As diversas escolas da valsa

Enviado por: Carlos Henrique Mach

Nassif

Chiquinha Gonzaga fez lindas valsas. Ao meu ver, Nazareth é o grande nome da valsa brasileira. Jacob, quando gravou Fidalga, de Nazareth, mostrou o quanto de delicadeza e sutileza a valsa brasileira guarda.

Li um tempo atrás um artigo seu sobre técnica, em que você chama atenção de que é confundida com velocidade. Executar uma valsa exige muito do instrumentista. Raphael gravou lindamente Modinha de Tom e Vinícius, numa interpretação única de um verdadeiro virtuose. De uns tempos pra cá, os grupos de choro, os solistas em geral não têm gravado mais essas valsas delicadas.

Lembro-me que quando o Galo Preto e Os Carioquinhas gravaram os seus discos, tiveram a preocupação de trabalhar as muitas variantes do choro, com formas novas de leitura. Os Carioquinhas gravaram Santa Morena, de Jacob e aquela maravilha de valsa de Luiz Americano que encerra o disco. O Galo Preto gravou em seu primeiro disco, a ainda inédita naquela ocasião, De Coração a Coração, Pra mim, a mais linda valsa de Jacob.

Era muito comum os grupos de choro gravarem uma ou duas valsas em seus discos. Os grandes músicos como Jacob, Altamiro, Valdir Azevedo, Pixinguinha, Benedito Lacerda e etc. reservavam sempre espaço em seus repertórios para as valsas dolentes. Acho que a valsa passou por várias transformações na sua estrutura harmônica e seu peso rítmico a partir de Villa Lobos. Aquela maravilha dele chamada Valsa da Dor, Villa Lobos incorpora toda a alma da valsa em seu contorno sentimental, aprofunda esse sentimento na melodia e busca uma lógica harmônica com uma tensão que chega a rasgar a gente, como é bem típico de Villa Lobos. Acho que ele raciocinava assim, se é para doer, vou às últimas consequências, só pode ser. Ao mesmo tempo Villa Lobos tira a marcação acentuada da valsa. Acho que Tom e Edu seguiram essa trilha. Imagino que isso dá ao compositor mais liberdade para escolher notas com possibilidades harmônicas mais amplas. A gravação de Milton em Noite do Meu Bem, creio que com arranjo de Wagner Tiso, mistura esses dois universos da valsa, ela, composta na escola tradicional interpretada com o formato mais livre, ficou lindo. Por isso, insisto que as nomenclaturas muitas vezes carregam um sentimento de mudança estrutural, quando na verdade, a coluna que desenha as músicas matrizes brasileiras continuam ali, é só prestar um pouco mais de atenção. As Bachianas de Villa Lobos são essencialmente estruturadas na dolência das nossas valsas mais profundas. Acho que é aquela coisa da antropofagia mesmo que os nacionalistas defendiam com unhas e dentes.

O interessante Nassif, é que até hoje as valsas, quando são gravadas pelos novos intérpretes na canção brasileira, se destacam das demais no repertório daquele artista. Elis quando gravava, o país inteiro se encantava.

Mas é isso que você disse aqui, isso é um assunto deliciosamente longo, de viciar mesmo. Se deixar, passamos dias falando nisso, de manhã, de tarde e à noite. Enfim, a música brasileira é tão apaixonante que não basta compor e tocar, a gente sente uma necessidade danada de falar e falar. Por sinal, hoje a coisa vai esquentar em Brasília. O Galo Preto está indo ao Clube do Choro pela primeira vez comemorar o seu CD de 30 anos, no ano em que o Clube do Choro de Brasília comemora também os seus 30 anos. Imagino como não deve estar o papo lá entre duas grandes escolas de choro. A turma do Galo Preto, primeiro grupo de garotos a surgir na década de 70 na retomada do choro no Rio e que está cheio de vida e o Clube do Choro com o Reco e aquela turma da pesada com o gás todo com o Espaço Cultural do Choro que vem por aí. Está faltando só você pra botar mais fogo naquele palheiro.

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