Stédile: “Nós queremos paz e negociar”

“Se você fizer uma reforma agrária, mais 4 milhões de família vão comprar trator. Alimentaria o sistema capitalista, mas a nossa burguesia é burra”, avalia líder e fundador do MST
 
Foto: Lula Marques
 
Jornal GGN – “Nós não temos interesse nenhum em violência, porque quando a disputa entrar neste patamar, quem vai perder? Nós, né. Eles têm os pistoleiros, a polícia e o juiz. Nós queremos paz e negociar”, declarou em entrevista para o El País, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Agustini Stédile.
 
O grupo nasceu 1984 e Stédile é um dos fundadores. De família de camponeses, ele representa a primeira geração de filhos dessa classe de trabalhadores no Brasil com ensino superior. “Eu era muito jovem e queria estudar. E fui estudar. Trabalhava de dia e de noite estudava. E mantive o vínculo com o sindicato de trabalhadores rurais da minha região. Aos sábados e domingos ajudava a calcular o preço da uva”, recorda o economista formado pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS) e pós-graduado na Universidade Nacional do México (UNAM). 
 
Anos antes de pensar em fundar o MST, em 1979, Stédile ajudou a resolver um conflito entre colonos sem-terra e índios. “Umas 800 famílias de posseiros pobres foram expulsas pelos índios. Era pobre contra pobre. Cheguei lá e era aquela confusão. Você consegue imaginar assembleia entre índio e posseiro?”. A situação foi resolvida depois que ficou decidido que “terra de índio é de índio”, levando à elaboração de um plano para ocupar uma área de terras que tinha sido desapropriada pelo então governador Leonel Brizola justamente para a reforma agrária, mas que havia sido grilada por fazendeiros.
 
Stédile relembra que a criação do MST aconteceu junto com a criação de outros movimentos por direitos civis no campo, vinculados a partidos e a igreja Católica. Era uma nova geração de militantes, em 1984, que nascia depois da ditadura militar.
 
“Era o início da abertura, aquele clima de democratização, o ABC paulista pegando fogo”, recorda. Atualmente, Stédile compõem um grupo de interlocutores do papa Francisco no Brasil, por iniciativa do próprio líder católico.
 
“Pela fama do MST e da via campesina, [Francisco] mandou um emissário falar comigo em São Paulo. E a primeira coisa que eu disse foi que várias organizações da Igreja Católica trabalham com os pobres, como a CPT [Comissão Pastoral da Terra], o Cimi [Conselho Indigenista Missionário], religiosos como Frei Betto, Leonardo Boff…”, explicou o porta-voz do MST ainda em julho, em entrevista para a imprensa. Dias depois, seu nome foi escolhido como interlocutor de trabalhadores rurais de um pequeno grupo que, periodicamente, envia informações sobre questões sociais diversas para Roma e, a cada dois anos, se encontra em uma plenária para elaboração de textos que são estudados pelo papa. “E geralmente ele está mais à esquerda que todos nós”, observa Stédile.
 
O líder aponta que a desigualdade agrária no Brasil é estrutural, remonta o período do império quando, em 1850 foi assinada a Lei de Terras permitindo o acesso a terras públicas do Estado apenas à quem tivesse dinheiro para pagar. Resultado: imigrantes pobres e ex-escravos negros foram impedidos de serem proprietários. Hoje, cerca de 1% das propriedades rurais ocupam cerca de 50% de toda a área rural. 
 
“No final do século XIX e durante todo o século XX, todos os países entraram para o capital industrial distribuindo terra [e isso inclui Estados Unidos e Japão]. Porque cada família que recebia um lote se integrava na indústria”, pondera Stédile. E a lógica é clara: quanto mais propriedades maior a compra de tratores particulares. Antes da crise de 30, por exemplo, os Estados Unidos tinham 1.200.000 tratores. O Brasil só foi alcançar esse número em 2017, com o boom do agronegócio que acelerou a mecanização do campo. 
 
“Se você fizer uma reforma agrária, mais 4 milhões de família vão comprar trator. Alimentaria o sistema capitalista, mas a nossa burguesia é burra. O que nos faltou aqui para dar certo? Uma burguesia industrial”, arremata.
 
Desde 2005 o MST vem defendendo, além da reforma agrária, o envolvimento da educação em vários níveis, incluindo a agroecologia (produção sem agrotóxicos) e a agroindústria.
 
“A agroindústria é mais que capitalismo, é pelo progresso econômico, é o que agrega valor a sua matéria-prima, aumenta a sua renda, atrai o jovem que vai para a universidade e não quer pegar na enxada, dá emprego para as mulheres, te conecta com o resto da sociedade. Quem vai dar a máquina? A indústria. Quem compra o leite? O supermercado”. Para ler a matéria na íntegra, assinada por F. Betim, clique aqui.
 

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1 comentário

  1. Reforma agrária
    “companheiro” Stedile a esquerda socialista ficou 16 anos no poder, o que faltou pra implementar a reforma agrária no Brasil? Ah! talvez se você tivesse sido ministro

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