João foi a síntese que definiu a linha evolutiva da MPB, por Luis Nassif

Profundamente, visceralmente brasileiro, João é o fio condutor que refaz a evolução histórica da música brasileira

João Gilberto não gostava do enquadramento da sua música na bossa-nova. E tinha razão. A ideia de um movimento despregado da música brasileira, que nasceu do nada e tirou a música brasileira do atraso, foi uma jogada de marketing de Ronaldo Bôscoli, o propagandista maior do movimento. E teve como receptador um jornalista, bom repórter, mas com parco conhecimento de música, Rui Castro, em um livro relevante, como pesquisa, mas submetida a uma interpretação rasa e ilusória.

Bôscoli, através de Rui, retratava uma história que não existia. Antes da bossa nova, tudo seria um bolerão, com dó de peito. Veio a bossa nova e instaurou a modernidade do nada.

Autor de uma pesquisa importante, Rui Castro não tinha noção de música popular brasileira pré-bossa nova. Morando em São Paulo, recorria frequentemente ao Gutenberg, o Baiano, frequentador da nossa turma e grande conhecedor da música tradicional, para entender minimamente esse universo.

Para o lançamento do livro, Rui preparou uma fita K7 com um programa radiofônico resumindo o livro e sua desinformação. Em determinado trecho colocava uma gravação de Garoto e Johnny Alf, com Johnny fazendo a batida da bossa nova com a mão direita. Essa batida foi inaugurada por Garoto na faixa “O relógio da vovó”, lançado pouco antes pelo trio Surdina. Foi totalmente assimilada pelo João Gilberto do “Chega de Saudade”. Com o tempo, João aprimorou a utilização do grave nos acordes.

Depois da gravação, Rui comentava:

– Como vocês viram, isso é jazz.

Depois, tocava uma faixa com Joao Donato arrebentando no acordeom, ao estilo dos conjuntos vocais embaladíssimos dos anos 40. E Rui:

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– Como vocês viram, isso é bossa nova.

Trocava as bolas. Como demonstrava na fita, Rui fez um trabalho precioso de levantamento de dados. Mas na hora de interpretar os fatos, comportava-se como o repórter não especializado que endossa todas as afirmações da fonte. E a fonte era Ronaldo Bôscoli e o enorme preconceito social da zona sul carioca.

Bôscoli foi jornalista que se tornou maior marqueteiro da bossa-nova, apelando a um jornalismo de guerra. Como recurso retórico, vendia a ideia do totalmente novo, nascendo do nada, em polêmicas raivosas com Antônio Maria..

Essa visão da bossa nova como uma música de corte – e não de continuidade – ganhou um endosso mais erudito, com um livro que saiu em fins dos anos 60, “O Balanço da Bossa”, assinado por um grupo de concretistas, os irmãos Campos, Julio Medaglia e outros sob os eflúvios da nova estética que surgia com o Tropicalismo. Ganhou força então o conceito da música clean que repaginou totalmente a música brasileira, mas sempre com a ideia da música de corte. Esse livro deixou herdeiros, especialmente do Departamento de Semiótica, da USP.

Com o tempo, jornalistas mais conhecedores da música e da história, como Luiz Fernando Vianna e Joao Máximo, ajudaram a diluir esse tipo de interpretação enviezada.

De fato, a bossa nova foi apenas uma evolução natural da música brasileira, com uma belíssima campanha de marketing, incorporando a visão do país que se internacionalizava e da visão de futuro trazida pelo governo JK.

Como me disse Baden Powell, em uma entrevista que fiz com ele, “nós fazíamos a mesma música, continuamos fazendo. A única coisa nova foram os rapazes da zona sul falando em barquinho e mar”. Na época, essa entrevista mereceu um artigo raivoso de Rui no Estadao. Nos 50 anos da bossa nova, finalmente, ele aceitou a ideia de que a bossa nova foi o violao de Joao Gilberto trazendo a linha evolutiva da música brasileira para dentro de sua batida.

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O que se convencionou chamar de bossa nova, o repertório dos LPs de Joao Gilberto e a produção seguinte, que durou poucos anos, era uma mistura extraordinária de vários gêneros. Tinha as harmonias do bolero, trazidas por Luiz Bonfá. Tinha o samba sincopado de Billy Blanco, o samba sincopado (que os cariocas chamam de telecoteco) e o samba choro dos conjuntos vocais. Antes dele, as harmonizações sofisticadas de Garoto, influenciado por Debussy e Django Reinjardt. Havia o violão de Laurindo e outros da rádio Nacional, admiradores de Barnie Kassell. Tudo isso como decorrência da música dos cassinos que, durante a guerra, sob influência das big bands americanas, do novo jazz, modernizou definitivamente a música brasileira. E tudo era samba.

Joao Gilberto bebeu em tudo isso e trouxe sua grande, inestimável contribuição, a síntese clássica, incorporando os grandes ritmos dos anos 40, especialmente o samba-choro e o samba sincopado (que os cariocas chamam de samba telescópico).

Ali seria construída a grande obra cultural da música brasileira. Com a batida do violão que foi buscar em Garoto, e o novo estilo de cantar, que trouxe dos minimalistas Luiz Barbosa e Mário Reis, e especialmente do americano Chet Baker, João criou um modelo no qual cabiam todos os grandes, os históricos, os precursores, além dos jovens Tom Jobim e Carlos Lyra, os sambistas Geraldo Pereira e WIlson Batista, Ary e Dorival Caymmi.

Profundamente, visceralmente brasileiro, João é o fio condutor que refaz a evolução histórica da música brasileira, o veio que vem com Sinhô, Noel, Custódio, Lamartine, com a música instrumental modernizadora de Pixinguinha, Radamés, Garoto, Alf, Bonfá, permitindo a transição para a jovem música internacionalizada que aparecia.

O áudio do sarau de Joao na casa de Chico Pereira – que divulguei hoje de manhã – é o exemplo acabado. Lá ele canta os dó de peito, como “Chão de Estrelas”, o samba choro, o samba sincopado.

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Deu à harmonia desenvolvido pelo violão de Garoto, à batida que apenas os iniciados tinham acesso, a universalização final. Após algum tempo, o padrão brasileiro de violão bossa-nova podia ser encontrado de salas de concerto a churrascarias.

João criou a narrativa que persiste até hoje, colocando no mesmo rio caudaloso Tom, Lyra, Menescal, depois a transição de Baden, a fase MPB de Chico, Baden, o tropicalismo de Caetano, Gil, o soul inicial de Ivan Lins, os pós-festivais Joao Bosco, Djavan, até a geração recente.

Há poucos paralelos na música brasileira de algo tão abrangente e internacionalmente brasileiro, talvez o violão e os sambas afro de Baden, os tambores mineiros de Milton Nascimento e do Clube da Esquina. João não era a criação, era a formulação, a síntese,

E se tornou o símbolo maior da música mais rica do século 20, a brasileira.

 

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7 comentários

  1. Caro Nassif, muito grato pela matéria, esclarecedora, principalmente para quem leu o livro de Rui Castro, Chega de Saudade, como eu. Pergunto: é verdadeira a história de que a batida de João teria nascido após 6 meses recolhido em casa de sua irmã, em Minas, com a inspiradora ajuda da acústica do banheiro da casa? Ou seja, a tal síntese de que você fala, a formulação, foi de fato concretizada neste período de reclusão de João?

  2. Ótima resenha sobre João Gilberto e a música brasileira. Contudo nas influências que esse grande compositor de melodia minimalista, faltou citar duas inesquecíveis compositoras: Dolores Duran e Chiquinha Gonzaga. Você concorda?

  3. Oi Nassif
    É realmente admirável a consistência e seriedade que você demonstra nos assuntos que aborda. Me surpreende a sua honestidade. Agradeço pelo seu empenho em fazer chegar a todos informações confiáveis. Fique em paz.
    Como posso ajudá-lo a continuar desenvolvendo o seu trabalho?

  4. Sr. Nassif, acho que nós merecemos ouvir João no blogue pelo menos toda essa semana, ou este mês, em matérias cuidadosas que recuperem o que foi dito e escrito sobre ele, dentro e fora do Brasil. É uma grande oportunidade para nós todos, para relembrarmos ou conhecermos mais sobre ele, e para os jovens e pessoas que não o conheceram, que o façam. Precisamos manter a chama do Brasil verdadeiro acesa, e transformar esse momento de tristeza em celebração de uma vida que, silenciosamente, se dedicou à beleza, à delicadeza, à crítica social que é presente em seu repertório, à valorização da palavra e do som como um escultor da melodia que une a fala à poesia, alguém que recusou a celebridade para preservar a si mesmo e a sua arte. Ele merece e nós merecemos, uma semana de dedicação à beleza que é atemporal e ao mesmo tempo nos ajuda a viver a brevidade da vida com a sensação de eternidade. Tentarei, diariamente, encontrar um vídeo ou uma história da arte de João, que nos acorde para o que somos, simplesmente humanos.

    Viva João e o Brasil que ele construiu com sua arte.

    João Gilberto – Eu sambo mesmo
    https://www.youtube.com/watch?v=pz3KitXJj1o

    Sampa/SP, 08/07/2019 – 15:40

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