A Viola de Samba e o Samba de Viola do Recôncavo da Bahia no acervo de Waddey, por Josias Pires

Parte do legado de gente como Cobrinha Verde, Clarindo dos Santos, Candeá, Zelita foi guardado por Ralph Waddey.

Violas fabricadas por Clarindo dos Santos, parede da casa de Ralph em Gloucester.

A Viola de Samba e o Samba de Viola do Recôncavo da Bahia no acervo de Waddey

por Josias Pires

O luthier popular Clarindo dos Santos (1922-1980) fabricava violas e violões, particularmente a viola machete, instrumento estimado pelos violeiros de samba chula do Recôncavo da Bahia. Vivendo entre Santo Amaro e São Francisco do Conde, Clarindo vendia suas violas – machete, três-quartos, viola paulista, violão moderno – num box do mercado de Santo Amaro. Ralph Waddey o conheceu em 1976, quando começou as suas pesquisas sobre a música africana e afro-americana na Bahia. Ralph recebeu as primeiras aulas sobre samba chula do mestre de capoeira Cobrinha Verde. O samba chula é também conhecido como samba de viola, samba de parada, samba de partido alto, samba santamarense e samba amarrado.

Ralph estudou o assunto. A variedade de nomes remete a sutis variações na música e na dança grupais e locais. No essencial, esta forma musical se diferencia de outras variantes mais conhecidas do samba pela ocorrência da chulae, também pelo uso das violas na sua execução. Ralph tornou-se freguês de Clarindo. Conta que comprou duas violas, que o acompanhavam nas andanças pelo Recôncavo em busca dos violeiros, sambadores e sambadeiras. Ralph esteve repetidas vezes com Clarindo e, antes de retornar aos EEUU comprou mais algumas violas, guardadas em sua coleção de instrumentos musicais.

Eram de Clarindo dos Santos as violas usadas pelo grupo de samba chula do Alto da Santa Cruz, em Salvador, liderado por Candeá (Antonio Moura da Silva), violeiro afamado, natural de Santo Amaro, informante precioso para Ralph Waddey, ao lado de Clarindo dos Santos. Bebendo dessas fontes e de outras que conheceu durante a pesquisa entre 1976 e 1978 na Bahia, e reunindo os seus conhecimentos de etnomusicólogo, Ralph Waddey escreveu dois ensaios: Viola de Samba, o primeiro, e Samba de Viola, o segundo, publicados na Revista de Música Latinoamericana, em inglês, v. 1, n.2., outubro 1980; e v. 2. n. 2, outubro 1981, Austin, Texas. O Viola de Samba foi traduzido pelo dramaturgo Nelson de Araújo e publicado na revista Ensaios/Pesquisas, n. 6, dezembro de 1980, do CEAO/UFBA.

Outra personagem importante para Ralph foi Joselita Moreira da Cruz Silva, mestra do samba de roda e madrinha da marujada de Saubara, sua terra natal, vizinha a Santo Amaro da Purificação. Ralph ampliou a pesquisa para além do samba incluindo a capoeira e os folguedos populares. Zelita foi filha de santo da casa de mãe Alice, esposa do mestre Bimba, no Alto da Santa Cruz, em Salvador. Zelita dançava no candomblé e nos sambas das festas de largo de Salvador e do Recôncavo.

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Todos os que a conhecemos ficávamos enternecidos com Zelita. Convivi com ela durante as atividades para o reconhecimento do samba de roda como patrimônio da humanidade. Foi o mesmo período em que conheci Ralph. Ativa no movimento para criar a associação de sambadores e sambadeiras, foi Zelita quem deu a ideia de nomear como Casa do Samba as sedes municipais que a associação planejou fazer na época. Ideia luminosa de Zelita que logo começamos a tentar construir o projeto da primeira casa do samba no prédio da estação de trem em São Felix, um monumento arquitetônico à época abandonado.

Ralph havia conhecido Zelita na década de 1970 convivido com ela tanto em Saubara quanto na Santa Cruz. Zelita era presença constante no samba de roda, na marujada, na capoeira. Zelita deixou o mundo dos vivos em 24 de março de 2016. Ralph nos deixou em 1 de agosto de 2019. Zelita era a madrinha da Marujada de Saubara. Ralph era uma espécie de marujo, o seu endereço eletrônico, inclusive, foi autonomeado de “[email protected]”.

Parte do legado de gente como Cobrinha Verde, Clarindo dos Santos, Candeá, Zelita foi guardado por Ralph Waddey. O seu acervo sobre a cultura afro-brasileira no Recôncavo se constitui de arquivos de áudio e vídeo (sambas chula, corridos, música de capoeira, de grupos de Reis e Marujada), ainda não digitalizados; acervo de negativos e slides fotográficos dos violeiros, dos sambas, dos reisados, da marujada; parte dessas fotografias foi feita por Gilberto Sena, companheiro de Ralph em muitas dessas andanças; há também o acervo de violas adquiridas por Ralph de Clarindo dos Santos; além de outros instrumentos musicais e equipamentos de gravação e edição de som.

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Alguns dados biográficos

Ralph Cole Waddey, nasceu em Cincinnati, Ohio, e se mudou para a Carolina do Sul quando tinha 3 anos de idade. Etnomusicólogo, músico, especialista em Relações Internacionais, intérprete de língua portuguesa, graduado em Ciências Sociais na Universidade de Georgetown (Washington, DC), viveu na Bahia em algumas oportunidades. A primeira como voluntário do Peace Corps em 1965. Em 1968, retornou aos Estados Unidos, onde iniciou seu programa de mestrado em Economia, Psicologia Social e Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade da Flórida (Gainesville, Flórida, EUA), onde obteve o título de Mestre em Artes em Estudos Latino-Americanos em 1973. Dez anos depois, enquanto doutorando (Ph.D.) em Musicologia na Universidade de Illinois, ele retornou à Bahia, quando fez as pesquisas acima referidas.

Na Bahia Ralph Waddey deu aulas e participou de concertos. Atento aos registros das suas atividades, Waddey guardou, p. ex., documento assinado pelo maestro Ernst Widmer, em 12 de novembro de 1976, atestando aulas de etnomusicologia ministradas por Ralph em forma de seminários durante o Festival de Arte Bahia 76, entre 19 e 30 de julho daquele ano. Antes disso Ralph havia dado aulas de etnomusicologia na Escola de Música da UFBA e atuado junto com o CEAO/UFBA na época dirigido por Guilherme de Souza Castro e Nelson de Araújo.

Ralph, Zelita, Betinho, Ana Alakyja (companheira de Ralph) e d. Ana dos Santos. Estas duas últimas fotos foram feitas na porta da sede da Marujada, em Saubara.
Ralph e Zelita; Betinho (padre capelão da Marujada) e d. Ana dos Santos (irmã de Zelita, mestra do samba, do candomblé e da marujada).

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