O jogo é mudar o Brasil, por Ion de Andrade

Movimentos sociais realizarão dia 5 de setembro, em Belo Horizonte, encontro para discutir alternativas para o Brasil

João Pedro Stedile, que é hoje um dos pensadores mais importantes da esquerda latinoamericana e que é um dos raros a conjugar uma experiência prática com uma elaboração teórica, assinalou numa recente entrevista que a esquerda está prisioneira de uma espécie de hipnose eleitoral, a experessão é minha, mas creio que ele concordaria com essa tradução, e que o projeto de sociedade foi relegado a um segundo plano, dada a prioridade atribuída à disputa eleitoral. Leia sua entrevista ao Sul21 aqui.

Concordo plenamente com ele nesse raciocínio, que eu traduzo aqui com as minhas palavras, e acrescento que isso tem produzido mazelas maiores para o país, dentre as quais a crise política que vivemos e que reúne dois ingredientes básicos: uma direita golpista e sem projeto de sociedade e uma esquerda perplexa e igualmente sem projeto de sociedade. A proeminência da disputa em detrimento do projeto de sociedade aliena a poítica do seus propósitos fazendo com que as lutas, que são um meio, se tornem um fim em si mesmas.

Diria que se a esquerda hoje tivesse um projeto claro, capaz de galvanizar a sociedade, a direita estaria fora do jogo, vendo a banda passar da janela.

Como não saímos desse oito, em parte pelas dificuldades dessa esquerda eleitoral e eleitoreira, que não consegue e parece não querer romper com essa hipnose, vai o Brasil rumando de forma errática, virando daqui e dali numa viagem de embrulhar o estômago. Nisso não vai nenhum menosprezo à disputa eleitoral que sustenta as representações da esquerda no Estado, o problema é que isto virou o fenômeno do gato que corre atrás do rabo.

Dia 05 de setembro em Belo Horizonte está agendado um encontro com os movimentos sociais para discutir alternativas para o Brasil e fundar uma frente capaz de lembrar que existe vida além da política eleitoral.

Nós, de Natal levaremos para esse importantísimo evento A Carta de Natal que é um documento elaborado a partir da experiência de emancipação de um bairro popular da cidade num encontro com os movimento sociais e comunitários da região e que é um chamamento ao Brasil, um chamamento do sono hipnótico em que muitos estão mergulhados. A Carta de Natal está disponível nesse GGN (http://jornalggn.com.br/blog/ion-de-andrade/a-carta-de-natal-documento-completo) e no Observatório das Metrópoles (http://web.observatoriodasmetropoles.net/index.php?option=com_k2&view=item&id=1174%3Adesenvolvimento-local-e-direito-%C3%A0-cidade-a-carta-de-natal&Itemid=164&lang=pt)

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Essa Carta de Natal, saída de um bairro pobre de uma capital do Nordeste, se propõe a mudar o Brasil, propondo mudanças profundas no modelo de presença do Estado nas comunidades periféricas das grandes cidades. O documento propõe uma intervenção que poderíamos classificar de “pós gramsciana” pois estabelece um “o que fazer” num Estado governado pela esquerda, coisa que o pensador italiano, que, apesar de genial, não era adivinho, não poderia profetizar. Gramsci  elaborou, sim, a natureza da luta no Estado ampliado, mas não profetizou, obviamente, as necessárias ações de um governo de esqueda para dar cumprimento à sua missão histórica..

Essa modernidade torna a Carta de difícil compreensão  frente ao escopo teórico da esquerda contemporânea que parou nos anos 30 do século passado. Um dificultador a mais, além da questão eleitoral e eleiitoreira. A Carta, que elabora o que o governo deve fazer para emancipar o povo, não cabe no mapa mental da esquerda tetanizada pelas lutas. Essa é a razão pela qual Stedile tem toda razão. A esquerda só pensa em eleições, do condomínio à presidência da República. Sobre o que fazer com o poder conquistado faltam ideias. É o “Vamos fazer mais” do mesmo… Talvez a minha crítica esteja um tanto ácida demais, mas me sinto exausto de ter que voltar a esse tema.

Como a Carta tem baixo valor eleitoral, apesar de ser uma das chaves para sairmos do oito em que estamos, não galga importância nas esferas partidárias, tal como o combate à fome e à miséria do primeiro governo Lula foi tachado de despolitizador por alguns gênios do nosso campo, imbuídos do sacrossanto interesse eleitoral, tido como altamente politizado e politizador. Como se o povo, que é o maior protagonista das transformações sociais, não devesse estar de pé e de barriga cheia para poder ser livre… Hoje está de barriga cheia, mas ainda não está de pé. Esse é o objetivo da Carta. Botar o povo de pé.

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Evidentemente que a Carta de Natal não resolve tudo, mas há outras iniciativas de grande importância sendo pensadas, tais como o SUS Brasil do dr. Gastão Wagner, (https://www.youtube.com/watch?v=unulkOK2Pk0) além das premissas e princípios que norteiam a própria Frente Brasil Popular, (http://altamiroborges.blogspot.com.br/2015/08/da-crise-frente-brasil-popular.html).

A crise partidária está portanto obrigando os movimentos sociais e a intelectualidade não contaminada com o sono hipnótico eleitoral à formulação das propostas gerais que classicamente são dever dos partidos…

Convido a todos à leitura do resumo da Carta de Natal e a apreciar as fotos do arquiteto Verner Monteiro das atividades realizadas no Ginásio Arena do Morro, (https://drive.google.com/folderview?id=0B8uVzRQ20_D7TnNYZzNkRngtZms&usp=drive_web)obra que inspirou a Carta.

Quem tiver olhos de ver vai enxergar nessas iniciativas uma semente de país.

A Carta de Natal

Desenvolvimento Local e Direito à Cidade

A Carta de Natal é um documento produzido pelos movimentos sociais e comunitários de Natal em 28 de março de 2015, a convite do Centro Socio Pastorail Nossa Senhora da Conceição, de estímulo às comunidades, sobretudo de baixa renda, e ao Poder Público de buscarem, através de uma parceria estratégica, o desenvolvimento local.

O ginásio Arena do Morro, no plano da sua arquitetura e da sua gestão compartilhada com a comunidade foram inspiradores da Carta.

A Carta constata que, apesar dos avanços materiais ocorridos nos últimos anos, a relação entre o Estado e as comunidades não mudou e se reduz a poucas iniciativas normalmente precárias, tais como a escola, as creches, as unidades de saúde ou a polícia. A Carta propõe, portanto, uma mudança profunda das relações entre o Poder Público e as comunidades abrindo a possibilidade de uma presença pública consistente nas áreas de esporte, lazer, cultura, urbanismo, cuidados com idosos, dentre outras.

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Três conceitos sustentam a Carta, a) o desenvolvimento local para a qualidade de vida e para a emancipação das comunidades, que está alicerçado na ideia da materialização de uma agenda de políticas públicas que dê sustentação a uma nova presença pública nas comunidades; b) o direito à cidade processo através do qual a cidadania vai se apropriando de uma cidade cada vez mais acessível, segura e amigável onde o acesso à cultura, ao esporte e ao lazer se universalizam e c) os equipamentos sociais estratégicos, entendidos como o Conjunto de Equipamentos Sociais capazes de materializar oportunidades para as comunidades em múltiplas áreas.

A conjugação desses conceitos permitiria a acessibilidade das comunidades a equipamentos sociais como as bibliotecas, os teatros, as alamedas pedestres, os ginásios poliesportivos, as piscinas públicas, os centros culturais, as casas de idosos, ou os centros de velório, todos eles comumente ausentes das comunidades de baixa renda, o que resulta numa vida cheia de precariedades, dificuldades e sofrimentos.

Os eixos fundamentais da Carta são:

  1. Planejamento Local Participativo, Acesso à Cidade e Equipamentos Sociais Estratégicos.
  2. Financiamento Público dos Projetos.
  3. Gestão Compartilhada dos Equipamentos Sociais Estratégicos (Estado/Comunidades).
  4. Controle Social das Políticas e Orçamentos Públicos.

A partir desses eixos fundamentai e com base em projeções financeiras consistentes, a Carta elabora uma série de Recomendações e Sugestões às comunidades e ao Poder Público para que o modelo que propõe possa ser replicado em toda parte.

Partindo de Mãe Luiza um dos bairros mais pobres de Natal, a Carta se propõe a ser um chamamento ao Brasil por um novo modelo de conquistas sociais para uma vida digna e cidadã.

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3 comentários

  1. Homens que fazem valer a pena viver e lutar

    Nassif, escrevi este texto para o face book (postei ontem), como uma homenagem a Waldir Pires, mas aproveito para colocar aqui.

    Talvez aparente não ter muito a ver com o post, mas acho que tem,´afinal ele fala de mudar o Brasil, um eterno desejo de Waldir Pires que, aos 89 anos ainda tem força para subir num carro de som e lutar pelos seus ideais.

    Portanto, permita-me.

     

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=_s8vRBvHNnA align:center]

    Homens que fazem valer a pena viver e lutar

    O vídeo postado mostra a manifestação feita em Salvador no dia 20-08-2015.

    Poderia falar muita coisa a partir desse vídeo, mas vou deixar que ele fale por si.

    Porém, faço questão de fazer um registro.

    O homem de cabelos brancos e camisa amarela que fala ao microfone aos 2,46 segundos é Waldir Pires, orgulho da Bahia e um dos grandes políticos do Brasil.

    Atribui-se a Waldir Pires o que teria sido um grave erro político, o fato de ter deixado o governo da Bahia nas mãos de Nilo Coelho, seu vice, para sair como vice de Ulisses Guimarães na campanha presidencial de 1989.

    Foi um chamamento pessoal de Dr. Ulisses, amigo e companheiro de luta de longas datas pelas causas do país.

    Aceitou o convite.

    Se cometeu um erro político, talvez a Bahia tenha cometido um muito maior com ele.

    Se a Bahia teve um estadista, ele tem nome; Waldir Pires.

    Não se deve imaginar um estadista através de uma visão curta e simplista dos fatos e não vou tentar qualquer tipo de análise nesse sentido agora.

    Sobre isso tenho um episódio para contar e talvez algum dia escreva sobre ele.

    Lamentavelmente, porém, a Bahia não soube ver a sua grandeza e idolatrou Antônio Carlos Magalhães.

    Triste, mas realidade.

    Há um enorme abismo entre ambos.

    Íntegro, lutador, Waldir Pires soube respeitar a sua história.

    É um daqueles homens que têm plena consciência de que não há futuro sem passado.

    Por isso não nega o seu.

    Pelo contrário, honra.

    Nunca mudou de lado, nunca pediu para esquecer o que disse, fosse qual fosse o momento.

    Hoje às vésperas de fazer 89 anos (21 de outubro), Waldir Pires parece incansável.

    Insiste em continuar lutando.

    Sem passado e sem futuro, o que resta de um homem?

    Um presente vazio, de horizonte curto, em que reinam desesperança e sentimentos menores, como inveja e tentativas de desconstrução do que os outros fazem.

    É onde agonizam os homens pequenos.

    Mesmo com a idade mais avançada, Waldir Pires luta pelo futuro que ele sabe que está ali, à sua frente.

    Ainda que outros não consigam ver, os olhos dos seus sonhos veem.

    Se a idade não lhe permite mais o vigor físico de outrora, o homem de ideais mantém o vigor dos sonhos, pois estes nunca envelhecem.

    São homens como Waldir Pires que mantêm acesa a chama que incendeia corações e almas de todos aqueles que têm como objetivo de vida lutar pelas causas.

    Causas que não são suas, mas de um país e seu povo.

    Esses homens nunca serão derrotados.

  2. A carta é a esperança

    Sim, a carta é a esperança, de um mundo mais justo, menos hierárquico, mais participativo, menos excludente ! A carta é essencial à sobrevivência de uma sociedade que se quer pacificada e sadia. Se não forem realizados os ditames da carta, esperança não haverá !!!

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