João Gilberto muito além da música, por Augusto Diniz

Paulo Cesar de Araújo teve vários encontros com João Gilberto, porque para escrever a biografia não autorizada de Roberto Carlos era imprescindível obter as impressões do cantor que o Rei se inspirou na sua carreira.

Roberto Carlos tem tanta admiração por João Gilberto que tentou inúmeras vezes levá-lo ao seu programa anual de final de ano na TV Globo ou mesmo gravar uma faixa em dueto com o músico. Porém, em nenhum dos casos obteve sucesso (ora por desencontro de agenda, ora por desinteresse do convidado) – e possivelmente não conseguirá mais por que o seu músico maior encontra-se em estado de fragilidade física e mental avançada.

O biógrafo de Roberto Carlos, na obra “O réu e o Rei” (2014), relata como se desenvolveu a produção de seu livro “Roberto Carlos em detalhes”, censurado pelo próprio cantor, até o processo que sofreu na Justiça pelo biografado. Nela, o escritor dedica parte grande dos seus momentos vividos com João Gilberto.

O interessante é que a análise é muito mais do ser humano e menos do lado musical de João Gilberto, onde a literatura publicada existente do genial músico se concentra. Porém, a descoberta dos traços da pessoa João Gilberto por Paulo Cesar de Araújo foi casual – mas torna-se leitura obrigatória para entender esse que é, de fato, o músico brasileiro de maior influência no mundo.

No primeiro contato ao telefone com João Gilberto para entrevista, Paulo Cesar só não foi dispensado por que respondendo que era baiano numa evasiva pergunta do cantor (cita-se, João Gilberto é também baiano), passou a ser entrevistado pelo músico em vários aspectos de sua vida familiar, inclusive questões íntimas.

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Nesse inusitado primeiro contato, João Gilberto deu até conselhos a Paulo Cesar de reaproximação com o pai que ele não via fazia tempo. O escritor ligou 20 dias depois para João Gilberto e o cantor cobrou uma carta sugerida de escrever para o pai como forma de reatamento – Paulo Cesar confirmou que a enviou e João ficou efusivo.

Desse segundo contato surgiu convite de João Gilberto de levar o escritor e seu pai a um show em Salvador, quando se realizasse – coisa que jamais Paulo Cesar esperava que acontecesse. Mas aconteceu.

Paulo Cesar passou a conversar frequentemente com João Gilberto ao telefone (por um orelhão, especificamente) como amigos. Tratavam dos mais variados temas, sem compromisso de falar de Roberto Carlos, motivo do contato inicial.

Certa vez, quando achou que conheceria pessoalmente João Gilberto em seu apartamento no Leblon, no Rio, foi recebido por um casal para um jantar promovido pelo cantor – porém, sem a presença dele e num apartamento imediatamente abaixo ao do cantor, que ficou em casa.

João Gilberto aproximou Paulo Cesar de uma senhora gaúcha amiga do cantor (ele e ela se conheceram na época que João morou em Porto Alegre, em 1955, quando não era conhecido na música brasileira, mas foi muito bem tratado pela digníssima na época). Pois essa senhora era convidada pela produção de João para qualquer show que fizesse no Brasil, se hospedando no hotel do cantor.

Em julho de 1993, João Gilberto convidou Paulo Cesar para ir ao show prometido em Salvador com as despesas pagas pelo cantor – e a senhora gaúcha também estava lá.

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Com a senhora, Paulo foi comprar novos sapatos pedidos por João para as três apresentações que faria; e ficou sabendo que deveria receber ligação pessoal do então governador Antônio Carlos Magalhães o convidando para o show – uma condição de João Gilberto para realizá-lo, que representava a reabertura do Teatro Castro Alves (o fato acabou não ocorrendo com Paulo Cesar, mas com todos os outros convidados do artista a ligação aconteceu).

O primeiro contato pessoal de Paulo Cesar com João Gilberto foi na casa do irmão do músico, na capital baiana, depois do show. Paulo Cesar, no livro, relata um João Gilberto nada fechado, ao contrário da imagem criada, conversando com desenvoltura entre as pessoas presentes. Nesse encontro viu João Gilberto sapateando para exemplificar diferenças de sapateados existentes no mundo.

Na noite seguinte, depois do segundo show em Salvador, conseguiu se reunir com João Gilberto em seu apartamento onde finalmente obteve informações preciosas para seu livro sobre Roberto Carlos.

A pesquisadora Edinha Diniz, principal biógrafa de João Gilberto, talvez tenha muitas histórias a contar sobre ele longe dos palcos – assim como esse livro de Paulo Cesar de Araújo tem.

O legado de João Gilberto é imenso. Antes da globalização, um dos poucos meios de se conhecer o Brasil era pela música. Lojas especializadas de CDs nas principais cidades europeias e dos Estados Unidos há 20, 30 anos, tinham seções de prateleiras dedicadas à obra do artista.

Apresentações no exterior de João Gilberto sempre foram marcadas com a presença de público majoritariamente de amantes de seu trabalho pelo mundo – ao contrário da platéia de shows de brasileiros lá fora muitas vezes composta por brazucas residentes em outros países.

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Esse seu processo criativo tem tudo a ver com seu universo particular comportamental. O enigma onde se juntam a vida e a obra desse magistral músico ainda aguarda um desvendamento – até para se entender o que se passa com o artista hoje.

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1 comentário

  1. bom post.

    Bom post;

    Ainda hoje, toca-se mais Bossa Nova no exterior do que no Brasil.

    Sem falar de radios da internet dedicadas ao genero, de Portugal à Russia, da Argentina ao Japão…

    A unica que toca regularmente é a radio USP.

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