Carmina Burana em Pequim, por Walnice Nogueira Galvão

Os poemas de base da cantata constam do códice manuscrito descoberto em 1803 no mosteiro beneditino de Buren, ou Beuern, na Baviera/Alemanha (donde Carmina Burana, ou, em latim, “versos de Beuern”), preservado na Biblioteca de Munique.

Carmina Burana em Pequim

por Walnice Nogueira Galvão

A Deutsche Grammophon, uma das mais antigas e mais sérias gravadoras de música erudita do mundo, celebrou com um espetacular concerto seu 120º. aniversário. O local escolhido foi a Cidade Proibida, em Pequim, o palácio de 10 mil aposentos da linhagem imperial chinesa, situado na Praça Tianamen ou da Paz Celestial. Ao ar livre instalou-se a orquestra, acima de uma escadaria toda de mármore esculpido e tendo ao fundo um imponente pavilhão. O programa, transmitido pela Film & Arts,  culminou com a belíssima cantata Carmina Burana, de Carl Orff.

A execução coube à Orquestra Sinfônica de Xangai, sob a batuta do maestro Long Yu. Quanto às vozes, estiveram a cargo de um coro europeu e de um coro infantil chinês. Os três solistas eram  a soprano russa Aída Garifullina, o tenor Toby Spence e  o barítono Ludovic Tézier. Que chineses, japoneses e coreanos são grandes intérpretes da música clássica do Ocidente não se discute, tanto na  instrumental, como no bel canto e mesmo no balé.

Era noite e dava para ver que fazia frio, pois  espectadores e músicos estavam bem agasalhados. A soprano portava casacão branco e botas, enquanto as crianças tinham ao pescoço grossos cachecóis de lã.

Os poemas de base da cantata  constam do códice manuscrito descoberto em 1803 no mosteiro beneditino de Buren, ou Beuern, na Baviera/Alemanha (donde Carmina Burana, ou, em latim, “versos de Beuern”), preservado na Biblioteca de Munique. Esses jovens poetas eram uma classe especial de pessoas, abundantes nos tempos medievais, chamadas em latim clerici vagantes, clérigos vagantes, ou andarilhos. Havia numerosos estudantes das ordens religiosas, porque estas eram viáveis para quem precisasse de sustento e  de profissão. Por enquanto viviam de esmolas e doações, exibiam-se como saltimbancos e jograis; muitos eram desertores ou prófugos. Os estudantes – tanto os leigos quanto os futuros noviços e monges – recebiam aulas por toda a Europa, especialmente nas mais tradicionais universidades, como as de Bolonha, Paris e Oxford, e não num só lugar. Viviam vagando de cidade em cidade, ou aonde encontrassem guarida, enquanto não tomassem um rumo na vida, o que boa parte deles não tomaria mesmo. Também eram chamados de goliardos.

Os poemas estão em latim macarrônico e alguns em médio-alto-alemão – sim, porque o ensino que recebiam era em latim, língua franca da Idade Média, ao tempo em que as línguas vernáculas ainda não estavam consolidadas nem eram consideradas civilizadas. Falam das aspirações normais da juventude: esperança no futuro, anseios de liberdade e de divertimento,  canções de beber, com loas à comida e ao vinho, amores e temores, anátemas ao dinheiro,  cantos orgiásticos e elogios à primavera, sentimento do mundo, medo do inferno e da morte. Quase sempre mostram-se irreverentes e satíricos, até fesceninos, mas alguns bordejam mesmo o trágico.

Os estudiosos se surpreenderam com a intensidade e alta qualidade desses poemas, originários dos séculos XI, XII e XIII: tanto que acabaram por serem absorvidos pelo cânone estético da Idade Média. Nesse novo panorama, trazido pela descoberta do códice, o já conhecido grande poeta francês François Villon do séc. XV, um clérigo que também era aventureiro, delinquente, ladrão e marginal, seria incorporado como o último goliardo.

O compositor alemão Carl Orff, subjugado pelo encanto desses 254 poemas, fez uma seleção contemplando todos os gêneros, afinal escolhendo uns dez por cento deles, ou 24 ao todo.  A cantata estreou em 1937. Música vigorosa, cheia de energia, moderna e de vanguarda, original no escopo e na realização, tornou-se uma favorita nos concertos, fazendo jus aos poemas.

Na Sala São Paulo ouviu-se Carmina Burana num especial de Natal, quando Marin Alsop regeu a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, assessorada por dois coros adultos (Osesp e Acadêmico Osesp) e o infantil da Osesp. A execução deixou o público arrebatado.

Regia o coral a maestrina Naomi Munakata, a maior responsável pela qualidade das vozes da Osesp, que ensaiou e regeu por vinte anos. Foi uma das primeiras vítimas de coronavirus  e  lamentamos sua morte precoce, logo no início da pandemia.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora