A música instrumental vence, por Aquiles Rique Reis

A força sonora do álbum Ludere – Baden Inédito atesta o grande mérito do quarteto: rever um Baden Powell em todo o seu esplendor composicional inédito, mas sem ousar copiá-lo.

A música instrumental vence

por Aquiles Rique Reis

Eu acredito que vocês já perceberam o meu gosto pela música instrumental. Muito me admira a tenacidade dos músicos que se dedicam ao gênero – por vezes gerando atos solidários de uns para os outros. Um instrumentista ama o instrumento que toca, e, algumas vezes, torna-o seu sobrenome.

Atualmente já não é tão proibitivo gravar um CD. Normalmente, os álbuns desses caras são independentes e/ou com apoios. E a escolha do repertório está liberta dos pitacos “geniais” que costumavam rolar no aquário.

Eles vêm conquistando liberdades, como a de gravar as próprias músicas ou criar projetos que agreguem novas sonoridades, por exemplo. A verdade é que o instrumentista, infelizmente, ainda está longe de poder viver de seu ofício com distinção.

Dito isso, um compasso à frente, cuidarei de comentar o álbum Ludere – Baden Inédito (independente, com apoio do ProAc, prefeitura de São Paulo). O Ludere é um quarteto instrumental criado em 2015 pelo pianista e tecladista Philippe Baden Powell – filho de quem o sobrenome entrega. Com ele estão Rubinho Antunes (trompete e flugelhorn), Bruno Barbosa (contrabaixos acústico e elétrico) e Daniel de Paula (bateria e percussão).

Tudo começou com Philippe revendo e revirando obras inéditas de Baden Powell, desde composições inteiras nunca tocadas e abandonadas, até compassos de estudos inacabados.

A força sonora do álbum Ludere – Baden Inédito atesta o grande mérito do quarteto: rever um Baden Powell em todo o seu esplendor composicional inédito, mas sem ousar copiá-lo.

Os seus arranjos bebem na fonte de Baden, para, depois de se encharcarem com tudo que violonista concebeu, revelarem-se igualmente modernos e criativos. O Ludere tem personalidade.

Dentre cinco composições inéditas de Baden, agora redescobertas, ouve-se, também, músicas compostas por ele com três parceiros: Pretinho da Serrinha, Daniel de Paula e Eduardo Brechó. Além das participações especiais das cantoras Vanessa Moreno e Fabiana Cozza e dos instrumentistas Thiago Carreiri e Gabriel Grossi.

“Vai Coração” (Baden Powell e Pretinho da Serrinha) abre a tampa. Um suingue absoluto antecede a voz de Vanessa Moreno. Ela encara firme o balanço que, a essa altura, é total.

“A Lua Não Me Deixa” (BP e Eduardo Brechó) encontra na sustança da voz de Fabiana Cozza o vigor de um verdadeiro alicerce para sua interpretação incomum.

“Mergulhador” (BP) tem levada sossegada. “Choro Para Estudo” (Baden Powell) fecha a tampa. A participação especial de Gabriel Grossi com sua harmônica tem arranjo de endoidar.

A mixagem de Thiago Monteiro segue responsável por alinhavar os sons, dando a cada um a ênfase determinante na homenagem a Baden Powell.

Como as televisões, as rádios e as gravadoras são refratárias às músicas sem letras, por melhor que seja o compositor instrumentista, as portas costumam estar fechadas para ele. Obstinado, por vezes, a vontade de desistir deve bater forte – mas logo passa – e a música instrumental vence.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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