Quando os Baianos Falam

Enviado por Antonio Ateu

Da BBC Brasil

Para Caetano e Gil, Brasil vive ‘renascimento de forças reacionárias’

Júlia Dias Carneiro

Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

A sintonia entre os dois é tamanha que vira e mexe um completa o pensamento do outro. Gil adivinha os fins de frase de Caetano e por vezes faz coro às suas últimas palavras como uma segunda voz.

Ou então a conversa de repente vira um pingue-pongue, com as respostas sendo construídas como uma canção.

Na tarde de uma quarta-feira, Caetano Veloso e Gilberto Gil se encontravam no amplo estúdio da Gegê Edições, produtora de Gil no Rio, para o primeiro dos ensaios para a turnê “Dois Amigos ─ Um Século de Música”.

O reencontro dos dois no palco acontecerá em 11 países europeus a partir de 25 de junho, começando por Amsterdã, na Holanda.

É mais um desdobramento da parceria visceral que nasceu em 1963, quando Caetano e Gil se conheceram na Bahia, à época estudantes universitários dando os primeiros passos na carreira.

Aos 72 anos, nascidos no mesmo ano com um mês e meio de diferença, um diz que não seria o que é hoje sem o outro.

“Se eu toco um pouco de violão, é porque vi ele tocar e copiei seus movimentos e tentei entender o que significavam”, diz Caetano sobre Gil.

Credito: BBC
Capa dos álbuns gravados por Caetano e Gil em Londres

“E se eu aprofundei a minha curiosidade sobre as palavras, a poesia, é totalmente por causa dele. Ele me ensinou a realmente explorar a minha alma em busca das questões humanas, sociológicas…É uma das pessoas mais profundas que já conheci.”

Meu Deus!”, reage Caetano à bajulação do amigo, e os dois irrompem em risos.

A música brasileira também não seria a mesma sem os dois.

A turnê agora comemora 50 anos de suas carreiras, data contada a partir da primeira gravação de cada um, em 1965 ─ somando um século de produção musical. É a primeira turnê que os dois fazem juntos em 21 anos, desde que apresentaram ao mundo o show ligado ao álbum Tropicália 2, em 1994.

Fim de ciclo

Nas décadas de carreira e amizade, Caetano e Gil passaram pela ditadura, protagonizaram a revolução cultural da Tropicália, compartilharam a dor e as descobertas do exílio em Londres, depois a alegria da volta para casa, viram a abertura política do país e acompanharam, criticaram e comentaram outros momentos-chave da história do Brasil.

Não é diferente com a situação atual, e os problemas políticos e econômicos enfrentados pelo governo Dilma. Os dois concordam que o momento é difícil e consideram que o ciclo do PT no poder está chegando ao fim.

Nas eleições presidenciais do ano passado, ambos apoiaram Marina Silva no primeiro turno. No segundo, Caetano acabou votando em Dilma; já Gil, que foi do governo petista por cinco anos como Ministro da Cultura de Lula, não apoiou a permanência do partido.

“Eles (o PT) já estão no poder há mais de 12 anos. Estamos querendo uma movimentação, uma mudança. Outros grupos, outro conceito, um outro planejamento para o Brasil na liderança”, diz Gil.

“Votei na Dilma porque todos aqueles grupos de direita estavam se unindo contra ela, e eu não simpatizava com eles”, afirma Caetano.

“Mas acho que tudo agora parece indicar um final de um ciclo.”

O fim de ciclo já era aparente no ano passado, considera Caetano, mas o PT ganhou mais uma vez ─ e neste ano vieram as reações mais expressivas: o panelaço e os protestos nas ruas pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Onda conservadora

Nas manifestações de março e abril nas ruas de cidades do país todo, Caetano, que como Gil foi preso pela ditadura em 1968, diz ter se revoltado com a presença de grupos que defendiam a volta das Forças Armadas e uma “intervenção militar já”.

“Isso para mim é ofensivo. É ofensivo à minha sensibilidade e à minha inteligência”, diz Caetano.

“E à sua história”, completa Gil.

“E à minha história”, concorda Caetano.

Credito: BBC
“Estamos querendo movimentação, mudança”, diz Gil sobre o governo

“Aquilo ali era uma coisa de algumas pessoas, uma maluquice. Mas é sintoma. Há uma questão no mundo com isso mesmo, o renascimento de forças nitidamente reacionárias. A questão não é que elas sejam conservadoras. O problema é que são reacionárias, são forças de reação a qualquer progresso.”

O sintoma se apresenta também no Congresso. Caetano afirma que o crescente poder do Legislativo na esteira do enfraquecimento do governo Dilma vem trazendo uma movimentação conservadora “meio apavorante”.

“Esses projetos que estão sendo votados no Congresso são horríveis, eu não gosto dessa movimentação, desse negócio ─ diminuição da maioridade penal, bancada da bala, essa tentativa de restringir mais ainda o aborto, não abrir para uma legalização do aborto. Toda essa tendência conservadora, essa pauta”, afirma.

Nas movimentações em curso, ele diz ser evidente que também estão em jogo projetos políticos dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros.

“Principalmente do presidente da Câmara (Cunha), que você vê que tem muito futuro político, e é mais moderno. Mas é um modernismo conservador, meio apavorante. Não me sinto bem com o que está acontecendo ali.”

Selfie vira autógrafo

A conversa passeia por outros fenômenos dos tempos modernos, como as pegadinhas do corretor ortográfico no celular. Um conta para o outro o causo de um amigo que sempre acaba chamando uma moça de “moca” no WhatsApp, e ambos riem da sonoridade do neologismo digital, móca em vez de moça.

E chegam à conclusão de que o ‘selfie’ substituiu o autógrafo, já que agora por onde passam as pessoas em vez de sacar a caneta sacam o smartphone, e se ajuntam aos ídolos no quadro. “É melhor, para não ter que escrever”, brinca Gil.

Do imenso repertório dos dois ao longo dos últimos 50 anos, apenas 22 canções estarão na turnê. A escolha ainda está em aberto, mas músicas como Esotérico, de Gil, e Desde que o samba é samba, de Caetano, são algumas certezas.

Projetos que estão sendo votados no Congresso são horríveis, diz Caetano

A dupla cedeu ao pedido da reportagem e tocou uma música para a BBC Brasil. Caetano puxou uma das canções que compôs durante o exílio em Londres, Nine Out of Ten, em que diz estar caminhando sobre a hoje famosa Portobello Road ─ e sentindo-se vivo.

Na época em que morou na região de Notting Hill Gate, lembra o cantor, o bairro estava bem longe da gentrificação de hoje e era um reduto de classe média baixa.

Na Portobello Road, imigrantes jamaicanos se reuniam para tocar um gênero que fascinava Caetano e o levava a caminhar sempre pela rua para escutar. Depois veio a descobrir o que era: o reggae.

Petição contra show em Israel

O show passa por Londres e também por cidades como Lisboa, Bruxelas, Milão – além de Tel Aviv. E é este o ponto polêmico da turnê.

Uma petição que vem circulando pelas redes sociais – e já conta com mais de 12 mil assinaturas pede que Caetano e Gil cancelem o show programado para 28 de julho em represália às políticas de Israel em relação às regiões palestinas.

“A data coincide com o aniversário de um ano dos ataques de Israel a Gaza, nos quais mais de 2 mil palestinas e palestinos foram mortos”, afirma o abaixo-assinado online divulgado pela organização Change.org e compartilhado pelas redes sociais.

“Tocar em Israel é endossar políticas e práticas racistas, coloniais e de apartheid”, continua, concluindo com o apelo: “Tropicália não combina com apartheid!”

A petição foi criada pelo grupo Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel (BDS), que apoia a causa palestina.

Gil afirma que se manteve indiferente ao apelo.

“Nós o consideramos. Nós refletimos sobre os argumentos. São argumentos fortes, e verdadeiros até certo ponto. Não a ponto de que devemos considerar Israel uma sociedade de apartheid. É um regime democrático. Tenho empatia pelo povo, já estive lá tantas vezes. E nas duas últimas vezes em que fui tocar lá também enfrentei objeções, com o mesmo tipo de movimentação internacional para me dissuadir de ir. Mas nós vamos”, diz Gil.

E considerariam levar a turnê aos territórios palestinos como contraponto?

“É claro! Estou só esperando o convite”, afirma ele.

‘Oportunidade de originalidade’

A despeito da difícil conjuntura atual e do clima de pessimismo com o país, Caetano desdenha do entusiasmo desenfreado que o Brasil despertava no exterior alguns anos atrás.

“Quando vi aquelas capas de revista, a capa da Economist com o Cristo Redentor decolando, achei um exagero”, diz. “Então espero que o pessimismo que vemos hoje seja um pouco exagerado também.”

“O Brasil pode ser uma experiência muito importante de vida social”, diz. “Pode ser. É horrível como é, tem muitas coisas horríveis em sua história. Mas acho que é uma oportunidade de originalidade. Temos essa responsabilidade e devemos encará-la”, afirma ele.

Essa mensagem que o Brasil teria a dar para o mundo ainda não é clara, porque não foi articulada, diz Caetano. “Ainda é um rascunho. Mas o Brasil pode ser uma experiência diferente.”

“Somos esse país gigante no hemisfério sul. Temos uma enorme mistura racial. Somos latino-americanos, mas não formamos uma unidade com o resto da América Latina, porque falamos português. Fomos uma monarquia até tarde demais, a escravidão foi abolida tarde demais. Mas tudo aponta para uma situação única e original com vantagens e desvantagens. E tudo que é bom no Brasil poderia ser combinado de uma maneira mais equilibrada para que realmente possamos dizer algo… com um tom doce”, afirma ele, enfatizando as últimas palavras na voz macia e musical.

“Agora que o mundo está finalmente consciente de que a ‘maciez’ também é um atributo, de que ‘softpower’ também é poder, acho que o Brasil tem muitos ingredientes para se afirmar”, completa Gil.

*Alguns trechos da entrevista foram concedidos em inglês para veiculação na BBC News.

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15 comentários

  1. Leveza

    Caetano, principalmente, parecia não estar entendendo a seriedade do que estava em jogo nos últimos anos no país. Agora se espanta com o “renascimento das forças reacionárias”. Essa incompreensão se repete agora em relação a Israel, expressa na “leveza” com que trataram do assunto.

  2. Afilhado deToninho Malvadeza criador do Daniel Dantas.

    Caetano deu força para os black blocs, botou máscara na mídia pig, que estava torcendo para mais baderna, como o Jabor o Boechat, depois diz que ficou assustado, sempre foi FHC.

  3. Não sei se Caê está sendo

    Não sei se Caê está sendo inocente, dissimulado ou pouco inteligente. Mas não tem como negar que ele, ao lado dos Lobões da vida, se aliou ao lado sombrio da política brasileira que está desaguando nesse ambiente sombrio que agora critica. Assuma, Caê, e recupere a enorme credibilidade e liderança que sempre teve na cultura brasileira. Olha o papel bonito que o Jô vem fazendo desde o ano passado. 

  4. Apesar de toda a obra

    Apesar de toda a obra musical, e de todo a historia de vida, perderam o bonde e estão correndo atras para pega-lo; e que fim de ciclo? Quem tem de novo por aí? Marina preferida dos estadunidenses? Aecio quase um? Serra e a sua obsessão em tirar o pre sal da petrobras? O geraldo e a sua pane seca? Tem ninguem não.

  5. Fim do ciclo

      Só eu que acho uma expressão pra lá de esquisita ? parece  saída do repertório do Wanderley Luxemburgo. Como o ciclo é algo que se repete no “fim” dele se encontra o começo, ou seja lula 2018 como em 2002, qua qua qua.

       Se existe a onda reacionaria contra a Dilma essa história de fim do ciclo é que dá força pra isso, e se ela existe é sinal também de que existe a direita surfando essa onda pra derrubar a esquerda, é sinal que marina mente com seu falso emcimadomurismo, é sinal que não é o fim da história e que os dois fazem papel de bobo com esse papo qualquer coisa, tem que se decidir se vai seguir a manada ou por seus cornos acima dela pois não dá pra seguir o panelaço gourmet, dizer que tá querendo uma “outra movimentação”(seja lá o que for isso) pra posar como quem tá orientando o carnaval e depois reclamar da onda reacionária, não sentiram as vibrações cósmicas dessa onda ao pressentir o fim do ciclo petista pela glândula pineal ? por demais esotéricos, Zelberto e Caretano.

  6. Quando os baianos falam não dizem nada. Só quando cantam

    ‘É uma das pessoas mais profundas que conheço”. Errado, Caetano é o superficial mais profundo que conheço. Ou o profundo mais superficial. E porra loca também. É só ver isso:

    “Principalmente do presidente da Câmara (Cunha), que você vê que tem muito futuro político, e é mais moderno. Mas é um modernismo conservador, meio apavorante”

    Tem que ser muito “poeta” para ver alguma modernidade no Cunha. Esse tipo de político existe no Brasil desde a República Velha. De qualquer forma, o Caetano está mostrando mais consistência que o seu parceiro de babação de ovo. O Gil é de uma retórica tipo Rolando Lero.

    Mas o melhor mesmo é passar batido pela “caetanália e gilbertália”. Cadê a música? 

  7. Brincadeira…

    Aí os caras apoiam Marina Silva, que mudou seu programa de governo sob ordens do Malafaia, e depois criticam a onda conservadora.

    O Caetano chamou Lula de cafona, grosseiro e analfabeto, reverberando as críticas mais preconceituosas dos conservadores, e agora reclama do conservadorismo? O cara que considera que elegância e refinamento são mais necessários a um presidente do que qualquer outra coisa agora quer reclamar da idiotice do conservadorismo?

    Só pode ser brincadeira…

  8. Mercenários

    Mercenários hipócritas$$$$$$$$. Vão se apresentar em Tel Aviv, a capital mundial das forças mais reacionárias, o bunker dos piores genocidas. E têm o cinismo de dizer que também tocariam nos territórios palestinos se fossem chamados. Como se aquele povo tivesse tempo, dinheiro ou ânimo para assisti-los. Os palestinos estão ocupados chorando seus mortos e sobrevivendo nos escombros das suas casas, sem água, sem comida. O Roger Waters perde seu tempo em mandar carta pra esses dois. O icônico baixista do PF não sabe que artista brasileiro, com raríssimas excessões, é tudo bundão e mercenário. Realmente é o fim de um ciclo: o deles dois.

  9. E …………….

    Como podem ser tão dissimulados ???????? Fazem um jogo de palavras que, aos mais incautos irá parecer inocentes!

    Mas na realidade, não passam de “inocentes úteis” querendo convencer os verdadeiros inocentes !!!

    Haja saco !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  10. Veio nas aguas do Collor um tremendo ficha suja

    Falar do Cunha o que Caetano falou “””que você vê que tem muito futuro político, e é mais moderno.””‘

    O Cunha é homofóbico, quer a redução da maioridade penal, quer continuar com a farra das propinas das empreiteiras para os políticos, tem compromisso com as bancadas da jaula, da bala, não presa a democracia se comporta como um tiranete.

    Mas ai, vem o mano Caretano falar essa merda? Que que houve Caê, encaretou de vez? Pede logo a volta da ditadura seu *****  ,virou Caetanalha e Gilbertalha, como disse um amigo aí em baixo, que vexame.

  11. Sionismo é racismo.

    https://vimeo.com/16964562     Nesse vídeo, podemos entender que o sionismo foi uma força pólítica necessária para Israel conquistar seu território. Mas depois de criado o Estado de Israel, o sionismo político virou uma praga, destruiu e tomou o território Palestino, quer guerra contra o Islã, foi considerado racismo pela ONU, houve protestos no  Brasil, partindo do Collor e daquele rabino rico que foi flagrado roubando gravatas de grife, e foi o mesmo que não queria que o jornalista Herzog, fosse enterrado num cemitério judeu, pois ele assinava em baixo dos fascistas que mataram, e diziam que Hezog havia se suicidado, flagrante e patética mentira.

     

  12. Verbo no passado.

    “Votei na Dilma porque todos aqueles grupos de direita estavam se unindo contra ela, e eu não SIMPATIZAVA com eles”, afirma Caetano.    Agora cai de amores pelo Cunha, Malafaia, Bolosonaro, Kataguri, E OUTROS IDIOTAS.

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