Do leitor

O Dino que eu conheci

Ivan Carvalho de Siqueira

Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar a você Luis Nassif por este blog tão importante para a Internet, você que é um profissional que sabe usar essas duas capacidades que todos nós temos, a de sermos seres racionais em algum momento e emocionais em outros, em você isto é surpreendente e, eu diria, emocionante, sua capacidade analítica como homem de finanças e sua sensibilidade enquanto homem das artes, o músico instrumentista, o escritor de crônicas que abordam o mundo musical. Surpreendente, porque as pessoas sempre se mostram uma coisa ou outra, ninguém esperaria ver um Oswaldo Cruz tocando flauta ou um Altamiro Carrilho com soluções para o problema da saúde pública, e emocionante, porque acho que todos os seus leitores sentem que, mais do que um profissional, você escreve com paixão por tudo aquilo que escreve. Assim, você está de parabéns, Nassif!

Escrevo esse e-mail para você por uma outra razão. Li seu post sobre o falecimento do grande violonista Dino Sete Cordas, e gostei muito do que li, e me lembrei de um acontecimento em minha vida ligado ao Dino, e desejava que você soubesse. Sou um violonista que se divide entre o violão clássico e o popular, e em determinada época da minha vida, meados dos anos oitenta, procurei por Dino, sabendo que ele dava aulas de violão, para que ele me transmitisse um pouco daquilo que ele mais entendia no violão, eu desejava aprender a técnica de improvisar no acompanhamento de música popular. Por essa ocasião eu tinha um professor de violão clássico, mas que não era especializado neste assunto que eu desejava conhecer, era um excelente professor mas em outras facetas do violão.

Dino dava aulas em uma loja de venda de instrumentos musicais localizada na Rua da Carioca, no centro do Rio de Janeiro. Subia-se uma escada de madeira, e lá no primeiro andar haviam umas cabines de madeira e vidro, onde ele e outros dois professores ensinavam, cada um com seu aluno. Eu me apresentei, disse que tinha professor de violão, mas que desejava aprender com ele aquilo que ele mais sabia, as famosas “baixarias”, que, para quem não sabe o que seja, são aqueles solos feitos nas cordas graves do violão, que enfeitam a música, em especial o samba-canção, os choros e as valsas. Pois bem, ao falar isto com ele, imediatamente ele me diz: “Mas, quem disse pra você que é isso o que eu sei fazer?”. Ele me surpreendeu com essa pergunta, mas eu disse pra ele: “Eu ouço os discos que você grava, acompanhando os cantores, e os discos do Época de Ouro.” E ele disse: “Mas eu não sou especializado em nada do que você disse, eu apenas toco o violão.” Eu fiquei surpreso com a modéstia dele, e, como eu não tinha argumentos, eu preferi dizer: “Então, eu desejo aprender o que você toca.”

Ele me aceitou como aluno. Cada aula consistia em trabalhar uma determinada música. Eu era quem dizia o que desejava aprender, e ele ensinava, fosse o que fosse. Depois de algum tempo de aulas, e já tendo absorvido a técnica de fazer as tais “baixarias”, ele ficava no violão dele fazendo uma base de fundo e me pedia para mostrar no meu violão o que eu faria com determinada música. E num determinado dia, eu sai fazendo a baixaria em toda a música, já tinha absorvido a técnica, e ele parou a música, saiu da cabine, foi lá pra fora, voltou e disse: “Está doido, é horrível isso! Você acha que uma música é fazer baixaria o tempo todo? E a música, rapaz? E a respiração dos acordes? Ninguém vai gostar disso!”

Eu recomecei a música e procurei entender onde cabiam aqueles enfeites, nos intervalos de uma frase da voz principal, e fui procurando adequar ao que ele entendia como deveria ser. Existe um fato que eu acho que poucas pessoas conhecem a respeito de Dino. Quando ele desejava que eu estudasse uma música completa, ele me pedia para cantar a música, e, mal eu cantava o primeiro verso da melodia, ele pegava meu tom, virava o violão dele com o fundo para cima, pegava um caderno de música pautado, um lápis com aquela borrachinha na ponta, e escrevia em poucos minutos toda a partitura da música, com a cifragem completa, mostrando inversões de acordes, o que fosse, e escrevia todo o solo das tais baixarias, com uma velocidade que eu nunca vi igual, tivesse a divisão métrica que fosse, fusas, semi-fusas, escrevia música como poucas pessoas, não era apenas um músico intuitivo.

Esse grande músico partiu, e, agora, não tem jeito, a gente vai olhar para um violão de sete cordas qualquer e ver escrito nele: Dino.

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