Fundamental: um artista que sabe fazer arte e ação política

Fundamental – Um artista que sabe fazer arte e ação política.

Abaixo segue texto primoroso do Pedro Alexandre Sanches sobre o Emicida.

Vida longa!

A luta só está começando, e continuará!

Gustavo Cherubina

do Farofafá, na Carta Capital

O silêncio dos artistas, por Pedro Alexandre Sanches

“Nós não veio de branco à toa, certo?”, diz o rapper Emicida, vestido de branco da cabeça aos pés, a exemplo dos integrantes da banda e dos convidados especialíssimos de seu show na Virada Cultural, o mito da bossa nova João Donato e o mito do samba Martinho da Vila. “Nós veio de branco por causa de um tempo em que uma menina de 11 anos toma uma pedrada por ser do candomblé. Nós veio de branco por vagabundo que tá querendo cuidar dos jovem e fala mais de cadeia que de escola, tá ligado?

Emicida, punho cerrado, cabelo ficando black power e discurso de gente grande (foto William Oliveira/coletivo MIRA)

Emicida, punho esquerdo cerrado, cabelo ficando black power e discurso de gente grande (foto William Oliveira/coletivo MIRA)

Era apenas o começo de um fortíssimo discurso cidadão que, sem jamais citar nomes, respingou em políticos profissionais como o presidente peemedebista da Câmara Federal, Eduardo Cunha, e os governadores peessedebistas dos estados de São Paulo, Geraldo Alckmin, e Paraná, Beto Richa. O protesto-provocação prosseguiu, estruturado em rimas e na linguagem-poema original, de identidade, do artista paulistano:

“E aí vira o quê? Os com-diploma versus os consciência. A Fundação é tudo, menos Casa, prum interno. É mó boi odiar o diabo, eu quero ver cê se ver lá no inferno. Não existe amor em SP? Existe pra caralho. Cês acham que as Mães de Maio chora por quê? Tendo que sobreviver ao pai que abusa, ao ferro sob a blusa, às farda que mata nós e nunca fica reclusa, ao Estado que te usa, ao padrão de beleza musa e aos otário que inda quer vim me falar de racismo ao contrário. Tempo doido, tempo doido, a espinha gela, onde as mulher é estuprada e no final a culpa ainda é delas. O problema é seu e da sua dor. Às vez eu me sinto inútil aqui, que eu não valho nada, igual o governo tem tratado os professor. Mas presses bunda mole aí que acha que nós tá dormindo, um aviso: não é porque nós tá sonhando que nós tá dormindo, viu?”.

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O público de Emicida canta numa só voz na praça Júlio Prestes (foto Christian Braga/Mídia Ninja)

O público de Emicida canta numa só voz na praça Júlio Prestes (foto Christian Braga/Mídia Ninja)

Ao discurso, seguiu-se o (quase) puro candomblé do rap libertário “Ubuntu Fristaili” (2013), de refrão que todo o público do Palco Júlio Prestes repetiu a plenos pulmões: “Axé pra quem é de axé/ pra chegar bem vilão/ independente da sua fé/ música é nossa religião”.

 "77% dos jovens que morrem no Brasil, por armas de fogo, são negros! Isso te importa?" (foto William Oliveira/MIRA)

Manifestantes perguntam na plateia do Palco Júlio Prestes: “77% dos jovens que morrem no Brasil, por armas de fogo, são negros! Isso te importa?” (foto William Oliveira/MIRA)

Se o desagravo não barra a barbárie das propostas ultracapitalistas de redução da maioridade penal e nem a dor da menina apedrejada por ser afro-brasileira, ainda assim o recado foi emitido para milhões de brasileiros, ao vivo e via internet – e para a mãe de EmicidaJacira Roque de Oliveira, que dançava toda majestosa em trajes afro-brasileiros, no asfalto em frente ao palco alto do filho.

Mas por que nem Emicida, o mais audaz e arrojado de nossos artistas atuais em termos de discurso, costuma dar nomes aos bois em suas falas mais políticas?

E por que, no extremo do comportamento de manada medíocre da MPB (que agoniza, mas não morre), o silêncio sepulcral é a regra quase intransponível? Por que nove vírgula nove de cada dez estrelas que colhem dinheiro público para cantar “de graça” na Virada Cultural se calam solenemente em frente a microfones públicos poderiam versar sobre política, direitos humanos, justiça & injustiças, desejos, sonhos, reivindicações, pedidos, declarações de amor?

Em entrevista recente que irá ao ar nos próximos dias no FAROFAFÁ, a compositora, cantora e deputada estadualLeci Brandão (PCdoB-SP) comentou o caso de uma importante cantora popular brasileira, que por questões contratuais não pode falar de política em entrevista gravada para a rede Jornalistas Livres: “Os artistas independentes estão tranquilos. Eles não estão a fim de seguir essas regras. A primeira coisa que (os contratantes) fazem é fazer você botar roupa da marca tal. se vestir de tal maneira, mudar seu cabelo, ter uma banda com tais e tais músicos, ter backing vocal. Isso é um negócio maluco”.

DSC_2197É um negócio maluco, como diz a nobre Leci, mas é sob essa cama que o discurso de Emicida estronda em meio a um enorme vazio conceitual. Artistas de forte pendor direitista e reacionário, como os roqueiros oitentistas Lobão Roger Moreira do Ultraje a Rigor, recebem farta repercussão na mídia tradicional (apenas) quando vociferam contra governos progressistas ou se integram marchas direitistas. Os demais variam entre o desinteresse completo por parte dos repórteres, a mudez e o cerco armado por assessorias ferozes de (não) comunicação.

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Às 10h do domingo, Erasmo Carlos se dirige ao palco na av. São João (foto Pedro Alexandre Sanches)

Às 10h do domingo, Erasmo Carlos se dirige ao palco dos 50 anos de jovem guarda, na av. São João (foto Pedro Alexandre Sanches)

Como exemplo desse último padrão, ao final do show do grande Erasmo Carlos, tento me aproximar dele a pedido do colega Fernando Sato, para tomar um depoimento sobre maioridade penal. Alguém da assessoria me adverte de que se eu tentar serei imediatamente interrompido. Outro, quando mesmo assim chego perto do artista, me ameaça com expressão terrível nos olhos caso eu ouse descumprir as regras que ELES estipularam. Resultado: só consigo ouvir, da boca de Erasmo em pessoa, um breve “leio sempre o que você escreve no Twitter” (e não é que, sim, artistas leem Twitter?!). Talvez eu acredite que meu ídolo é essencialmente bom e seus assessores, maus pela própria natureza hipercapitalista – mas só se eu eu acreditar no maniqueísmo dos contos de fadas e dos filmes de Quentin Tarantino.

Num panorama global (não uso por acaso a palavra “global”), o que a valorosa exceção Emicida confirma é a regra de que “liberdade de expressão”, “liberdade de imprensa”,  ”liberdade de opinião”, “liberdade artística” & outras ~liberdades~ são bandeiras falsas sempre desfraldadas como pega-trouxas pelas indústrias da informação, da cultura e do entretenimento.

Em geral, quem brada por “liberdade de expressão” em situações de aperto são os mesmos ~agentes culturais~ (e políticos) redatores ocultos das ~cláusulas de contrato~ que proíbem artistas, professoras, manifestantes, cidadãs, jornalistas e transformadoras sociais de se pronunciar em termos políticos, cidadãos, humanitários, poéticos. Nesses nichos, ainda somos a ditadura civil-militar de 1964.

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Em tempo: O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), o mais recente álbum de Emicida, foi lançado independentemente pelo Laboratório Fantasma, selo (e loja) de que ele é dono e presidente.

Também já escrevemos sobre:

 

 Sobre o autor: Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de “Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba” (Boitempo, 2000) e “Como Dois e Dois São Cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)” (Boitempo, 2004) 

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9 comentários

  1. Infelizmente a maioria dos

    Infelizmente a maioria dos artistas brasileiros ou é funcionário público ou é funcionário da Globo.

    Sendo assim se transformaram todos em “robertocarlos” .

    Falam apenas platitudes e são mantidos no cabresto por assessores.

  2. E esses artistas conformistas

    E esses artistas conformistas e assentados no establishment conseguem fazer que tipo de arte? Conformista, adequada ao mercado e que visa só dinheiro. Está explicado a mediocridade geral da música brasileira. Não são artistas, são funcionários burocráticos do sistema. E arte, para ser arte, tem que ser revolucionária, transformadora e contestadora.

    Sem deixar de lembrar que Chico Buarque nunca deixou de militar nas causas que considera justas. Sempre correu por fora. Talvez por isso nunca deixou de produzir sua obra genial e se impôs pelo talento.

    E cá entre nós. Erasmo Carlos grande? Não, sempre foi assentadíssimo no sistema. Sua obra e de médio pra baixo. Da sua geração grande era o Tim Maia e grande é o Benjor.

  3. Não acho fundamental. Que coisa simplória, simplista!…

    acho estreiteza, e da grossa.( Mas tenho certeza de q alguns, talvez a Irmandade vá discordar e aplaudir o post título: artistas conformistas, alienação, e esse discurso q sei de cor e salteado). Que tal A Alma do Homem Sob O Socialismo, de Oscar Wilde? E outras coisas dele sobre arte? Ou simplesmente ter um pingo de senso crítico não religioso? ) Não se precisa ler ninguém, basta deixar algumas emoções de lado). Claro q em tempos de aguda comoção, guerra, e como cidadão, acho (mas não é obrigatório) q se deva ter posição. Respeitemos e tentemos entender a liberdade de pensamento, de expressão de quem não pense como nós. Tô usando de palavras não ofensivas,espero que não haja melindres.

    • Que liberdade de pensamento?

      Que liberdade de pensamento? De produzir para o mercado. Arte não é acomodação. É criação no que está implicita a  contestação. É Billie Holiday gravando Strang Fruit. É Beethoven se recusando a ser criado da nobreza. É Maiakovski explodindo os miolos. É Cézanne pintando mais de 60 vezes o Monte Sainte-Victoire. É Rothko se recusando a entregar suas obras para o restaurante Four Seasons do Edificio Seagran, por um valor que hoje chegaria a milhões de dólares e num momento em que passava por dificuldades financeiras, porque os ricos que ali estariam jamais entenderiam o que dizia a  sua obra. É Michael Jackson morrendo para buscar as perfeição. Não se trata de posição ideológica, trata-se de criação sem se ajoelhar ao poder maior do dinheiro.

      Borges era de direita e sua obra não sofreu influência alguma de suas crenças . Ezra Pound não deixou de ser extraordinário por sua posição política. Ser de direita é uma coisa. Se submeter ao mercado, se fingir de artista é outra.

      Como lembrei de Rothko, ninguém pintou melhor o nossos dias como esse gênio que o antecipou em 50 anos. E eu não li a obra de Wilde que você cita. Mas vou ler.

      • Vera, tente Obras Completas de Oscar Wilde

        encomende por sebo ou na maior rede de livrarias do país – que pode entregar na sua casa em qq parte acessível onde você esteja. Há umas palestras dele a alunos de história da arte. Vc vai gostar, muito provavelmente. Ferreira Gullar tem alguma coisa sobgre isso (e não é falando sobre opção partidária dele). Jorge Mautner idem, foi dirigente da área cultural do PCB tempos atrás. Mautner é equivocadamente usado pelo PCdoB, porque ele como artista se dispôs a tocar o seu A Bandeira do Meu Partido a pedido deles do PCdoB. Era interlocutor do físico Mário Schemberg, na época também do partidão. Wilde palestras só há nas Obras Completas. Se vc não conhece os contos de fada de Wilde, são lindos. Hoje novamente seria preso e se autoexilou, morreu obre em Paris. O Rouxinol e a Rosa, em boa tradução (porque há várias, e há uma adaptação ruim aidn que tenha sido feita por um escritor acho que Paulo Mendes Campos. Romano de Sant’Anna tem umas coisa boas sobre “arte contemporânea”, instalações, agradável leitura. Tem um site dele. “Arte: Equívoco Alarmante” é muito bom, eu acho.

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