A morte da soprano russa Galina Vishnevskaya

Ygor C.S.

Luis Nassif, como não vi publicação sobre, gostaria de sugerir um post sobre a grande soprano russa Galina Vishnevskaya, cujo falecimento foi anunciado anteontem. Vishnevsaya, esposa de Mtslav Rostropovich, o célebre viloncelista e regente, foi talvez a maior cantora lírica russa do Pós-Guerra e se tornou uma personalidade do mais alto nível no mundo artístico, conhecida não só pelo talento, mas, junto com o marido, também pela audacidade e coragem de dizer o que pensava mesmo que não gostassem, fosse no teatro, fosse fora dele. Por isso mesmo, após o casal chegar à gota d’água depois de abrigar em sua casa de campo o escritor dissidente Alexander Solzhenitsyn na URSS, ela e o marido foram expulsos do país e tiveram sua cidadania retirada em 1978. Vishnevskaya, ainda assim, ficou com a marca maior de ter sido uma das grandes divulgadoras da ópera e da canção russas em plena Guerra Fria, hoje cada vez mais reconhecidas também no Ocidente. Depois de quase 40 anos decarreira, dos anos 50 aos 80, ela ainda escreveu uma aclamada e (dizem) muito sincera e mordaz autobiografia, relatando sua vida e as agruras de viver como artista sob o regime soviético. Por fim, fez duas atuações muito elogiadas no cinema, a última no belo filme “Alexandra” (2007).

A par de tudo isso, Vishnevskaya foi um exemplo de superação e de gênio forte ao melhor modo, tendo passado por praticamente toda desgraça que pode ocorrer a uma mulher (abandono, fome, morte, perda do filho, constrangimentos e assédios durante a carreira por poderosos da URSS, degredo, etc.), e ainda assim não sucumbiu, mas, pelo contrário, tornou-se ao fim e ao cabo uma das grandes figuras da Rússia.

Escrevi esta mensagem para publicação no Facebook, mas acredito que valha a pena pô-la aqui também, e logo abaixo dela sugiro o obituário do The Telegraph para quem quiser saber mais da vida dela:

“”Nasceu em 1926. O pai tentou matar a mãe com um machado. Foi abandonada aos 6 anos e criada pela avó. Viu no prédio onde vivia os expurgos da Era Stálin na URSS. Passou por um dos eventos mais terríveis do século, o Cerco a Leningrado, onde quase morreu de fome e viu parentes e amigos morrerem. Engravidou durante a Guerra, quase morreu no parto e ainda perdeu o bebê recém-nascido. Já começando a cantar profissionalmente, contraiu tuberculose e quase perdeu a voz e a carreira promissora. Se casou 2 vezes até conhecer o marido para o resto da vida, grande artista como ela, Mstslav Rostropovich, e em pouco tempo ascendeu ao topo do cenário operístico na URSS. Ainda teve de aguentar os constrangimentos e assédios das autoridades soviéticas, mas se tornou uma estrela nacional como poucos e, com mais uns anos, uma das mais famosas cantoras do mundo, com várias obras de grandes compositores feitas especialmente para ela.

Nem por isso se deu por satisfeita e, em 1968, ao presenciar a Primavera de Praga, começou com o marido a criticar e agir mais abertamente, inclusive ajudando o escritor dissidente Alexander Solzhenitsyn. Ainda recebeu condecorações importantes, mas as autoridades voltaram atrás e, em 1974, literalmente expulsaram a ela e o marido, em 1978 tirando-lhes a cidadania. Mas no fim das contas, depois de tudo isso, Vishnevskaya é que prevaleceu, e o legado artístico e pessoal dela vai durar infinitamente mais do que o poder e os cacoetes dos autoritários de toda ordem, militaristas e tudo o mais que atrapalhou sua vida. É ou não é um exemplo de pessoa e do poder de superação da Arte?”

Obituário: http://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/9738109/Galina-Vishnevskaya.html

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