A técnica violonística

Enviado por: Saulo Wanderley

Nassif,

Também acho Segovia datado. Indo além, como violonista, detectei que o problema da interpretação do instrumento no Brasil passa pela cronologia no ensino musical, não apenas do violão. Estuda-se História da Música, Harmonia, Contraponto e quase todas as matérias a partir do “congelamento” do som ainda em pergaminho, mais ou menos no século XI, época em que Guido D’Arezzo inventou a grafia musical. Vai-se do canto gregoriano a Bach, segue-se Wagner e raramente se chega a Stravinsky, que já é datado também. Inexoravelmente, a técnica fica abalada.

A partir da segunda metade do século passado, as escolas violonísticas passaram a sofrer a influência de Abel Carlevaro, com seus Cadernos de mão direita e esquerda educando o ouvido enquanto desenvolvem a técnica. Os ligados, por exemplo, começam por séries de segunda menor e evoluem sem o ranço do estudo antiquado dos intervalos. Seus frutos foram Leo Brower e seus contemporâneos, no Brasil os Abreu estavam no caminho. Acho também que o ensino do violão tem que ser de frente pra trás, ou seja, começando dos intépretes e compositores de hoje e voltando no tempo. Só assim se extrairá dos iniciantes suas principais potencialidades.

No começo dos anos 70, compus a trilha de uma coreografia chamada Pulsações, que ganhou o prêmio APCA, e ao final do espetáculo de estréia, teatro Galpão, veio um senhor me parabenizar, e pediu pra ver as partituras da trilha. Analfabeto musical, lhe disse que não tinha. Ato contínuo, ele me intimou: “Então você vai ser meu aluno, terça-feira às 9 em casa…” Lá chegando, um grupo se debruçava no chão sobre uma obra de Webern, composta em terças e nonas. E lá foi o analfabeto aqui perguntando: “o que é terça?” Depois de gargalhadas gerais, o senhor me apresentou um método de solfejo atonal chamado Modus Novus (de Lars Edlund). Foi a minha salvação. Abri os ouvidos para o dodecafonismo, serialismo e começei a aplicar tudo no violão.

Décadas depois coleciono alunos que também abriram os ouvidos e a técnica. A propósito, o senhor era Conrado Jorge Silva de Marco, compositor, engenheiro acústico, etc.. O problema é a velha separação entre erudito e popular, o não envolvimento dos violonistas com a Física Acústica e outros problemas que ainda persistem por aí.

Comentário

Nos arquivos do Blog vocês poderão encontrar alguns posts com links de apresentações de Carlevaro no Youtube.

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