Centenário de Noel Rosa

Do Valor

O feitiço de Noel

Por Zuza Homem de Mello, para o Valor, de São Paulo

Carro alegórico da Unidos da Vila Isabel, que homenageia os cem anos de nascimento de Noel Rosa: ele pode não ter sido o melhor compositor popular de seu tempo, mas foi o mais importante

O que causa espanto na obra de Noel Rosa não é apenas o colossal avanço que ela deu às letras da canção brasileira. É fato que não há como comparar as crônicas primorosas e rimadas do cotidiano, contidas em seus imaginosos versos musicados, com as tentativas de ressaltar com ingenuidade um ou outro episódio meramente curioso, que é o que existia nos sambas de seus antecessores. Nem há, por outro lado, como cotejar esse mesmo repertório anterior a Noel com o de suas canções sobre as vicissitudes da paixão, valorizadas por originais toques de ironia, que estabeleceram padrão elevado na música popular. A partir de Noel altera-se o nível de exigência para o que viesse a ser criado por seus contemporâneos e por autores posteriores.

Também causa espanto, e agora na vida de Noel, o desconcertante enredo com episódios insólitos, hilariantes e tragicômicos que delinearam sua breve existência, causa espanto a trajetória desse artista da classe média carioca descuidado com os atos da rotina, o que lhe custou a própria vida.

O mais espantoso, porém, é que essa obra, de aproximadamente 260 canções que atravessaram os anos sem que muitas tenham envelhecido, foi elaborada num espaço de tempo inacreditavelmente curto, apenas sete anos. Uma pesquisa na música popular universal provavelmente revelaria não haver outro caso de uma relação semelhante. Sem esquecer que essa produção, com dezenas de obras-primas, foi elaborada por esse prodígio da nossa música entre seus 20 e 26 anos. Com efeito, teoricamente surgiam a cada ano mais que 30 canções inéditas, algumas delas criadas rapidamente nas mais inesperadas situações.

Certa vez, Noel foi apresentado pela dona de uma festa no bairro da Tijuca à moça que havia namorado tempos antes. Ao lado de seu novo namorado, para surpresa do ex, ela tentou encobrir o romance anterior assim se expressando: “Prazer em conhecê-lo”. Noel ficou zonzo, jururu num canto, abandonando a festa com seus amigos logo depois. Foram diretamente a um bar do centro e, num papel que pede ao garçom, escreveu apressadamente a letra de “Prazer em Conhecê-lo”:

“Quantas vezes nós sorrimos sem vontade/ com o ódio a transbordar no coração/ por um simples dever da sociedade/ no momento de uma apresentação./ Se eu soubesse que em tal festa te encontrava/ não iria desmanchar o teu prazer/ porque, se lá não fosse, eu não lembrava/ de um passado que tanto nos fez sofrer (…) frente a frente/ naquele instante, mais frios do que gelo/ mas, sorrindo, apertaste minha mão/ dizendo então/ tenho muito prazer em conhecê-lo (…) que mais prazer/ eu teria em não te conhecer.”

O caso ilustra a facilidade de Noel em tirar partido de uma situação por ele vivida horas antes não só para descrevê-la com admirável forma rítmica e rimada, mas ainda acrescida de uma reflexão final que se enlaça com a melodia criada, nesse caso com a colaboração de Custódio Mesquita. Tão frequentes eram tais arremates em suas letras, semelhantes às conclusões de fábulas de La Fontaine, que Noel seria futuramente apelidado de o filósofo do samba (“Ninguém aprende samba no colégio (…) quem suportar uma paixão/ sentirá que o samba então/ nasce do coração”).

Como seus contemporâneos compositores – sobretudo Lamartine Babo, Ary Barroso e João de Barro – Noel confiava no que ocorria em seu dia a dia, em sua cidade ou até no exterior a fim de colher inspiração para as marchinhas de Carnaval, as emboladas, os foxtrotes, as valsas e, principalmente, para o gênero em que se tornou mestre, o samba, em andamentos diferentes. Numa ponta, os tipicamente batucados (alguns em parceria com Ismael Silva, iletrado musicalmente, porém um dos bambas criadores da seminal batida denominada de “samba do Estácio”) e, na outra, os sambas lentos de caráter lírico (alguns em parceria com Vadico, pianista/arranjador paulista com sólida formação musical e compositor de harmonias refinadas para suas envolventes melodias). Muitos desses últimos se constituiriam no que seria, anos depois de sua morte, reconhecido como o samba-canção. É o que confere a Noel Rosa a condição de verdadeiro precursor.

É bem possível que esse pioneirismo estilístico, essa inventividade em tantos elementos de uma composição, seja a razão de Noel não ter tido o sucesso merecido em vida. Seu comportamento desregrado entregue à boemia atuando como artista de rádio nas incipientes emissoras da época e varando madrugadas pelos bares e cabarés cariocas deram-lhe em vida um estigma que superou sua atuação como compositor. Aliás, como afirmou o jornalista João Máximo, profundo conhecedor da matéria, “Noel Rosa pode não ter sido o melhor compositor popular de seu tempo, mas foi o mais importante”. Máximo lança, agora, o livro “O Morro e o Asfalto no Rio de Janeiro de Noel Rosa” (Editora Aprazível, 204 págs., R$ 140,00).

Noel implantou um novo estilo na música popular, o estilo que acabou vingando na obra de grande parte dos mais conhecidos compositores brasileiros: o do samba urbano, com melodias requintadas e novos motivos poéticos. Seus versos ora coloquiais, ora críticos, ora líricos, ora humorísticos, ora satíricos e muitas vezes filosóficos, moldam esse estilo. Há composições sob a forma epistolar (“Cordiais Saudações”), há rimas surpreendentes (pinote com foxtrote, chute com vermute, orquestra com Palestra), há rimas internas (grito tão aflito, gerente impertinente), referências de época (cerveja Brahma, Gandhi, o telefone 344333), de local (Piedade, Cascadura, Penha), gírias (dar um beiço, funil), há expressões que se consagraram (com que roupa?), há artifícios curiosíssimos, como o gaguejar de um personagem (“Gago Apaixonado”), brincadeiras gramaticais (Picilone) e anatômicas (Coração) e naturalmente existem as emocionantes citações sobre o bairro em que nasceu, viveu e morreu: “São Paulo dá café/ Minas dá leite/ mas a Vila Isabel dá samba”.

Não foi senão mais de dez anos após sua morte aos 26 de idade que a maturidade da obra de Noel começou a ser reconhecida em sua magnitude. Deveu-se a uma iniciativa inédita na fonografia brasileira a partir da gravadora Continental dirigida por João de Barro, de quem fora parceiro. Em plena fase dos discos de 78 rotações, embalados individualmente em envelopes pardos e de mínimo interesse gráfico, foi produzido em setembro de 1950 um álbum em capa dura com a ilustração, assinada por Di Cavalcanti, de um seresteiro tocando violão e textos internos de Lúcio Rangel e Fernando Lobo contendo três discos. As orquestrações foram caprichosamente elaboradas por Radamés Gnattali e a interpretação entregue à mais indicada para cantá-las, sua amiga Aracy de Almeida.

O timbre anasalado e a inflexão evocativa da voz de Aracy (cuja intimidade com a obra de Noel vinha desde 1935 com a gravação de 14 de suas composições) deram uma vida que poucos imaginavam existir nos sambas-canção que dominavam o repertório – “Feitiço da Vila”, “Último Desejo”, “Não Tem Tradução” e “X do Problema” com acompanhamento de cordas e flauta – e nos outros dois sambas – “Palpite Infeliz” e “Conversa de Botequim”, com Aracy escorada pelo Quarteto Continental, na verdade o Quarteto de Radamés com ele (piano), Zé Menezes (guitarra), Luciano Perrone (bateria) e Vidal (contrabaixo).

Uma vez reativada, a chama da obra de Noel provou ter mais gás do que se supunha, e esse produto exemplar provou como uma gravadora pode ter peso nos rumos da música popular de um país quando dirigida por quem é da música. O samba-canção se expandiria notavelmente no período que o historiador Jairo Severiano reconhece como da modernidade.

Os direitos de autor duram por 70 anos contados de 1º de janeiro do ano subsequente à sua morte. Portanto, no caso de Noel Rosa, até 1º de janeiro de 2008. Nem por isso deixaram de ser produzidas várias antologias nos formatos de LP e CD muito antes que a obra de Noel caísse no domínio público.

A etiqueta carioca Rádio estreou no mercado fonográfico em 1953 com o long-playing de 10 polegadas “Poeta da Vila” contendo oito composições suas em arranjo de Aldo Taranto e cantadas por Marília Batista, sua intérprete quando ele vivia.

Provavelmente entusiasmada com o êxito do álbum de Aracy, a EMI-Odeon lançou ainda nos anos 50 o esplêndido LP “Noel Rosa e Sua Turma da Vila” com gravações anteriores em que ele cantava meia dúzia de seus sambas (“João Ninguém”, “Onde Está a Honestidade”, entre outros). Um precioso documento, já que a voz do autor veio a público em vinil pela primeira vez. Por meio de sua etiqueta mais popular (Imperial) foi compilado, em 1971, outro LP contendo 12 gravações também reconstituídas das originais, interpretadas pelo próprio Noel, entre as quais “Conversa de Botequim”, “Com Que Roupa” e “Cordiais Saudações”. Mesmo não sendo considerado grande intérprete, numa época em que os compositores eram ignorados e as músicas, vinculadas aos cantores, Noel canta mais solto e com mais graça que grandes cartazes do rádio e do disco de então. Pode-se constatar ter sido ele próprio o grande intérprete de sua obra.

Quatro anos depois, a Continental lançou também um vinil: outras seis gravações com o autor cantando novamente com sua voz diminuta no lado A da compilação incluída na série “Ídolos MPB”, organizada por J.L. Ferrete.

Em 1966, Maria Bethânia lançou o compacto “Bethânia Canta Noel”, que seria estendido como parte de um LP de 12 polegadas.

Nos anos 80, a gravadora Eldorado entrou em cena por meio da atuação de seu diretor Aluízio Falcão com dois álbuns originais. O de 1983, “Inédito e Desconhecido”, tem a chancela dos produtores João Máximo e Carlos Dider (Caola), autores da mais completa biografia sobre o compositor, “Noel Rosa, uma Biografia”, lançada em 1980. Violonista e cantor do conjunto Coisas Nossas, Caola é um fino intérprete do repertório noeliano. O projeto seguinte foi a primeira gravação completa da opereta “A Noiva do Condutor”, tendo Marília Pêra e Grande Othelo como intérpretes principais.

O grupo vocal MPB4 gravou com capricho o LP “Feitiço Carioca” e, na mesma década, um álbum com 26 músicas divididas entre gravações originais dos anos 30 e novas versões com cantores como Paulinho da Viola e João Nogueira (dois de seus mais destacados intérpretes) foi o valioso brinde distribuído em 1982 pela Fenab do Banco do Brasil.

Em 1991, Almir Chediak produziu o “Songbook “, a que se seguiu um álbum duplo, ainda em vinil, com 22 canções gravadas na época por um elenco de estrelas como Tom Jobim, Gilberto Gil, Gal Costa, João Bosco, Djavan e Chico Buarque, citado no início da carreira como um novo Noel.

Na era do CD, há igualmente vários destaques. O primeiro é de 1995, o singelo “Sem Tostão… A Crise não É Boato”, reunindo a cantora Cristina Buarque e o violonista Henrique Cazes, que, numa gravação ao vivo, prestaram um emocionante tributo a Noel Rosa entremeando os sambas com divertidas histórias sobre as aventuras do autor. O cantor Zé Renato, uma das mais lindas vozes brasileiras, dedicou-lhe o CD “Filosofia”. Em 1996, foi lançado “Coisas Nossas”, com nomes de menor projeção que o “Songbook” e resultado heterogêneo. No ano seguinte, um dos mais curiosos CDs dedicados a Noel. Poucos imaginavam que alguém como Johnny Alf pudesse se identificar com sua obra, que ele gravou em competentes arranjos do pianista Leandro Braga.

Quem também se debruçou surpreendentemente sobre Noel Rosa foi o compositor Ivan Lins numa caprichada produção de dois CDs intitulados curiosamente “Vivanoellins”, associando num “jeux de mots” seu nome a “Viva Noel”. Ivan Lins registrou sozinho ou com convidados nada menos que 36 canções em arranjos que, mesmo fugindo ao convencional, têm o mérito de não ferir o espírito da obra.

O mais importante documento gravado no formato CD é “Noel pela Primeira Vez”, a coleção de 14 CDs com 229 composições de Noel Rosa em suas versões originais, lançadas em 2000 pela gravadora Velas com apoio da Funarte, numa idealização de Omar Jubran. Um verdadeiro monumento à obra do compositor, referência obrigatória para qualquer trabalho em torno dele.

Com tão bem-intencionadas antologias, a obra de Noel Rosa foi preservada depois de sua morte por meio dessas novas gravações das numerosas canções compostas nos sete breves anos em que viveu bem mais para a boemia e o samba do que para si.

Após tentar desesperadamente se curar da tuberculose, ele passou acamado num quarto da casa materna seus últimos quatro meses. Noel morreu em 4 de maio de 1937. A vida tumultuada e a obra perdurável constituíram um prato cheio para espetáculos teatrais, um curta-metragem de Rogério Sganzerla e o filme “Poeta da Vila” (2009), dirigido por Ricardo van Steen.

Cabe agora indagar: além de Aracy de Almeida, quem terá sido uma grande intérprete contemporânea de Noel Rosa, já que nenhum cantor conseguiu superar as gravações por ele deixadas? Alguém bem pouco conhecida que teve o CD “Noel por Ione” lançado em 2000 pela gravadora Dabliú numa produção de Ronaldo Rayol. Trata-se da cantora Ione Papas, baiana que canta em barzinhos de São Paulo. A enxuta capa branca abriga um disco respeitoso e emocionante com pelo menos quatro pérolas: “Você só… Mente”, “No Baile da Flor-de-Lis”, “Quando o Samba Acabou” e “Coração”. Nenhuma cantora contemporânea conseguiu reviver o clima espirituoso, alegre, trágico, irônico, elegante e lírico contido nas 15 canções desse CD.

Ouvir Noel Rosa é o bastante para se convencer da existência em sua obra de canções tão vivas que parecem ter sido compostas justamente no ano de seu centenário.

Por Rubem

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