A propósito de Os miseráveis, por Walnice Nogueira Galvão

Por Walnice Nogueira Galvão

A sobrevida do romance de Victor Hugo enquanto musical norte-americano, que logo conquistou o resto do mundo e pode ser assistido também no Brasil, certamente é um fenômeno que merece exame. Pois, publicado em 1862, portanto há século e meio, é de admirar que ainda fale aos leitores e espectadores.

Vale dizer que Os miseráveis é a mais famosa das obras desse prolífico autor de ficção, poesia, peças de teatro, ensaios, panfletos, discursos, manifestos. Adaptada para outros gêneros, já virou peça de teatro, cerca de 20 filmes, musicais da Broadway, desenhos animados etc.

O romance começa pela Batalha de Waterloo (1815), em que Napoleão e a França foram derrotados pela coligação católica e monarquista da Santa Aliança (Rússia, Áustria, Prússia), mais a Inglaterra. Encerrava-se aí o período de vigência da Revolução Francesa (1789-1815) e se iniciava o retrocesso da Restauração monárquica, que chegou para revogar todos os direitos conquistados pelo povo. Uma digressão focaliza essa batalha, marcando a primeira metade do volumoso romance e a morte da Revolução. Mas na segunda metade assistiremos à ressurreição da Revolução  em outra digressão, sob a forma de uma barricada na Revolução de 1848 – mesmo ano do Manifesto comunista, de Karl Marx -, logo chamada de “A Primavera dos Povos”. Nesse ano, a revolução não mais se circunscreveu a um único país, alastrando-se por toda a Europa. Para Victor Hugo, esta barricada de 1848 é caracterizada claramente como o paradigma de todas as barricadas. O entrecho propriamente dito se detem longamente em outra barricada, esta em 1832, durante os levantes que se seguiram à instauração da Monarquia de Julho.

No pano de fundo deste amplo panorama histórico entra a narrativa ficcional, em que Jean Valjean é o protagonista e o Inspetor Javert seu implacável perseguidor. O romance prima por uma intriga enredadíssima e por reviravoltas de tirar o fôlego. O entrecho deslancha quando Valjean rouba um pão para matar a fome. Apanhado nas malhas do aparelho repressor, ao mesmo tempo carcerário e judiciário, desprotegido por ser pobre e ignorante de seus direitos, vai de queda em queda até passar 29 anos na prisão – e tudo isso por causa de um pão. Após a libertação, inicia uma vida dedicada ao bem e a ajudar os outros. Nem por isso o Inspetor Javert deixará de investigar seus rastros e persegui-lo sem descanso.

Há ainda um par romântico, constituído por Marius e Cosette, cujo namoro, marcado por encontros e desencontros, mantém o interesse e se encaminha para um final feliz.

Em suma, Os miseráveis apresenta-se como um painel das lutas populares do tempo de Victor Hugo, de que este grande militante participou, inclusive como deputado e senador várias vezes, sempre defendendo a causa do povo. Fora da situação até o golpe de estado de 1851 perpetrado por Luis Napoleão, que o deixou horrorizado e tangeu ao exílio, onde ficaria por 20 anos.  A partir do golpe passaria a integrar as fileiras da oposição.

Presidente eleito, Luis Napoleão Bonaparte, sobrinho de Napoleão, logo assumiria poderes ditatoriais, com a conivência da camada dominante, do judiciário e do Parlamento. Pouco tempo decorrido, seguindo o exemplo do tio, sagrou-se imperador. Victor Hugo, que inicialmente o apoiara, percebeu suas manobras e avisou os outros de que o golpe iria acontecer. Em vão.

No exílio, escreve Napoleão o Pequeno, livro em forma de panfleto violentíssimo historiando o golpe. O primeiro Napoleão era cognominado “o Grande”, apesar de ser baixinho. Seu sobrinho era alto e corpulento, mas, inevitavelmente, “o Pequeno”. O jogo de palavras entre tamanho físico e grandeza moral não passou desperbido a ninguém: era cruel mas merecido. Basta ver os retratos deste que inaugurou o Segundo Império – os uniformes cobertos de medalhas reluzentes, a bigodeira, o ar fátuo – para verificar que Victor Hugo tinha razão.

O Segundo Império terminou quando, mergulhando a França no caos e numa impensada guerra francoprussiana, o Imperador foi aprisionado pelo inimigo na batalha de Sedan, em 1870. Só aí Victor Hugo deixou o exílio e regressou a seu país.

 

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