Choro clássico, por Tádzio França

Através do Clube do Choro, fundado em maio de 2019, os brasileiros pretendem retomar a relação de Viena com aquele que é considerado o primeiro gênero musical urbano do Brasil.

A família Pádua continua tocando junta em Viena, entre o Clube do Choro e a produção cultural - Créditos: Fernanda Nigro

Entre os salões dos palácios austríacos e os velhos terreiros brasileiros há mais ligações do que sugerem as vãs barreiras culturais e geográficas. O choro nasceu há 150 anos como uma releitura popular da música européia. Nada mais natural que em pleno século 21 esses laços voltem a se fortalecer na forma do Clube do Choro de Viena, um projeto de brasileiros e europeus que há pouco mais de um ano está fortalecendo o gênero na terra da música erudita, através de várias ações. O multi-instrumentista Antônio de Pádua é um dos criadores e diretores dessa conexão musical.

O clube, ou Wiener Choro Klub para os austríacos, nasceu de um projeto conjunto entre os músicos brasileiros Antônio de Pádua e Alegre Correa, e o produtor acadêmico francês Étienne Clément. O trio encontrou no chorinho os elementos essenciais para fazer a interação dos músicos brasileiros com os europeus. “A relação é afetiva e emocional porque as duas músicas têm muito em comum. O exemplo da valsa vienense ilustra muito bem esses laços culturais entre os dois gêneros”, afirma Étienne, em entrevista à Tribuna do Norte direto de Viena, onde a família Pádua está radicada desde o ano passado.

Por mais que Viena respire música clássica, Étienne ressalta que a relação da cidade com a MPB é antiga. “Cabe lembrar que Alegre Corrêa, Fernando Paiva e Ita Moreno construíram uma cena de música brasileira por aqui já nos anos 1980”, diz. Ou seja, o terreno é receptivo, e já se pode falar até de uma segunda geração de músicos brasileiros por lá, que inclui o baterista Matheus Jardim (filho de Antônio de Pádua, radicado em Viena desde 2013), Marco Antônio da Costa (violonista natalense, em Viena desde 2008), e o pianista baiano Fagner Wesley.

Através do Clube do Choro, fundado em maio de 2019, os brasileiros pretendem retomar a relação de Viena com aquele que é considerado o primeiro gênero musical urbano do Brasil. Uma das principais ações do clube é a organização de rodas de choro mensais, shows (com artistas da cena austríaca) e palestras com músicos brasileiros convidados. O trombonista Raul de Souza e o violonista João Camarero foram os primeiros dessas ações. Foram realizadas 15 rodas de choro no ano passado.

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Um dos projetos ambiciosos do clube é a realização do primeiro Viena Choro Festival, que seria realizado em junho deste ano, mas que devido a pandemia do coronavírus foi adiado para 2021. “O atual confinamento levou o clube a propor uma série intensa de bate-papos on-line sobre o choro com alguns dos maiores expoentes do gênero, como Luciana Rabello, Reco do Bandolim e Armandinho Macêdo”, conta Étienne. Além das lives, o grupo está gravando o primeiro CD do Clube, com composições autorais e alguns estandartes do gênero – com destaque para Waldir Azevedo.

O conhecimento de Antônio de Pádua também é repassado através de workshops mensais. O Clube do Choro conta no momento com mais de 30 alunos, de várias idades e nacionalidades, aplicados no aprendizado de pandeiro, violão, trompete e cavaquinho. Étienne ressalta que a complexidade do chorinho atrai o músico europeu. “Esse lado performático é muito buscado pelos europeus. Dentre nossos alunos, alguns vêm do clássico e encontram no choro um desafio grande de se tocar tecnicamente, ao mesmo tempo em que têm a possibilidade de desenvolver a criação”, diz. O choro e o clássico têm muito pontos em comum do ponto de vista técnico da execução.

Antônio de Pádua é diretor artístico e musical do clube, atuando com a esposa Roberta Karin (percussionista) e o filho João Vítor, além do violonista natalense Marco Antônio da Costa. O músico também formou o grupo ‘Wiener Choro Ensemble’, uma bela vitrine do clube, formado por cinco músicos. A conexão de Pádua com a capital potiguar permanece forte apesar da distância, e inclui muitos planos para após a pandemia.

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Segundo Pádua, o trabalho do clube busca mostrar ao público europeu a erudição do choro brasileiro, e o quanto essa música é enriquecedora para o desenvolvimento musical de qualquer músico, independente da área de atuação. “Eles já conheciam a nossa música através da bossa nova, e agora estão descobrindo nossa diversidade musical e estão se apaixonando cada vez mais”, diz.

A turnê do primeiro CD do Clube prevê uma passagem pelo Brasil, tendo Natal e João Pessoa como os pontos principais. “Nosso intuito é construir um mercado aqui em Viena para que os artistas natalenses e principalmente nordestinos possam vir tocar na cidade através das turnês. Além do mais, fizemos uma live no Dia do Choro (23 de abril) com o grande compositor natalense João Juvanklin”, explica Étienne, ressaltando que a cena natalense de choro, tal como o Choro do Caçuá de Carlos Zens, é uma grande fonte de inspiração para os chorões de Viena.

Enviado por Tádzio França

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