O cego Levino Conceição

O violonista cego Levino da Conceição fez parte das fantasias da minha infância. Não sei por que, mas imaginava que em um determinado dia da minha infância, ele tinha tocado no casamento da tia Deca. E eu teria menos de sete anos, porque tinha sido na casa da Rua Santa Catarina. Provavelmente era outro violonista cego.

As fantasias sobre Levino vinham das histórias que tio Léo nos contava. Adolescente, no Rio de Janeiro, ele teve aulas com Levino, em um conservatório que ele mantinha na rua do Catete, junto com João Pernambuco.

Na parede da sua sala, havia um retrato autografado do violonista Dilermando Reis. Nome mais popular do violão brasileiro nos anos 50, Dilermando fora encontrado por Levino em uma excursão a Guaratinguetá. Durante algum tempo excursionou com Levino, carregando seu violão, segundo as lendas. No conservatório, depois do início das aulas, Levino passou ao discípulo Dilermando a tarefa de dar aula ao colega Leonardo.

Tio Léo tinha um repertório de umas quatro ou cinco músicas de Levino. Uma delas, com a mesma introdução que Dilermando utilizou em “Noite de Lua”. Tio Léo insistia, também, que o Choro número 1, de Villa Lobos, era baseada em uma música de Levino.

Levino nunca teve um tratamento condizente com sua importância histórica seu talento. Um dia cobrei de Raphael Rabello informações sobre o mestre. Raphael me disse estar pensando em gravar um CD com sua obra. Músico de Niterói, as partituras de Levino estão sob a guarda de um compositor da cidade, grande cavaquinho, cujo nome me falta agora.

Raphael morreu sem resgatar Levino. Anos atrás semana recebi do jovem Leandro Carvalho três CDs admiráveis, um dos quais com composições de Levino.

Há muito tempo já devia ter escrito sobre Leandro. Conheci-o anos atrás, na inauguração de um bar de música de São Paulo. Chegou um rapaz, mal saído da adolescência, e me presenteou com um CD que havia gravado com músicas de João Pernambuco. Além do talento instrumental, demonstrava uma enorme paixão com a história do violão.

Depois disso, acompanhei sua carreira por notícias de jornal. Não consegui assistir shows seus, por essa praga de televisão, que me toma todas as noites. Leandro já faz parte do primeiro time dos violonistas brasileiros, com um ecletismo e uma ausência de preconceitos musicais notáveis. Tem um CD com composições de João Pacífico (o autor de “Cabocla Teresa”), com a participação de Jair Rodrigues e duplas caipiras. Tem o “London”, com clássicos da bossa nova, acompanhado por quinteto The Brittan String. O CD “Cromo”, com as composições de Levino, tem a participação especial do Quinteto da Paraíba, com arranjos muito bem cuidados.

Nascido em Cuiabá em 1895, Levino Conceição fez parte do grupo de violonistas que revolucionou a música brasileira a partir dos anos 20, gravitando em torno dos históricos Turunas da Mauricéia, de João Pernambuco. Ficou cego aos sete anos de idade. Aos 12 mudou-se para o Rio de Janeiro e foi estudar no Instituto Benjamin Constant. Segundo o Dicionário Cravo Albim, em 1917 passou a ministrar cursos de violão para cegos.

Os anos 10 e 20 foram uma década incrível para o violão brasileiro. Nesse período, ocorre a aproximação de João Pernambuco e Levino com Villa Lobos e o paraguaio Agustín Barrios. No release do CD, Leandro conta acerca da divergência sobre a autoria da música “Tarantella”, que muitos atribuíam a Barrios. Segundo lhe afiançou Ronoel Simões -o maior expert de violão no mundo–, em grava;ao de Barrios a autoria é atribuída ao próprio Levino.

Dentre todas as músicas de Levino, uma de nossas preferidas era a “Saudades do Rio Grande”, que, com letra de Nelso Paixão (“álgida saudade que me maltrata / desta ingrata que não me sai do pensamento”), mereceu uma gravação histórica de Augusto Calheiros, o cantor dos Turunas.

No site cultural da Petrobrás, fica-se sabendo que patrocinou o projeto “Origens do Violão Brasileiro – Cego Levino”, de Ezequiel Paula Pias, de Curitiba, com CD, livreto, concertos e palestras,

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