Miúda homenagem ao grande Caio Pagano, por ocasião do seu 80º aniversário, por Peter Naumann

Caio Pagano é o representante da tradição BBB no Brasil. E como não apenas toca, mas sabe o que toca e por que toca como toca, integra a pequena confraria dos pianistas-pensadores

Miúda homenagem ao grande Caio Pagano, por ocasião do seu 80º aniversário

por Peter Naumann

Caio Pagano completa hoje 80 anos.

Há quase exatos 40 anos, no verão de 1980, gravou as 33 Variações sobre uma valsa de Anton Diabelli op. 120 de Beethoven, em sessões noturnas na ECA/USP, realizadas depois do fechamento do aeroporto de Congonhas. Acompanhei a gravação e me lembro de muitos detalhes.

Os Himalaias da literatura pianística podem ser escalados de vários modos. Podemos suar a camiseta e marchar ofegantes. Uma variante desse procedimento são as hoje abundantes interpretações mais ou menos acadêmicas. Podemos perder-nos no caminho e, para ficar na imagem do Himalaia, cair num precipício. Podemos ver a obra como um altar ou relicário e celebrá-la, travestidos de sumo-sacerdotes. Podemos vencer os obstáculos com altivez e humildade simultâneas. Estas demandam coragem e trabalho e produzem descortino. Deste último, Caio Pagano não carece. Como exemplo, menciono outro feito da mesma época, a apresentação do ciclópico 2º concerto de Béla Bartók no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sob a regência do grande Henrique Morelenbaum, que soube coordenar a execução da obra complexa e motivar, nos poucos ensaios, aos quais assisti, os músicos da orquestra, especialmente os sopros, mais espeficiamente os metais, a superarem as suas limitações.

Composto entre 1819 e 1823, o op. 120 de Beethoven teve um destino infausto. Durante muito tempo, creio que séc. XX adentro, foi pouco ou quase nunca tocado. Intimidava e ainda intimida pianistas e ouvintes.

A valsa do editor Anton Diabelli, um monumento à banalidade e ao analfabetismo funcional, é um produto típico da Restauração pós-napoleônica. Atribui-se ao Príncipe Metternich, que comandou a política austríaca até 1848 e influiu muito na política europeia da época, uma afirmação perspicaz, hoje mais atual do que há duzentos anos: “Das Volk soll sich nicht versammeln, sondern zerstreuen.” Traduzindo, sem poder reproduzir em português o jogo de palavras da segunda oração: “O povo não deve juntar-se, mas dispersar-se/distrair-se.” Metternich sabia: quando as pessoas se juntam, começam a discutir, argumentar, raciocinar, criticar, acabam formando o que se denomina esfera pública. Isso sempre acaba mal, em assembléias, comícios, baderna, democracia, soberania popular, revolução. O remédio, para não dizer a profilaxe infalível, é a “Zerstreuung”, palavra alemã ambivalente, que significa “dispersão” e “distração”. Distraindo-se, não pensando no que importa, não enfrentando a realidade, o povo é mantido na dispersão. A valsinha chinfrim de Diabelli é uma manifestação especialmente primária de distração. Diabelli, um empresário de visão, pediu a 50 compositores da monarquia que contribuíssem, cada um com uma variação. Beethoven não respondeu, consta que fez comentários cáusticos sobre a valsa. Mas a insignificância do mote verrumou-o, e ele acabou por glosá-lo. À diferença de ciclos anteriores, não usou no título o termo “Variation”, mas “Veränderung”, termo, cujo sentido o nome da obra em português e muitos outros idiomas não reproduz. “Veränderung” significa, literalmente, transformação, mutação.

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Em sua análise muito instigante de 1968, hoje pouco conhecida, o pianista alemão Jürgen Uhde (1913-1991) recorre com propriedade a uma imagem da engenharia nuclear para descrever destino da valsa nas mãos de Beethoven: “Beethoven opera a fissão da matéria do tema, apoderando-se assim de todas as suas energias.” Esse processo, que pode ser observado em muitos ciclos de variações sem número de opus, que Beethoven escreveu sobretudo na sua primeira década em Viena, no fim do séc. XVIII, é radicalizado ao extremo no op. 120. Fragmentos do tema servem de ponto de partida para uma música inteiramente nova. Imaginemos Beethoven recolhendo lixo no aterro sanitário e mostrando que o resíduo pode ser matéria-prima para gerar valor.

O resultado é uma obra “melhor do que pode ser tocada”. Com essa frase espirituosa (“Só toco música, que é melhor do que pode ser tocada”), o grande pianista austríaco Artur Schnabel (1882-1951) definiu o que já foi denominado linhagem BBB. BBB, é forçoso dizê-lo no Brasil atual, não é sigla de Big Brother Brazil nem de Bancada da Bala, do Boi e da Bíblia, mas de Bach – Beethoven – Brahms e, como gostaria de acrescentar, de outros compositores, cuja obra é melhor do que pode ser tocada.

Hoje há muitas gravações do op.120 de Beethoven. Não conheço todas, mas ressalto as seguintes, sem intenção de estabelecer uma hierarquia:

Anatol Ugorski (nascido em 1942): gravado no recital em Tóquio em 22 de fevereiro de 1995 (duração: 59’51”)

Friedrich Gulda (1930-200): gravação realizada em fevereiro de 1970 (duração: 44’26”)

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Sviatoslav Richter (1915-1997): gravado no recital em Praga em 18 de maio de 1986 (duração: 50’23”)

Grete Sultan (1906, Berlim – 2005, Nova Iorque)

Coletânea de quatro CDs, intitulada “Piano Seasons” (WERGO 4043 2)

CD 2, faixas 1-34 (gravado ao vivo em Nova Iorque/Town Hall, em 1969: duração: 52’14”)

Desconhecida no Brasil, Grete Sultan, que só conseguiu sair da Alemanha e escapar ao Holocausto em 1940, foi uma pianista memorável, que tocou o repertório tradicional e obras do séc. XX. Foi famosa também como intérprete de John Cage, que lhe dedicou os “Études australes”.

Piotr Anderszewski (nascido em 1969): gravado e filmado por Bruno Monsaingeon entre 29 de julho e 3 de agosto de 2000 em Lugano (duração: 64’27”; precedido por um documentário com entrevista, com uma duração de 20’23”)

(DVD Piotr Anderszewski plays the Diabelli Variations: Idéale Audience/Virgin Classics 7243 5 99467 9 5

Imagino – e, na retrospectiva e da quarentena, faço votos – que Caio em 1980 ainda não estava nel mezzo del cammin di nostra vita. Estava em uma idade, na qual, na formulação concisa de Friedrich Gulda por ocasião da sua terceira gravação das sonatas de Beethoven, “a cabeça já e a técnica ainda funciona”.

A sua leitura do op. 120 de Beethoven ainda prende a respiração em 2020. Arrisco dizer que prenderá a respiração em 2060. Impressiona pela insólita precisão e clareza, mas não menos pelo fôlego. Pela eloquência. Pela verve. E pela captação do senso de humor da obra, ora barulhento, ora refinado e multifacetado, em sutilezas legíveis e, nesta gravação, audíveis.

Infelizmente, a gravação (LP RGE 303.1018) nunca foi reeditada como CD. Felizmente, está disponível agora no site Instituto Piano Brasileiro, em https://www.youtube.com/watch?v=4bsZZfCxLyY (duração: 50’32”). Pode, portanto, ser divulgada no mundo inteiro.

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É impossível enumerar aqui as maravilhas dessa gravação. Para os músicos, menciono apenas dois biscoitos finos:

  1. As tresquiálteras de semicolcheias no segundo compasso da Variação 22, que parodia Mozart (Allegro molto alla “Notte e giorno faticar”), são tocadas com um efeito “glissando”, que nunca ouvi tão bem (nesta gravação, a partir de 28’15”).
  2. A Variação 25 é tocada também “parlando”. O “parlando” é discretíssimo, mas faz toda a diferença e introduz um tom brejeiro (nesta gravação, a partir de 32’21”).

Descobri dois breves vídeos com as variações 29 e 30 (https://www.youtube.com/watch?v=wJc78HVqZsY) e as variações 32 e 33 (https://www.youtube.com/watch?v=89xcrpPy-ks), ao que parece, colocados na rede em fins de novembro de 2011.

Recomendo também ver o documentário sobre Caio Pagano, realizado no ano passado pelos seus alunos Angela Volcov, Dante Pignatari e Lidia Bazarian e encontrável em https://www.youtube.com/watch?v=10zzrhbia0Y (duração: 53’51”). Nele e na entrevista no programa Harmonia (https://www.youtube.com/watch?v=7DN-sJ41NOk), concedida em setembro de 2017 em Belo Horizonte (duração: 16’35”), o leitor e a leitora conhecerão Caio Pagano como professor e exímio contador de histórias.

Caio Pagano é o representante da tradição BBB no Brasil. E como não apenas toca, mas sabe o que toca e por que toca como toca, integra a pequena confraria dos pianistas-pensadores, como o pianista e escritor norte-americano Charles Rosen, falecido em 2012. Não escreveu livros, mas poderia e ainda pode escrevê-los, o que sempre mostrou nos seus concertos didáticos.

O que eu gostaria de ouvir de Caio Pagano?

As 25 Variações e Fuga sobre um Tema de Händel op. 24 de Brahms e as Variações e Fuga op. 81 sobre um tema de Bach de Max Reger. Mais não direi, para não ser imodesto.

Feliz aniversário!

Peter Naumann – Intérprete de conferências

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