Max Riccio revive violão do início do século XX, por Carlos Motta

Atuando solo e em música de câmara, o intérprete, natural de Natal (RN), é conhecido por seu  trabalho de pesquisa de repertório

Max Riccio revive violão do início do século XX

por Carlos Motta

Foi a partir de uma foto, provavelmente de 1916, imortalizando o encontro de três grandes violonistas da época, que o intérprete e educador Max Riccio, se interessou pela obra de Quincas Laranjeiras, João Pernambuco e Agustín Barrios. Em seu novo EP “Retrato Carioca”, uma alusão direta à fotografia tirada na loja Cavaquinho de Ouro, na Rua Uruguaiana, no Centro do Rio de Janeiro, onde se vendiam e se fabricavam instrumentos musicais, Riccio busca eternizar cinco obras desses compositores, usando até mesmo, na gravação, uma réplica do violão Torres, com encordoamento de tripa, o mais usual naquele período. Atuando solo e em música de câmara, o intérprete, natural de Natal (RN), é conhecido por seu  trabalho de pesquisa de repertório e também pela utilização de réplicas de instrumentos históricos, como também os encordoamentos e recursos utilizados em cada período artístico.

Do pernambucano Quincas Laranjeiras, Max Riccio gravou “Prelúdio em Ré”, “Valsa para violão” e “Dores d’Alma”. Precursor do ensino de violão por partitura e decisivo na formação dos mais importantes violonistas de sua época, Quincas Laranjeiras, ou melhor, Joaquim Francisco dos Santos, foi decisivo na formação dos mais importantes violonistas da época, como Zé Cavaquinho, Levino Albano da Conceição, Gustavo Ribeiro, Donga e Antônio Rebello, entre outros. Nascido em Olinda (PE), com um ano de idade se mudou com a família para o Rio de Janeiro, em 1874, estabelecendo-se no bairro de Laranjeiras.

Já de autoria de João Pernambuco, Riccio interpretou “Sons de Carrilhões”. Nascido em 1883, o compositor e violonista mudou-se para o Rio de Janeiro em 1904 e, em poucos meses, passou a morar em uma pensão em que viviam Pixinguinha e Donga, que também era frequentada por músicos e intelectuais, como o violonista e improvisador Sátiro Bilhar e o poeta Catulo da Paixão Cearense. Torna-se rapidamente conhecido nesse círculo e a apresentar-se em residências de famílias de elite, como a casa de Ruy Barbosa e Afonso Arinos. Em 1914, formou o Grupo Caxangá, com sete integrantes, entre eles Pixinguinha e Donga, lançando moda no Rio com sua caracterização sertaneja. Com os dois amigos músicos, integrou também, mais tarde, o conjunto Oito Batutas, excursionando pelo Brasil e exterior.

O paraguaio Agustín Barrios, músico que completa a tríade registrada na fotografia da época, é lembrado no EP com sua “Una limosna por el Amor de Dios (El último trémulo)”. Também conhecido pelo apelido de Mangoré, Barrios é o mais reconhecido violonista e compositor paraguaio de música clássica. Iniciou sua carreira pelo violão, o qual tocava desde a infância, chegando a participar da Orchestra Barrios, composta por membros de sua própria família. Alternava o violino com a flauta e a harpa, embora mais tarde tenha escolhido o violão como seu instrumento principal. A partir de 1910, aprimorou o estudo do instrumento e então passou a participar de concertos no México e Cuba, seguindo depois por toda a América Latina e pelo mundo.

Doutor em musicologia, com mestrado em práticas interpretativas, o professor de violão da UFRJ e pesquisador da Biblioteca Nacional Humberto Amorim destaca que no EP “Retrato Carioca” todo “o cuidado musicológico se coaduna a interpretações absolutamente envolventes, criativas e fiéis ao estilo interpretativo do repertório, conferindo vida única a páginas musicais de três personagens decisivos na trajetória do instrumento no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro”.

Para o pesquisador, “o resultado é um mágico ambiente sonoro que parece nos transportar diretamente para um salão de concerto do século XIX ou décadas iniciais do XX, como se entrássemos em um túnel do tempo que nos leva ciclicamente do presente ao passado e do passado ao presente, em uma espécie de espiral eterna”. 

Natural de Natal, Max Riccio se formou bacharel em violão pela Escola de Música da UFRJ. É mestre pela Unirio no programa de mestrado profissional, sob a orientação de Nicolas de Souza Barros e Ermelinda Paz Zanini, desenvolvendo o livro “O Violão Entrou na Roda: um Guia Prático para Principiantes”, publicado pela Editora Irmãos Vitale. Ultimamente, no duo The Biedermeiers, que compõe junto com Rubens Küffer, tem tido uma notável presença no cenário da música erudita nacional, com apresentações no programa “Partituras”, da TV Brasil, totalmente dedicado ao duo, e no programa Antena MEC FM, da Rádio MEC FM (Rio de Janeiro).

 Em 2018 e 2020 também atuou junto com a cantora Aline Talon no Duo Iara, atuando em diversas salas de concertos no circuito nacional, transmissão de concerto ao vivo pela Rádio MEC FM e participação na edição 2020 do Festival de Inverno de Petrópolis e Nova Friburgo. Como solista, vem se apresentando regularmente em importantes séries de concerto do Rio de Janeiro e festivais internacionais e nacionais de violão. Também tem participado de diversos programas de rádio e TV, podendo destacar gravações de obras inéditas de Quincas Laranjeiras no programa Violões em Foco da Rádio MEC FM, bem como a participação na trilha sonora de novelas da Rede Globo, como “O Astro” (Remake 2011) e “Gabriela” (Remake 2012).

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