Gay politikón, por Mestre Yoda

Gay politikón

O homem moderno é um animal em cuja política sua vida, enquanto ser-vivo, está em questão (Foucault).

 

Para Aristóteles, uma das principais características da espécie humana, seria a de praticar a política, por isso, denominava o Homo sapiens de zoon politikón. Mais de dois milênios após a publicação de “A República”, por seu mestre, Platão, a política continua vivíssima entre os humanos.

As questões políticas, entretanto, mudaram bastante. Isso não quer dizer que os problemas ligados a polis e sua estrutura desigual, o elitismo da estrutura de estado, tenham se alterado substancialmente. A escravidão passou a ser condenada (mas não deixou de existir), a intolerância entre membros de diferentes culturas passou a ser combatida, as mulheres conquistaram muitos direitos (mas ainda continuam a ser exploradas), etc.

Outras mudanças, ocorridas nos dois últimos séculos, entretanto, foram mais expressivas. O filósofo Michel Foucault, em sua importante obra “A História da Sexualidade” aponta uma delas. Contrariando a chamada “hipótese repressiva”, enunciada por Freud, o filósofo afirma que não vivemos uma sociedade que reprime sua sexualidade e diz que somos, cotidianamente, incitados a falar sobre nossa sexualidade. E isto ocorre porque no mundo ocidental, sobretudo desde o século XVIII, temos sido induzidos à “normalidade”. Fala-se muito sobre sexualidade para que se possa definir os “normais” e os “anormais”. Segundo o filósofo italiano Gianni Vatimo, vivemos a “ditadura do heterossexual e monogâmico”, que tenta se passar como o único padrão social aceitável.

Jogad@s no gueto da “anormalidade”, da “marginalidade”, ser gay nos últimos séculos indica uma situação de vulnerabilidade social. A sociedade brasileira, surfando numa onda pra lá de conservadora, por exemplo, recusa-se a admitir que o preconceito contra homossexuais, lésbicas, transexuais e travestis seja crime, permitindo o assassinato e outras formas de violência diária de inúmeros cidadãos, vítimas de fundamentalismo religioso e do preconceito homo e transfóbico. O grande Oscar Wilde, em fins do século XIX, assim como milhares de cidadãos residentes em países cristãos, muçulmanos e (auto-proclamados) comunistas, foi preso e humilhado publicamente por ser gay.

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Apesar desta triste realidade, o quadro, ao longo do tempo, foi mudando gradualmente. Hoje, em pleno século XXI, graças à ação revolucionária e transformadora de inúmeros gay politikón, emerge uma nova consciência, para desespero dos mais conservadores. Casais gays são reconhecidos como unidades familiares em diversos países ocidentais, tendo o direito legal de adotar crianças. Prefeituras como as de São Paulo e Pernambuco (pra ficar somente nos casos nacionais) possuem programas de ações sociais afirmativas para travestis, por reconhecer sua situação de vulnerabilidade social, parlamentares gays são eleitos e a visibilidade do amor homossexual vem ganhando grande espaço, nas ruas e nas telas.

Muita coisa ainda precisa melhorar e precisamos estar sempre vigilantes para que conquistas não se percam e para que o ideal de uma sociedade sexualmente diversa permaneça sempre vivo. De qualquer modo, o saldo é positivo.

Por tudo isso, dedico esta reflexão a todos os meus amigos gays, lésbicas e travestis. Também dedico, particularmente, ao gênio Michel Foucault, por sua preciosa pesquisa e por suas importantes reflexões. Gay politikón é minha singela homenagem a tantas outras figuras geniais que tornaram possível este momento histórico em que firma-se esta consciência da importância da diversidade. Viva Fernanda Montenegro! Viva Jean Wyllys! Viva Luis Mott!

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2 comentários

  1. Gostei do artigo, mas não gosto de Foucault.

    Pelo menos não de “Os Rapazes” onde ele constroi a homossexualidade como opção, o que é um absurdo aos olhos do século XXI.

    Enxergar as coisas desse modo levou a um baita atraso nos anos 70 e 80.

     

    • foucault

      Oi, Gunter

      Não li “Os rapazes”, mas sua história da sexualidade é um marco importante da despatologização da homossexualidade, um estudo histórico denso que escavou elementos para nos fazer compreender que até mesmo durante o Santo Ofício a vigilância e o biopoder não reprimiam a homossexualidade, que, coisa recente, não tem mais de duzentos anos.

      Quanto à questão da “opção”, lembremos que até recentemente, o discurso que nos mostra que o uso do termo “opção” é um equívoco no tocante à sexualidade é bastante recente e, de fato, antecede a Foucault.

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