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Chico Buarque e os sentidos de “O Que Será?”, por Gustavo Conde

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Chico Buarque de Hollanda e os sentidos de “O Que Será?”

Por Gustavo Conde

A canção “O que será”, de Chico Buarque e Francis Hime, foi composta no ano de 1976 para o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, baseado no romance homônimo de Jorge Amado, com direção de Bruno Barreto. 

A música tem o codinome “À Flor da Pele”, que demarca a sensibilidade do eu cancional movido pela pergunta originária que lhe dá vida e sentido de ação: “o que será?”. A letra da canção tem um regime de rimas muito característico. Chico é um virtuose na arte da rima. Ele produz rimas internas, complexas, fragmentadas, que produzem um efeito de rara coesão semântica e melódica ao conjunto letra-canção. 

Vejamos a primeira estrofe de “O Que Será?”:  

O que será que será?

Que andam suspirando pelas alcovas

Que andam sussurrando em versos e trovas

Que andam combinando no breu das tocas

Que anda nas cabeças, anda nas bocas

Que andam acendendo velas nos becos

Que estão falando alto pelos botecos

E gritam nos mercados que com certeza

Está na natureza

 

Alcovas, trovas, tocas, bocas, becos, botecos, certeza, natureza, é a sequência inicial que lança a massa sonora numa busca circular e infinita através dos versos que preenchem o vazio sintático da pergunta que rege o discurso da canção. O jogo de vogais abertas e fechadas também apresenta sutilezas de sentido: tocas é aberto e bocas é fechado, em sutil delicadeza que extravasa da palavra para a “coisa”.

Mas o jogo rímico avança para o regime das dicções: a leve alternância das tônicas fechadas e abertas não é aleatória e produz sensações: fechado, aberto, aberto, fechado, fechado, aberto, fechado, fechado. Esse padrão confere um faber deliberado que instaura um regime de acelerações e desacelerações interno à prosódia dominante e interno à própria cena narrativa que começa a se desenrolar.

Chico Buarque tem um vasto recurso técnico para construir sua “melodia de sentidos”. Isso está correlacionado com o fato de o compositor ser também um exímio escritor em prosa. Chico é um dos maiores escritores brasileiros. Sua voz literária é consolidada, complexa, plena de desdobramentos temporais e narrativos (“Leite Derramado e “Meu Irmão Alemão” são apenas dois exemplos dessa capacidade de narrar com absoluto domínio das formas gramaticais, ora alongadas ora compactas).

Da dicção literária, portanto, Chico vai buscar os eixos paradigmáticos que constituem o regime interno de sentido de seu tecido cancional: as palavras das rimas acima arroladas são formais e coloquiais. Alcova e trova têm cifras formais, enquanto becos e botecos têm a coloquialidade em essência. 

Essa alternância também confere ritmo – um ritmo de sentido – e não é aleatória. Chico ainda produz mais um mecanismo interno de tensões: o verbo ‘andar’ é o motor da ação que prepara o mergulho nas localidades urbanas e tem funcionalidades diversas: num primeiro momento é verbo auxiliar (andam suspirando). Depois, desloca seu efeito metafórico (anda nas cabeças) para voltar a ser auxiliar de ‘acendendo’. 

Finalmente, aparece o verbo ‘estar’ que consagra a função auxiliar que ‘andar’ lhe emprestou. É nesse momento que a verve de Chico impressiona: ele acelera o sentido de maneira brusca e violenta o leitor-ouvinte com um ‘gritam’, um verbo pleno, contundente e de explosão semântica.

Uma aceleração, no entanto, que não dura uma fração de intervalo, pois o sentido e a melodia voltam a desacelerar para constituir um novo ciclo mais amplo e introduzir os outros blocos da canção-letra que são idênticos, senão pela expansão narrativa e lexical, aí a canção tomando seu corpo e tendendo ao tradicional infinito rítmico e melódico que caracteriza os ciclos da natureza e da própria canção popular.

Curiosamente, a gravação original incorpora esse infinito conceitual das canções, reduzindo o volume do áudio e desaparecendo no tempo e no espaço.

Esses regimes complexos rítmicos e rímicos da primeira estrofe irão se repetir com leves variações nas estrofes seguintes, fazendo desta canção uma das peças estéticas mais sofisticadas e, ao mesmo tempo, uma das mais belas canções populares e políticas de todos os tempos. Uma proeza nada singela.

Chico Buarque de Hollanda é um gigante absoluto da canção e da literatura mundiais, assim como o excepcional Francis Hime que assina a melodia desta canção. Resta-nos ouvi-los com a devida atenção e reverência.

 

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