A volta de Nelson Freire ao teatro de sua estreia

Da Folha

Nelson Freire volta a se apresentar em teatro onde, aos cinco anos, estreou em concerto

RODRIGO LEVINO
ENVIADO ESPECIAL A SÃO JOÃO DEL REY

Em 30 de maio de 1950, quando se postou diante do acanhado piano do teatro municipal de São João Del Rey (MG), Nelson Freire mal conseguia encostar a ponta dos pés nos pedais do instrumento. Ele tinha cinco anos.

“Meus pais morriam de medo de que eu dormisse antes da apresentação à noite. A única coisa excepcional daquele dia, além de eu ter feito o meu primeiro concerto, foi eles terem me obrigado a dormir a tarde inteira”, contou ele, rindo, em entrevista à Folha, na coxia do mesmo teatro, 62 anos depois, na noite da última sexta-feira (29/6).

Para sua surpresa, o tal piano estava lá, encostado e desafinado. “Jamais esperaria encontrá-lo aqui. Estou surpreso demais”, confessou, enquanto dedilhava as teclas empoeiradas.

No sábado (30/6), Freire se apresentou por pouco mais de uma hora, comemorando a efeméride para um público de 450 pessoas, a capacidade total do lugar.

Os dois anos de descompasso em relação ao 60º aniversário da estreia, em 2010, têm razão de ser: foi só agora que a agenda do músico abriu a brecha na qual a festa foi encaixada. A ideia, no entanto, tem lá seus seis anos.

De passagem por São João, Freire comentou com um amigo que fora naquele teatro que ele se apresentara pela primeira vez, ainda menino de calças curtas, em um evento destinado a arrecadar fundos para a Santa Casa de Misericórdia da cidade.

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O pianista Nelson Freire em apresentação em São João Del Rey
GÊNIO PRECOCEOs irmãos Aline e Agbar Campos, à época com nove e 11 anos, respectivamente, dizem que nunca esqueceram o acontecimento. “Eu me senti humilhado, pequeno, diante daquele geniozinho”, conta Agbar, que em 1950 já estudava piano e foi levado ao concerto pelos pais.

Aline diz que o prodígio foi assunto na escola e em casa por dias e dias. “Quem viu e ouviu não se cansava de falar. Quem não viu se aferrava a relatos que corriam a rua sobre o menino que era um gênio tocando piano”, lembra.

O debute de Freire inaugurou também uma pequena turnê que ele fez em seguida, como uma espécie de despedida de Minas Gerais, onde nasceu (na cidade de Boa Esperança).

Ao fim do périplo, a família se mudou para o Rio de Janeiro, disposta a dar ao caçula temporão o ensino que a vocação demonstrada desde os três anos pedia. Foi nessa idade que Freire tocou as primeiras músicas, reproduzindo de ouvido o que escutava em casa.

“Não sei dizer como, mas eu já tocava Wagner, Liszt, Mozart e até uns boleros” contou, sem dar à escolha das peças que executou naquela noite, entre elas a “Marcha Tuca”, de Mozart, qualquer caráter excepcional.

“Sabe quando você pega jacaré na praia? Tocar piano era mais ou menos isso para mim, eu simplesmente ia”, disse o pianista, que anos depois se tornou a joia da coroa da música erudita no Brasil, consagrado mundialmente.

Os estudos de pelo menos duas horas diárias não o enfadavam.

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“Havia aquelas vezes em que eu estava mais preguiçoso e ficava fugindo. Mas a chamada para estudar era minha mãe que fazia, limpando com força tecla por tecla do piano. Eu cansava de ouvir aquele barulho e dizia: ‘Tudo bem, tudo bem, já estou indo’.”

DIA D

No sábado, Freire fez o que faz sempre em dia de concerto: isolou-se, concentrado.

Para começar o ensaio, repetiu um cacoete: tocou uma profusão de notas por segundo, como se pusesse à prova o virtuosismo que domina.

Chamado ao palco, executou peças de Mozart, Beethoven (compositor que Nelson Freire gravou na década passada pela primeira vez), Villa-Lobos, Granados e Chopin –este, flâmula de sua expertise.

Terminou ovacionado com emoção, exibindo um sorriso largo. Provou o dito popular que diz que do menino se vê o homem. Nelson Freire o era desde criança.

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