Legião Urbana e o espírito do tempo, por Wilton Moreira

Goste-se ou não de rock ou da Legião Urbana, há que se reconhecer que Renato Russo, compositor, letrista e vocalista da banda, se tornou um mito da canção e a voz de uma geração

Legião Urbana e o espírito do tempo, por Wilton Moreira

Com exceção do primeiro disco, que me foi apresentado por um amigo, comprei cada um dos LPs da Legião Urbana, logo após o seu lançamento. Era, sem dúvida nenhuma, minha banda preferida da adolescência. E eu não estava só, pois nas décadas de 80 e 90 a Legião foi a banda de rock mais popular do Brasil. E parece que se tornou uma espécie de clássico da música brasileira, pois até hoje muitos jovens que não se lembram de Renato Russo vivo ainda admiram suas canções.

Goste-se ou não de rock ou da Legião Urbana, há que se reconhecer que Renato Russo, compositor, letrista e vocalista da banda, se tornou um mito da canção e a voz de uma geração, tal como Roberto Carlos, Caetano Veloso e Luiz Gonzaga. É neste panteão que Renato Russo está, o de cancioneiros que foram muito além da canção e que, de alguma forma, se conectaram com algo mais profundo na alma das pessoas, que captaram e exprimiram o espírito do tempo.

Houve uma época em que me distanciei da Legião Urbana, creio que para me desintoxicar um pouco do vício de ser fã. Fui procurar outros sons, mais elaborados, menos barulhentos, outras poesias. Mergulhei na MPB e nos poetas da escrita que me fascinavam desde criança. A Legião Urbana me pareceu tosca perto dessa (para mim) nova lírica escrita e cantada.

Até hoje me parece assim. Legião Urbana e Renato Russo são toscos perto da melhor MPB, de Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Manoel de Barros, Ferreira Gullar… Mas ainda assim escuto a banda com prazer. Deve ser nostalgia da juventude.

Mas creio que haja outro motivo para meus ouvidos continuarem a insistir em buscar o som da Legião Urbana e a voz de seu revoltado líder. Acho que Renato Russo realmente captou algo fundamental de seu tempo e não foi algo bom: uma tristeza sem fim de ser brasileiro, de morar num país desigual, conservador e preconceituoso, que insiste em maltratar seu povo já tão sofrido.

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Infelizmente, a mensagem angustiada de Renato Russo, tosca e às vezes ingênua, permanece tão atual. Os anos 80 e 90, as décadas perdidas do desalento e da desesperança, voltaram com força. Talvez nunca tenham ido embora e os anos Lula foram apenas uma breve ilusão na noite sempre triste e escura do Brasil.

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