a fumaça de cigarros e os goles de cerveja, que um grupo de amigos criou uma iniciativa à beira de completar um ano: a Universidade Livre do Bar do Mauro, a UniMauro.

Tudo começou em dezembro de 2018, quando Sócrates Magno Torres, educador social e roteirista, frequentador do bar, resolveu desafiar o dono a instalar uma lousa para ajudar nas típicas discussões que animam as mesas e o balcão. E o desafio foi aceito.

Mauro Moura de Carvalho, 59, está neste local há 20 anos. “Quando vim para cá, o ambiente da redondeza era pesado. Havia muita droga, traficante. Isso mudou nos últimos tempos”. Pouco depois de se estabelecer, assistiu uma mudança gradual, que as políticas de cotas dos governos Lula e Dilma explicam: “Nessa época, começaram a aparecer estudantes. Pessoal bolsista do Mackenzie que não tinha dinheiro pra ficar nos botequins mais caros da rua Maria Antônia, desciam até essas bandas”, explica.

O dono do bar aceitou o desafio de imediato. Arranjaram um pedreiro para efetuar a obra na parede à direita de quem entra, e as aulas começaram. Não havia nenhuma pretensão, senão estimular a discussão que já pululava entre as mesas. Conforme diz Sócrates Magno: “O que caracteriza essa iniciativa é a humildade e a despretensão. Estamos numa região perto da USP da Maria Antônia, da Escola de Sociologia e Política (FESP), da Escola da Cidade”.

Escolheram uma data simbólica para inaugurar a lousa, dia 13 de dezembro de 2018, quando o AI-5 completava meio século. E assim foi. A primeira aula reuniu o público típico que frequenta o bar, e a receptividade foi positiva. “Não pensávamos em criar um calendário, nem ter outras aulas. Mas começou a surgir um pessoal que também frequenta o bar e mostraram interesse em dar aulas. As pessoas começaram a propor temas. Quando vimos, um ano se passou”.

Desde então, quase sempre às quintas, a UniMauro esteve com a agenda preenchida. Os temas são tão diversos como os frequentadores do bar, que mistura manicures, estudantes, entregadores de supermercado, professores, jornalistas, gente de teatro e cinema, desempregados e remediados, funâmbulos do dia a dia num país em crise. Enfim, um genuíno microcosmo.

Aulas sobre buracos negros, Bauhaus, Beat Generation, Rap, Neurociência, política colonial, jornalismo, América Latina, foram temas já discutidos naquela lousa. E o público se mantém atento, continuando a beber sua cerveja, enquanto a preleção discorre perante os olhares. 

Quem pensa que isso poderia estorvar o movimento do bar, se engana, como diz o próprio Mauro: “Nunca atrapalhou o negócio, trouxe até mais clientela. No dia das aulas, acaba aparecendo caras novas e os clientes antigos também gostam das aulas e até participam”.

A população de São Paulo consegue, às vezes, se unir para contornar os obstáculos, ou o descaso dos governos. Vemos isso acontecer nas periferias e o movimento pulsante dos saraus que se espalham em várias regiões da cidade. A Cooperifa é o exemplo concreto desse movimento. 

Para Sócrates Magno isso demonstra que ideias como essas, e na esteira, a Unimauro, sobretudo no momento político do país, quando a educação é perseguida e a cultura cerceada, se tornam essenciais: “ Criar ambientes não formais de transmissão de conhecimento é fazer resistência contra esse governo. Ele corta verba pra bolsa de estudos, verba pra universidade, mas não corta verba do bar”.

Na atualidade, a Vila Buarque vive um processo de gentrificação explícito, com projetos de bares, lojas e renovação imobiliária, cujo exemplo emblemático é o novo edifício de Isay Weinfeld que está sendo construído apenas trezentos metros da Unimauro. 

O bairro, outrora pejado de botecos simples, hoje abriga bares vip ou gourmetizados. Para muitos moradores, é o perigo escancarado de descaracterizar a região e perder sua tradicional aura boêmia.

Enquanto isso não acontece, a lousa da Unimauro se mantém eclética e atuante, promovendo o debate, ampliando o conhecimento. Mas com lucidez e empenho. “Não queremos que essa iniciativa se transforme num point. O objetivo é que ela seja copiada, que se replique. E apareça a UniZé, UniMiro ou a UniMané em alguma quebrada. Deve inspirar outras pessoas”, reitera Sócrates.

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