Nei Lopes vê o samba sem representação e desfiles com a estética da elite, por Augusto Diniz

Foto Maria Ana Krack

Nei Lopes vê o samba sem representação e desfiles com a estética da elite

por Augusto Diniz

No dia 2 de dezembro celebra-se o samba. Poucos brasileiros, como Nei Lopes, definem com propriedade a palavra no seu sentido musical e no seu contexto histórico de manifestação popular de raízes africanas.

Nei Lopes tem quase 40 livros publicados, desde contos e crônicas a profundos trabalhos de pesquisa da cultura negra, além de uma dezena de registros fonográficos autorais – o samba ocupa papel central nesse patrimônio. São trabalhos densos e ao mesmo tempo prazerosos, de uma contribuição rara à compreensão desse País – não sei se um terço dos membros da Academia Brasileira de Letras construiu tamanho legado.

E vem mais por aí. “Tenho três livros no prelo, para 2019: um novo romance, um volume de crônicas e um livro sobre Ifá, ramo religioso que professo”, conta. “Além disso, estou terminando a revisão do segundo volume do ‘Dicionário de História da África’, em parceria com o professor José Rivair Macedo, da UFRGS” – a Universidade Federal do Rio Grande do Sul concedeu o título de doutor honoris-causa em 2017 ao escritor, pesquisador, cantor, compositor e poeta.

Com dedicação intensa à literatura nos últimos tempos – não dá para não citar nesse período o “Dicionário da história social do samba” (escrito com Luiz Antonio Simas), ganhador do Prêmio Jabuti 2016 -, Nei Lopes revela que gostaria de retornar ao estúdio, depois de quase dez anos sem gravar um trabalho solo inédito.

“Penso em fazer um disco com parte das músicas que tenho sem parceiros. São letras e melodias de minha inteira responsabilidade”, menciona ele, rindo. “Se eu conseguir, vai se chamar ‘Autoralíssimo’, modéstia à parte”.

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Nei Lopes diz que continua compondo – principalmente samba – com a mesma frequência dos 1970-80, quando iniciou sua carreira musical. “Tenho gravações recentes com parceiros e intérpretes importantes, como Zé Renato, Alfredo Del Penho, Moyseis Marques, Fabiana Cozza. Em 2015, ganhei o Prêmio Shell pelas canções que escrevi, sem parceiro, para o musical ‘Bilac vê estrelas’”, faz questão de lembrar ele, para não ter dúvidas de seu contínuo envolvimento com a música.

“Se o Zeca Pagodinho ou a Alcione não me gravam mais, a culpa não é minha. E nem deles, eu sei”, brinca.

Ele relata que há cerca de um ano, um samba seu em parceria com Fred Camacho, salgueirense como Nei Lopes, “viralizou” nas rodas e na internet. Trata-se da composição “Vara de Família”.

“Tornou-se um sucesso, sem nenhum jabá de gravadora, nenhuma ‘forçação’ de barra. Assim como este meu, tem vários outros. Só não chegam à mídia convencional porque não tem o suporte de nenhuma ‘bancada’”, relata.

O sambista usa o termo “bancada” no sentido daquele empregado no Congresso Nacional, de grupos de pressão de setores e segmentos da sociedade. Segundo Nei, o samba carece de representação hoje.

“Para mim, o que ocorre agora é diferente de tudo o que aconteceu antes. E eu atribuo à divisão do mercado musical em blocos específicos, de interesses econômicos bem definidos – assim como no Congresso Nacional tem as tais ‘bancadas’, na música também tem”, comenta. “E o samba, como um todo, e não apenas o das escolas, não é defendido por bloco nenhum. Sem trocadilho…”

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Sobre as escolas de samba, Nei Lopes torce para que se salve o que ainda existe. “Acho que o processo evolutivo continua, que fez os cucumbis se transformarem em cordões; estes, virarem bloco, que se fizeram escolas de samba; as quais, por sua vez, acabaram assumindo o legado estético das ‘grandes sociedades’”, avalia.

As grandes sociedades carnavalescas eram representadas no século XIX pela alta sociedade, com fantasias luxuosas, em contraponto às práticas carnavalescas populares da época.

“As escolas e o samba que elas produzem estão se transformando muito. E eu não tenho condição de avaliar o que vai suceder”, confessa um tanto desconfiado em relação ao futuro.

Mas o samba continua. Depois de sua data comemorativa (2 de dezembro) outros dias virão. E graças a Nei Lopes podemos ter contato com a real história do samba – e nos inspirarmos para a volta por cima.

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3 comentários

  1. Na cadência bonita do samba

    Como a Conceição Evaristo, Nei Lopes deveria estar na ABL. Mas a ABL virou sinônimo de estrela do jornalismo, do cinema, da politica e outros. Não é mais lugar dos bons escritores. 

  2. Como Luis Gama

    Nei Lopes é um brasileiro excepcional. Alguns de seus livros e sambas são divertidos, todos são sérios. Alguns são monumentos, como o Dicionário da Diáspora Africana e alguns citados no artigo. No entanto, os que aparecem como porta-vozes da negritude são em grande parte “celebridades” de televisão, sem nada de sua produndidade. Como Luis Gama, que fica esquecido entre os lutadores pela libertação do povo escravizado.

  3. Como Luis Gama

    Nei Lopes é um brasileiro excepcional. Alguns de seus livros e sambas são divertidos, todos são sérios. Alguns são monumentos, como o Dicionário da Diáspora Africana e alguns citados no artigo. No entanto, os que aparecem como porta-vozes da negritude são em grande parte “celebridades” de televisão, sem nada de sua produndidade. Como Luis Gama, que fica esquecido entre os lutadores pela libertação do povo escravizado.

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