Cláudio Jorge e Augusto Martins, dois senhores sambistas cantando Ismael, por Luis Nassif

A primeira vez que ouvi o CD “Ismael Silva, uma Escola de Samba” foi na rádio Batuta, em entrevista dois dois cantores, Cláudio Jorge e Augusto Martins, ao Joaquim Ferreira.

São dois eméritos sambistas, compondo um duo de primeira, para saudar um dos maiores sambistas da história, Ismael Silva.

Me chamou atenção a entrevista conduzida por Joaquim.

Inicialmente, o fato de considerar que Ismael não recebeu a mesma consagração de outros sambistas históricos, como Noel Rosa, Wilson Baptista, Ataulfo Alves.

Não vejo assim. A primeira vez que ouvi falar de Ismael foi ainda nos anos 60, em uma entrevista de Chico Buarque. Apresentado como o novo Noel Rosa, Chico explicou que sua grande influência era Ismael Silva, que era tocada incessantemente na casa da família pelo pai, o historiador Sérgio Buarque.

Lá em Poços ficamos de olho, esperando mais informações sobre Ismael. Logo em seguida saiu o histórico fascículo da Abril. Duas composições de Ismael imediatamente entraram no nosso repertório e não mais saíram: “Novo Amor” (“arranjastes um novo amor, meu bem / eu fui um infeliz, bem sei”) e “Nem é bom falar” (“nem tudo que se diz, se faz / eu digo e serei capaz”).

Se Ismael andou meio esquecido lá pelos anos 60, a partir dos fascículos da Abril sua fama saiu do Rio e se espalhou por todo o país. E descobrimos ser ele o autor de músicas intemporais, que nos acompanharam desde a infância, como “Se você jurar”, “Antonico” e outras.

O ponto central da conversa foi sobre a vida reservada de Ismael. Uma hipótese é o fato de ele ter passado algum tempo na prisão, no início da carreira, por ter disparado tiros no traseiro do malandro que abusou da sua irmã.

Pode ser. Atribuem esse duvidoso não-reconhecimento de Ismael a essa vida reservada. As demais explicações não fecham. Dizer que não fazia músicas fáceis como Wilson Batista esbarra no próprio “Se você jurar”, “Para me livrar do mal”, com Noel e tantas outras que integram o repertório de qualquer sambista que se preze.

Toda essa volta é para não expor o verdadeiro problema que atormentou Ismael: o seu lado homossexual, mesmo drama que atormentou outro grande, Assis Valente. Já nos anos 70 não era segredo para os grandes especialistas de samba que conheci, como o Jangada, repórter do Placar e profundo conhecedor do samba carioca, José Ramos Tinhorão e José Carlos Botezelli.

A defesa de Ismael era seu ar fechado, a postura altiva, que muitos confundiam com arrogância.

Ismael foi o pai do samba, o sujeito que, na Escola do Estácio, lançou as bases para o samba cortar o cordão umbilical com o maxixe e se projetar como o ritmo brasileiro por excelência.

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