A verdade que vem do pandeiro, guitarra e piano, por Maurício Gouvêa

Um Trio Instrumental que vem causando burburinho na cena musical carioca lança seu primeiro álbum autoral. Vale a pena conferir.

Um Trio Instrumental que vem causando burburinho na cena musical carioca lança seu primeiro álbum autoral. Vale a pena conferir.

A VERDADE QUE VEM DO PANDEIRO, GUITARRA E PIANO

por Maurício Gouvêa

Pandarra. Neologismo que traz consigo certa dose de mistério. É nome que provoca, desperta curiosidade. Sugere a possibilidade de ser qualquer coisa. Quer saber? No fundo, é por aí mesmo… as várias possibilidades da música. Vivê-la, compartilhá-la com quem se gosta. Aproximação que faz toda a diferença. Aproximação dos mestres, dos discos, dos amigos. E é assim que tudo cabe quando o companheirismo de três jovens abraça uma proposta musical que lhes toca o coração. O Trio Pandarra vem abrindo seus próprios caminhos, como um Orixá de si mesmo, olhando para a música brasileira sob o viés de um trio, no mínimo, inusitado.

Foi no seio da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), como disciplina de prática de conjunto sob a supervisão e talento do professor e músico Cliff Korman, que o trio nasceu. Unindo a vontade de tocarem juntos e a afinidade com o som de Scott Feiner, percussionista norte americano bastante antenado com o que acontece na cena musical brasileira, esta rapaziada foi capaz de introduzir o pandeiro, tão íntimo do mundo do samba, no contexto do jazz e pop instrumental.

E coube a Tom Andrade – percussionista que já dividiu palco com nomes como Joyce e Tutty Moreno, Roberto Menescal, João Donato e Carlos Malta – assumir este instrumento. Os temas são pensados tendo como base a peculiaridade do seu som, sua pegada certeira e a liberdade criativa da percussão tão brasileira que emana de suas mãos. Na outra ponta está Guilherme Imia, fazendo as seis cordas soarem ligeiras e nem um pouco convencionais. Guitarrista de referências variadas, que se encanta tanto pelas harmonias de Toninho Horta quanto pelas rendas vocais do canto coral brasileiro, ele pensa a guitarra de um modo muito peculiar. Dando a liga que faltava está Cadu Fausto, pianista formado pela Escola de Música Villa Lobos. Se a música erudita serviu como portal de entrada na busca pelo instrumento, foi no jazz e na música popular que ele encontrou sua voz nas teclas brancas e pretas. E juntos, nos palcos da vida, esses meninos acabaram por comprovar como esta ideia curiosa poderia ir longe.

Assim, a fonográfica trajetória da Pandarra, essa banda de três, não por acaso, começou com o lançamento de um álbum que a registra em plena ação: “AO VIVO NA CASA NAARA”, onde se debruçou sobre repertório alheio adaptado à sua formação pouco usual. Este álbum, também registrado em vídeo disponível no canal do Youtube do Trio (@PandarraOficial),  o levou para outra prateleira da cena musical. Tanto é verdade que, em maio deste ano, foi escolhida entre diversas bandas novas para abrir um show do pianista e compositor Amaro Freitas, em uma live espetacular que está disponível no canal do Youtube do próprio Amaro. E agora a Pandarra dá vida a seu disco totalmente autoral em todas as plataformas de música.

NA VILA” traz sete temas inéditos, dando margem a todo o potencial instrumental do Trio e encantando pela qualidade das composições. Esse mergulho em um processo criativo para uma formação tão particular só trouxe ganhos à proposta artística dos meninos. Os três integrantes se revezam em parcerias ou temas individuais, cobrindo um espectro variado das ricas vertentes da música brasileira. Do samba em “Gato Preto” ao baião presente em “Batuqueiro” e “Baião da Paciência” (este quase um “galope”, de tão acelerado), passando pela bossa saborosa de “Tiny Sweet Little Samba” ou o jazz progressivo da linda “Pois é… Bjo”. Por tudo isso, “NA VILA” é uma experiência deliciosa.

Os arroubos instrumentais se fazem presentes, mas sem nota jogada fora ou desperdício de suor musical. Os arranjos fluem surpreendentes, criando nuances e movimentos sempre inesperados para os ouvintes. Isso pode ser claramente percebido nas tramas de “Pé Dado”, onde piano, guitarra e pandeiro quase viram um instrumento só, ou ainda na balada “Pra Tonha”, um tema singelo que brinca de compassos alternados com tanta delicadeza que não se percebe o tanto de complexidade que a faixa encerra.

Gravado ao vivo no estúdio do próprio Trio (A “Vila” do título), este álbum expõe a verdade destes jovens e a determinação em fazerem música no Brasil de 2021. Da ótima capa de Katarina Assef (um registro de três quentinhas devidamente consumidas e o gato preto, mascote do Trio, testemunhando tudo) ao cuidado na elaboração dos temas, a história deste trabalho está só começando, com um direcionamento que não é outro senão o puro prazer de estarem juntos e levarem ao mundo a música que amam. Coisas boas surgem assim, da verdade. A mistura está feita e o sabor é provocante. E se a Pandarra ainda é um mistério pra você, vá descobri-la.

Maurício Gouvêa é colecionador, pesquisador e amante incorrigível da música brasileira.

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