Zezé Gonzaga, a cantora dos maestros

Enviado por Jota A. Botelho

Mais uma preciosidade do ‘garimpeiro musical’ Hermínio Bello de Carvalho

Há mais ou menos dez anos eu tento fazer este disco. Ele marca o retorno de uma das grandes vozes da música popular brasileira, a de Zezé Gonzaga. E é um tributo ao talento de um incrível compositor surgido quase na década de 40, e logo marginalizado e rotulado de “maldito”. Falo de Valzinho (“Doce Veneno”) e estendo meus agradecimentos a Radamés Gnatalli pelo privilégio que nos deu em partilhar esse trabalho com seu Quinteto. (…) O retorno dessa grande Zezé Gonzaga estaria incompleto se não fosse realizado ao lado do Quinteto de Radamés Gnatalli. Porque todos partilham de uma antiga admiração pela cantora e pela obra de Valzinho – permanente em suas estantes de músicos afinados com o tempo. A alegria de ocupar um espaço de estúdio para pontuar o talento do compositor e da intérprete, fez do Quinteto uma espécie de fonte energética e que me restituiu aos fins da década de 50, eu adolescente num canto de estúdio da Rádio Nacional, presenciando inesquecíveis ensaios do grupo. Repito que é um privilégio e uma honra repartir esse trabalho com Zezé Gonzaga e o Quinteto de Radamés: é uma promessa que me fiz há mais de dez anos, essa de mostrar a obra de um de meus compositores favoritos, da forma como está sendo feita. Esse disco é, em síntese, uma referência ao injustiçado músico brasileiro e seu fôlego para resistir a tantas predações e indiferenças – Hermínio Bello de Carvalho, Janeiro de 1979.


De cima p/baixo: Valzinho, Zezé Gonzaga, Hermínio, o Lp “Doce Veneno” e Radamés Gnatalli.

A “REVELEÇÃO” DE DOIS VETERANOS: VALZINHO E ZEZÉ GONZAGA

Em janeiro de 1979, Curitiba passou a ter um jardim de infância a menos, mas a música popular recuperou, em termos profissionais, a cantora que é adjetivada como “a voz mais afinada do Brasil”: Zezé Gonzaga. Doze anos após ter deixado a Rádio Nacional e após trabalhar (entre 1966 e 67) como jinglista, Maria José Gonzaga (mineira de Manhuaçu, 03/09/1926) tinha decidido por uma vida tranquila na capital paranaense, onde inaugurou uma escola. Não pensava mais em voltar a gravar: desgostosa com os aborrecimentos que teve na Philips com seu último LP – Canção do Amor Distante, que levou dois anos para ser lançado – nada animava Zezé a pensar em música em termos profissionais.

Desde 1951, quando fez o seu primeiro 78 rpm, gravou mais de cem músicas, mas raras vezes teve a oportunidade de escolher o repertório – quase sempre formado por versões das mais indignas. E estes fatos fizeram com que Zezé, apesar de ser classificada como “a cantora dos maestros” – por sua afinação extraordinária, embora nunca tenha tido uma única aula de canto – tivesse optado por uma voluntária renúncia artística. E teria ficado em Curitiba, se Hermínio Bello de Carvalho não a tivesse convencido a entrar novamente num estúdio, para fazer um LP. Para tanto, houve alguns argumentos irrecusáveis: um repertório formado exclusivamente por um dos mais injustiçados (e esquecidos) compositores brasileiros – Valzinho (Norival Carlos Teixeira, carioca do bairro do Irajá, 26/12/1914). E os arranjos e participação do maestro e pianista Radamés Gnatalli e Quinteto.

O resultado é que, gravado em apenas três dias em janeiro de 79, Valzinho, Um Doce Veneno acabou sendo lançado às vésperas do Carnaval, quando Zezé ainda estava em Curitiba, tratando de encerrar as atividades de sua escola. Trata-se de um disco não apenas absolutamente histórico, por marcar o retorno de uma das mais belas vozes do Brasil, amparada no extraordinário Quinteto de Radamés Gnatalli, mas que praticamente vem revelar canções de um compositor que permanecia no mais absoluto anonimato. Pois, se Emilinha Borba e sua irmã Nena Robledo, há mais de quarenta anos, já divulgavam “Doce veneno”, só recentemente esta música chegou a interessar uma cantora como Maria Creuza, que a escolheu para título de seu último LP pela RCA. Cantores como Orlando Silva, Paulinho da Viola e Macalé também gravaram músicas de Valzinho.

Mesmo assim, o que explica que um compositor de tanta inspiração e harmonias tão avançadas, e podendo ser classificado na pré-história da bossa nova, tenha permanecido anônimo por tantos anos? Suas harmonias, difíceis mas belas, eram curtidas por vocalistas sensíveis, mas sua timidez, espírito boêmio e total despreocupação material fizeram com que Valzinho nunca se preocupasse com o registro de suas músicas.

Mas, agora, esse disco vem provar uma série de verdades: Zezé Gonzaga continua a ter uma belíssima voz; Radamés Gnatalli e Quinteto formam uma unidade especialíssima, que infelizmente só mesmo em ocasiões como esta pode se reunir; e Valzinho é o exemplo do talento que morreria esquecido se não houvesse garimpeiros como Hermínio Bello de Carvalho.

Artigo da revista Somtrês, escrito por Aramis Millarch, em Abril de 1979.


** Os textos acima (clique nas imagens p/ampliar)
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VALZINHO & ZEZÉ GONZAGA: UM DOCE VENENO


LP produzido pelo MIS – Museu da Imagem e do Som/RJ

Óculos Escuros (Valzinho & Orestes Barbosa)

https://www.youtube.com/watch?v=3WFDhNJ6_OE align:center]

Imagens (Valzinho & Orestes Barbosa)

https://www.youtube.com/watch?v=8SxF5Vd9R20 align:center]

Tudo Foi Surpresa (Valzinho & Peterpan)

https://www.youtube.com/watch?v=6TYW5j5FzaU align:center]

Três De Setembro (Valzinho & Renato Batista)

https://www.youtube.com/watch?v=-ZvvHl9M84Q align:center]

Felicidade (Valzinho & Reynaldo Dias Leme)

https://www.youtube.com/watch?v=1ETswc02dvY align:center]

Amar E Sofrer (Valzinho)

https://www.youtube.com/watch?v=jQHGKqoh3lY align:center]

Doce Veneno (Valzinho, Carlos Lentine & Goulart)

https://www.youtube.com/watch?v=K3aE5i8uTck align:center]

Teu Olhar (Garoto & Valzinho, com As Morenas do Barulho)

https://www.youtube.com/watch?v=Zw3FUrTbnTw align:center

Quando O Amor Vai Embora (Valzinho & Evaldo Ruy)

[video:https://www.youtube.com/watch?v=1jQNc56wxcU align:center

Fantasia (Valzinho)

[video:https://www.youtube.com/watch?v=EtpZjDXPUkw align:center

Castigo (Valzinho & Manezinho Araújo)

[video:https://www.youtube.com/watch?v=80DvnJo9QlE align:center

Tormento (Valzinho)

[video:https://www.youtube.com/watch?v=HJuoHRh1RMg align:center

Tempo De Criança (Valzinho & Luis Bittencourt)

[video:https://www.youtube.com/watch?v=m2xXQRCfElA align:center

Não Convém (Valzinho & Jorge de Castro)

[video:https://www.youtube.com/watch?v=oImbWQBORy0 align:center

Viver Sem Ninguém (Valzinho & Marcelo Machado)
– Canta Valzinho, com participação de Zezé Gonzaga

Quero ser vagabundo
Viver sem ninguém
E ser dono do mundo
Na ilusão de ser alguém

A vagar por aí
Sem destino certo
Ver o que ainda não vi
Olhar o céu que está tão perto

Vagabundo eu sou
Ave sem ninho
Pela vida eu vou
Canto sozinho

[video:https://www.youtube.com/watch?v=7vo4bzTMTbA align:center
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Ouça Zezé Gonzaga ao lado de Cauby Peixoto no Projeto Pixinguinha, 1979, AQUI, e no programa Estúdio F (Produção: Rádio Nacional / RJ), na Rádio Cultura Brasil, 2013, AQUI.

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SOBRE VALZINHO: AQUIAQUI & AQUI 
SOBRE ZEZÉ GONZAGA: AQUI & AQUI

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11 comentários

  1. Ótimo, sempre bom música, docs ( Ao GGN uma pergunta)

    [ Ao GGN:  – Pergunto se há recurso pra se ver em lista como era antes?

    (Por sinal antes houve uma mudança que a gente podia ver quais posts eram e que número de comentários havia emcda post-título).Se não houve nessa nova mudança, então fica a sugestão.  – pelo “Contato”, escondidinho no pé de página/tela, não dá, nunca respondem – então faz bem em continuar escondidinho mesmo… ,  nem respondem sim ou não por várias sugestões não críticas , uma parte pequena vejo que aproveitaram, ou é pretensão minha ]

      • é

        mesmo se a pessoa , visitante ou participante passar por cima da quase totalidade das postagens, mas ficava mais claro. E a chamada de “Mais lidos ou mais compartilhados na semana pra mim não significa necessariamente qualidade nenhuma, mas pode dar curiosidade ).

        – Que tal uma campanha, mais gente se manifestando? Sou um simples nickname (claro que tenho minhas vaidades, minhas carências típicas, escancaradas de redes sociais e de blogs como este), mas desconfio que GGN não aprecia muito eventuais comentários meus, váaaaarias sugestões sem respostas – exceto lá, “inofensivos” posts de música, poesia, alguma crônica. Se puderes buscar mais gente se manifestando sobre isso, que tal ?

    • De fato,

      são belíssimas composições na voz de uma grande cantora. Gracias ao Grande Hermínio!

      Programa Ensaio Zezé Gonzaga

      Programa Ensaio gravado em 2002 com a cantora Zezé Gonzaga e com o pianista Cristovão Bastos. Durante o programa, Zezé fala da era do rádio e dos programas que participou na década de 40 no Rio de Janeiro, comandados por Ary Barroso e Arnaldo Amaral. Lembra ainda da época da Rádio Nacional e da Rádio Clube do Brasil. Ela também relembra suas parcerias com Hermínio Bello de Carvalho e Radamés Gnatalli, figuras que foram muito importantes em sua carreira. No repertório, músicas como Faxineira das Canções, Inquietação, Cansei de Ilusões, Não Me Culpes Quando Tu Passar e Sou Apenas Uma Senhora Que Canta. Além de Todo Sentimento, de Chico Buarque e Cristovão Bastos, acompanhada pelo próprio pianista e compositor.

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=62_DuDIQCmA align:center]
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  2. Beleza de Post!!

    Amigo Botelho,

    Que beleza de post resgatando Valzinho e Zezé Gonzaga quando ambos estavam, urgentemente, precisando que isso acontecesse. E a ideia do resgate só poderia ter sido do nosso queridíssimo Hermínio Bello de Carvalho.

    Tinha planejado ir ao Rio de Janeiro nesse segundo semestre de 2015, mas infelizmente não deu certo. A oportunidade seria ótima já que o Hermínio lançou dia 23 próximo passado, na Casa do Choro, seu livro “Taberna da Glória e outras Glórias”. O referido livro foi organizado pelo Ruy Castro. O consolo será a compra do livro.

    Sobre o Valzinho tive a oportunidade de homenageá-lo pelo seu Centenário de nascimento. Acho que você viu essa homenagem. Mesmo assim deixo o link para seus leitores, AQUI.

    Grande abraço.

     

     

     

     

     

    • Uma maravilha o seu post

      Seu trabalho, Laurinha, sempre teve peso para mim. Sei da sua paixão pela nossa música e o quanto você trabalha, pesquisa, lê, cria, configura, faz arte-final, escolhe o melhor repertório, enfim, tudo que um grande post deveria ter. Você também merece o adjetivo de garimpeira musical com muita honra. É sempre um prazer apreciar o seu trabalho, mesmo na ausência de meus comentários, algo que venho me afastando por opção e escolha. Pretendo me recolher ainda mais de agora em diante, além de pensar ser desnecessário uma vez que prefiro guardar minhas preferências na intimidade. Mas saiba você que entre os meus amigos (aqueles que me acompanham aqui), sua cotação é elevadíssima e muito elogiada. Seus posts, nota-se, não são simplemeste por postar, mas uma sublimação de tudo aquilo que você gosta de fazer prazerosamente, sem nenhuma vaidade, o que os torna ainda mais belos.

      Outro grande abraço, e obrigado mais um vez.

  3. Francamente!

    Este é post de música. Estamos diante de um dos maiores produtores musicais brasileiros, uma grande cantora e um compositor extraordinário. Aqui não é uma sacristia ou um confissionário para queixumes. Espere que seus posts sejam publicados e vai fazer suas reclamações lá. Eu quando tenho algum dissabor faço minhas críticas, xingo, brigo, pinto os canecos. Depois me sinto aliviado, perdoo, me penitencio e arrependo-me do que fiz. Ainda bem que eles devem estar acostumados comigo que já não me levam mais a sério. Mas faço tudo isso em meus posts e não em posts alheios. Ora, bolas! Que falta de sensibilidade. Francamente! Isso é lá comentários… Espero que você delete essa sua falta de consideração para que eu possa deletar o que acabo de escrever aqui. Obrigado.

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